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Antes tarde do que nunca

por Fernando Zocca, em 15.04.19

 

Quando fomos candidato a vereança há muitos e muitos anos passados, primeiramente pelo PDT e depois pelo PSDB, uma das nossas propostas era a da priorização, pelo poder público, das praças e jardins.

A necessidade se nos deparava em virtude de não haver, na maioria dos bairros, distantes das áreas centrais da cidade, locais diversos do próprio lar, que não fossem os botecos, onde as pessoas também pudessem estar bem.

O pessoal eleito, naquele tempo tinha como objetivo mais ajeitar a própria vida, e a dos parentes próximos, do que propriamente resolver situações outras que não lhes favorecessem os projetos.

Então a especulação imobiliária, tanto nas regiões centrais, como nas periferias, era o interesse dominante.

Esse tipo de mentalidade carreou ao legislativo e ao executivo do município, personalidades que se dedicaram, (algumas estão aí até hoje), a manterem seus focos prioritários nos ganhos decorrentes da exploração dos negócios imobiliários.

Em defesa daquela política não tão salutar, difundiam-se os argumentos de que os tais logradouros públicos só serviriam para a concentração dos desocupados, viciados e criminosos.

As motivações pelo desenvolvimento das propostas que só se referissem aos condomínios de luxo extremo, pontes, viadutos e prédios públicos suntuosos, impediam o entendimento de que com o policiamento eficiente, nas áreas destinadas ao lazer e ao bem estar do cidadão, a diluição dos problemas impeditivos alegados seria bem efetiva.

Bom, o que vemos hoje, passados tanto tempo, e a condenação de muitos envolvidos nos desvios dos dinheiros relacionados a contratos com as empresas, empregadas na realização das obras do governo, é o poder público especialmente aqui de Piracicaba, dirigir esforços (antes tarde, do que nunca) na criação de locais onde a população tenha onde ficar, e o que fazer, que não seja o só bebericar nos recintos dos botequins.     

 

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Os inocentes e a lei

por Fernando Zocca, em 10.04.19

 

 

 

Bandeira norte-americana.png

 

Não pode ser possível que todas as pessoas que deixam seus países em crise e se dirigem, nestes tempos difíceis, aos Estados Unidos sejam assassinos, estupradores ou traficantes de drogas.

É claro que dentre as multidões que buscam melhores condições de vida nos Estados Unidos pode haver alguns criminosos.

Entretanto é necessário que, para a classificação de alguém como fora da lei, haja o cometimento de crimes no território norte-americano, com apuração responsável, provas concretas da existência da autoria e da materialidade.

Não haveria bom senso em generalizar categorizando todo mundo como infrator da lei.

Seria até mais barato do que construir um muro imenso, a elaboração de triagens e a destinação dessas pessoas aos locais previamente escolhidos, onde desempenhariam funções garantidoras dos seus próprios sustentos.

É claro que seria bem mais barato deixar que o judiciário se ocupasse das ocorrências feridoras da lei do que empregar bilhões de dólares numa construção faraônica.

Um dos princípios fundamentais do direito nos diz que todos são inocentes até prova cabal em contrário. Em casos de ilicitude é o Estado que deve provar ser o cidadão um criminoso.

Mas não é o que atualmente acontece com as pessoas que buscam nos Estados Unidos vidas mais dignas. Parece que antes mesmo de qualquer fato são elas todas classificadas como foras da lei.  

Juízo e bom senso não fazem mal a ninguém. Ainda é tempo de revisão das políticas que mais oneram os cofres do Estado do que propriamente resolvam os seus problemas.     

 

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Atendimento pós-venda

por Fernando Zocca, em 29.03.19

 

 

Comprei uma moto (sim, meu amigo, pobre também pode ter moto) Honda Start 160, na revendedora Beni Motos situada em Piracicaba, na Av. Armando de Salles Oliveira.

Depois que me entregaram o veículo, o atendimento pós-venda, passou a ser feito à Rua Benjamim Constant, 1752.

A revisão da entrega aconteceu no dia 15 de setembro de 2017. A primeira revisão – manutenção periódica - após a entrega do veiculo, deu-se no dia 05 de março de 2018; a segunda revisão no dia 15 de setembro de 2018; a terceira revisão aconteceria depois dos 18 meses a contar da data da compra.

No manual do proprietário há explicações do procedimento a ser seguido pelos revendedores. E deste consta que a troca de óleo e a mão de obra serão gratuitas a partir da terceira revisão até a sétima.

Mas não é bem assim que as coisas funcionam. Daquelas teorias todas do manual, a prática, meu amigo, é bom diferente.

Em contato telefônico com funcionário da Beni Motos (Rua Benjamim Constant, 1752), nesta data (29 de março de 2019), fui informado que os serviços da tal revisão (mão de obra) e troca de óleo, não seriam gratuitos e que pelos cálculos da empresa, o custo seria de R$ 501,00 (quinhentos e um reais).

Das duas uma: ou o manual do proprietário não contém verdades, iludindo o consumidor, ou a empresa Beni Motos cobra injusta e ilegalmente por serviços que deveria efetuar gratuitamente.

Revisão, ao que se sabe é rever o que já foi visto. Mas a minha moto não foi revisada, depois da segunda, que ocorreu em 15 de setembro de 2018.

Segundo a conversa do funcionário que me atendeu hoje pela manhã (29 de março de 2019) ao telefone, pela troca de vela, regulagem das válvulas e desmontagem do motor o valor cobrado seria de R$501,00.

O interessante, que chama a atenção do consumidor é o sujeito saber tudo o que tem de trocar, e todo o serviço a fazer no veículo, ainda em garantia, sem tê-lo visto nem de longe.  

Está certo que a crise está brava. Mas não vamos exagerar não é?

Aconselhamos A Honda do Brasil, instalada na Amazônia, que proceda a revisão do manual do proprietário (que é entregue ao consumidor no ato da compra) e que também treine melhor os funcionários responsáveis pelas vendas dos seus produtos aqui no Brasil.

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Livrando o preso

por Fernando Zocca, em 25.03.19

 

 

Acostumado a andar a pé pelas ruas da cidade, depois que comprei a moto, há mais de um ano, desacostumei completamente.

E pra ver o que restava do meu desempenho de pedestre, deixei hoje, depois do almoço, a condução, indo pro clube praticando o velho pedestrianismo.

As juntas todas agradeceram. Depois de 5 quarteirões vendo quase todos os demais veículos passarem por mim a quase 100 kilometros por hora, na Avenida Alberto Vollet Sachs, ponderei não haver muita importância em chegar tão depressa ao destino.

Afinal os que se valem dos deslocamentos muito rápidos são os veículos do Samu, das Polícias ou dos Bombeiros.

Durante o trajeto, depois que passei por um depósito de material reciclável, fui ultrapassado por um bêbado que, daquele jeito, mais de quem cercava frango, do que do de Usain Bolt, buscava safar-se de um chinês que corria atrás dele com um ferro imenso na mão.

A cena me interessou muito. A curiosidade me fez parar na esquina da rua próxima. Ali estavam os dois homens. Um encostado na parede, completamente acuado, e o outro, emitindo palavras em mandarim, brandia loucamente um pedaço de ferro diante da face do alcoolizado.

- Pagar... Pagar... Pagar... – falava num português enviesado o chinês cobrador.

Imaginei que ambos saíram de um rendez-vous que há tempos viceja no trecho. Sem ter como se livrar da cobrança violenta o ébrio clamava dizendo que pagaria mais tarde toda a sua conta.

Completamente alheio aos clamores do encachaçado, o chinês enfurecia-se mais e mais a cada momento.  

Foi quando então, ao que parece, um conhecido do devedor aproximou-se da zona do conflito.

- Eu disse que ia até o banco pra sacar o dinheiro e pagar a conta, mas esse chinês burro não acreditou – informou o ébrio ao seu conhecido que chegava.

Impassível o cobrador brandia com, cada vez mais revigorado ardor, o bastão de ferro diante da cabeça do atordoado.

Então o parceiro do bebum, tirando do bolso uma carteira gorducha, e perguntando quanto seria a dívida do fugitivo, mandou pras mãos do china os valores cobrados.

Aliviado e sem dizer qualquer palavra, depois do afastamento do credor, o ébrio sentou-se na mureta de uma casa em ruínas.

- Com essa idade e tamanho você ainda não aprendeu que deve pagar as pingas que bebe principalmente se estiver naquele puteiro miserável?

- Obrigado. Um dia eu te devolvo a grana – garantiu o folgado.

- É bom ir se preparando, meu amigo, porque os remédios pra gonorreia não estão assim tão em conta – avisou o salvador ao se afastar do preso que acabara de livrar.

Texto revisado

26/03/2019  

  

 

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O gato preto

por Fernando Zocca, em 18.03.19

 

 

 

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No bar do Bafão o jogo do bicho corria solto. E quando Elly Copter entrou, naquela manhã depois de desembarcar do seu fusca bege 1990, estacionado defronte ao estabelecimento, foi logo perguntando ao proprietário:

- Que bicho dá hoje, nobilíssimo fazedor de sorvetes, desta nossa urbe importante?

Bafão que, como de costume, alisava o tampo do balcão com o guardanapo de algodão, respondeu rapidamente:

- Pode até ser que seja cabra. Mas como faz tempo que a cobra não aparece fico na dúvida.

Elly palpou os bolsos, certificou-se da presença do dinheiro, ganhou segurança, pediu uma cerveja e falou em seguida:

- O bote da cobra pode não estar tão eficiente nesses dias. Talvez por isso ela não apareça. Se tivesse mais sapos na área ela certamente não se esconderia tanto.

- O vereador “boquinha de chupar ovo” veio mais cedo. Ele fincou 10 reais no cachorro – comentou Bafão.

- Esse cretino só aposta no cachorro. Ele não faz outra coisa do que diplomar a quem nele votou. Uma besta cardíaca – arrematou Elly sorvendo o primeiro gole de cerveja.

- A mulher dele é nutricionista. Ela tinha um bufete industrial que preparava salgadinhos do tipo coxinhas, empadinhas, tortas, bolos, croquetes e o escambau. Parece que a empresa desandou depois que o contador iniciou um fissuramento da contabilidade do negócio, precipitando o rompimento da integridade financeira da empresa – informou o dono do boteco ao lavar os copos na pia postada debaixo da prateleira.

- Quando sonho com ele, no dia seguinte dá touro ou vaca. Coisa de bicho chifrudo – Elly já sentia os efeitos do álcool.

- Donizete Pimenta comentou que esse tal de “boquinha de chupar ovo” e Zé Lagartto, que sempre andam juntos, tinham a mania de fazer “correntes”, e que mandavam seus assessores parlamentares jogar nas casas dos eleitores durante as madrugadas – reportou Bafão.

- Isso é coisa de débil mental. Fraco das ideias. Essas atitudes mancham a reputação da cidade.

- Não sou um leão, mas também dou os meus urros – esgoelou Delsinho Espiroqueta ao entrar no boteco, balançando as ancas e desmunhecando.

- Vejo que você está mais pra gata no cio do que para qualquer outro bicho – rebateu Elly Copter pedindo outra cerveja.

O trio já se entrosava numa conversa animada quando parado na calçada, defronte a porta do bar, Zé Laburka, com as mãos na cintura, batendo o pé direito no chão e em tom de censura condenava o parceiro:

- Mas de novo, no boteco, Delsinho? Você não se emenda não minha filha?

- Falange, falanginha, falangeta... Sem sossego até pra comprar feijão do bar do Bafão. Assim não dá, assim não pode... – resmungou Delsinho arrastando raivosamente os chinelos ao sair pra rua.

Elly Copter e Bafão se olharam.

- Pelo jeito nem leão, gato, cobra, cachorro ou cabra. Hoje vem veado na cabeça - concluiu Elly Copter.   

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Vigor

por Fernando Zocca, em 04.03.19

 

 

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Era noite de domingo de carnaval; ao me aproximar do local da festança pude ouvir, o som que de lá vinha.

Na porta me identifiquei e, desviando do aglomerado de gente no átrio, cheguei até perto do salão lotadíssimo.

Foliões dançavam e pulavam bebericando cerveja das latas seguras pelas mãos alçadas pro alto.

Parei pra sentir melhor o clima. O som forte emitido pelas caixas, postadas sobre o palco, vibrava tanto o ar que pude sentir na pele os tremores lançados no ambiente.

Na minha frente, de repente percebi entre confetes e serpentinas, um ser de biquíni, óculos de sol, viseira, uma tremenda bolsa numa das mãos e uma lata, de meio litro de cerveja, na outra.  

A figura bailava remexendo os ombros e os quadris. De vez em quando erguia os braços tentando acompanhar os cantores suadíssimos.

Parei diante dela e ouvi:

- Mas como assim? Onde já se viu isso? No carnaval, no baile de domingo... Gente... Tocando funk. Eu não acredito.  

Olhei para a foliã e ela, tentando erguer a parte superior do seu biquíni, com a mão direita e com a esquerda, que segurava ao mesmo tempo a tal sacola verde e também a lata vermelha de cerveja, continuou:

- Gente eu não acredito nisso. Música sertaneja no baile de carnaval. Meu... Isso aqui ainda é o Brasil?

Apesar da agitação do entorno, do embasbacamento da foliona, pude observar detalhadamente seu corpanzil: era extremamente saudável, pele bronzeada, quase sem gordura, algumas sardas realçavam o tom de saúde; as pernas eram curtas, mas fortes, os pés embalados num par de sandálias de couro, davam a impressão de que a tal era adepta das caminhadas ou corridas. Os joelhos flexíveis, de vez em quando, conforme o tom, favoreciam pulinhos delicados.

- Que delícia – disse eu observando aquele rabo lindo de cabelos escuros que lhe descia pelas costas.

Quando ia lhe perguntar se estava sozinha surgiu uma figura alta, com óculos de sol, barba espessa, cabeleira que mais lembrava um tufo embaralhado de pelos longos que parou diante da foliona. Ela imediatamente segurou-lhe o braço e concluiu seu discurso:

- Mas onde estão as marchinhas de carnaval? Quem não se lembra do “Oh jardineira, por que estás tão triste? Mas o que foi que te aconteceu? Foi a camélia que caiu do galho, deu dois suspiros e depois morreu...”

Eu ia completar a canção com “Vem jardineira, vem meu amor, não fiques triste que este mundo é todo seu, tu és muito mais bonita que a camélia que morreu”, quando ela, segurando firme no braço do recém-chegado continuou:

- Ei, você aí, me dá um dinheiro ai, não vai dar? Não vai dar não? Você vai ver a grande confusão que eu vou fazer bebendo até cair...

Despedindo-se de mim, o casal ia seguindo em frente, aproveitando o “trenzinho” que passava quando eu, enchendo-me de coragem, sem medo de qualquer rechaço, perguntei:

- E a senhora, quantos anos têm?

Partindo e olhando por cima do ombro direito ela respondeu:

- 75.

“Nossa, que vigor!” – pensei indo pro bar onde compraria uma cerveja.

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O Assunto da Comunidade

por Fernando Zocca, em 13.02.19

 

 

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O que acontece hoje relacionado ao SEMAE (Serviço Municipal de Água e Esgoto) é um fenômeno político/ideológico chamado privatização.

É a saída do estado da administração daquelas atividades consideradas essenciais para a população, entregando-as aos empreendedores.

Então o que ocorre com essa autarquia municipal é o desinteresse administrativo por ela, concretizado na ausência da renovação do pessoal empregado, inibição do aporte das verbas municipais destinadas ao reparo/manutenção do maquinário especializado, e descerebração administrativa.

Essa orientação ideológica municipal, diferente do direcionamento estatizante, pregado pelo petismo, segue o exemplo capitalista das grandes privatizações feitas pelos governos federal e estaduais, ao longo dos anos.  

Desta forma a administração municipal se exonera de pagar salários aos trabalhadores da empresa, deixando também de solicitar/prestar auxílio financeiro quando possível e necessário.

Esse “menos estado” na vida do citadino carece de bastante tempo para a assimilação. Um fato importante é a apuração da justeza empregada nos preços cobrados pelos serviços de água e esgoto. Como saber se os valores cobrados não são abusivos?

No entendimento da administração atual a autarquia deixaria de ser um tremendo “cabide” de empregos em que os cargos serviriam somente para agasalhar os correligionários do chefe do executivo na berlinda.

Segundo essa opinião, a produtividade seria o norteador da gestão da empresa agora particular.   

Num momento da política mundial, especialmente na América Latina, em que alguns ditadores da esquerda buscam manter o poder mesmo à custa de muito abuso, crueldade e sofrimento intenso da população, a entrega à iniciativa particular das várias atividades, antes administradas pelo poder público, não deixaria de ser bem salutar.

 

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Cuidando dos bichinhos

por Fernando Zocca, em 10.02.19

 

 

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Os animaizinhos que fazem parte da vida de muita gente também adoecem. E nem sempre é possível cuidar da saúde deles em casa.

Diante da aflição que o sofrimento do bichinho de estimação provoca nas pessoas, muitas não conseguem enxergar que o auxílio dos especialistas deve ser providenciado.

Por mais trabalhoso e, às vezes, muito cara que seja a visita do veterinário, ela ainda deve ser priorizada.

No entanto, sabemos que o cuidado a ser dispensado ao animalzinho nosso de estimação, não podendo ser feito em casa, muita vez, o será na própria clínica do profissional escolhido.

Não deixa de haver situações em que muitas clínicas se veem com suas dependências completamente lotadas de animais que passam por tratamentos. Daí não ser impossível a ideia da criação e organização de um hospital próprio para os nossos bichinhos queridos.

Partindo da noção de que, em algumas cidades, são comuns os cemitérios para os bichos, não é descabido o estabelecimento de um local próprio para a internação e tratamento dos amiguinhos sofredores.

A gente sabe que não é somente o cachorro, o gato, o papagaio, o coelhinho, ou qualquer outro animal de estimação, que sofre muito com a doença.  Os próprios donos também passam por momentos difíceis de suportar.

Por isso não haveria melhor solução para esse tipo de problema do que entregar, aos cuidados do pessoal especializado, nos locais especialmente feitos para tais fins, os bichinhos que sofrem.

Existe muita gente de bom coração que, por iniciativa própria, resolve acolher os animais encontrados em situação de abandono pelas ruas.

Mas nem sempre as condições positivas de higiene, alimentação, medicações e até mesmo da própria organização administrativa, são suficientes para a manutenção desse tipo de trabalho voluntário por muito tempo.

Portanto o hospital veterinário, para muita cidade importante, com administração pioneira, supriria lacunas há muito existentes.      

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Mergulhando e Nadando

por Fernando Zocca, em 22.01.19

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Ninguém imaginaria ver a vovó Bim Latem (ex-chefe de gabinete do Jarbas, o caquético testudo), Luísa Fernanda, Célio Justinho, Donizete Pimenta, Dani Arruela e o doutor Silly Konne Carneiro na mesma piscina, ao mesmo tempo, mas isso, meu amigo, realmente aconteceu. Foi assim:

Reclamando muito do calor, uma boa parte do pessoal residente em Tupinambicas das Linhas resolveu refrescar-se na piscina de águas claras do Clube Tupinambiquence Diving and Swimming.

Ninguém marcara antes qualquer encontro, mas durante uma tarde quentíssima, tomados por certa morosidade causada pela timidez, primeiramente adentraram na área do entorno da piscina, Luísa Fernanda e Célio Justinho.

Luísa vinha trajando um biquíni verde oliva, mas mantinha envolto numa toalha felpuda especial, os quadris que bamboleava ao caminhar. Entre o indicador e o médio da mão direita um cigarro recém-aceso fumegava impune.

Vestindo uma sunga rosa, equilibrando um par de óculos escuros no rosto, trazendo uma toalha preta nos ombros, simulando falar ao telefone celular, que, aliás, nem crédito tinha, e andando rapidinho por causa da quentura do solo, Célio Justinho seguia atrás da parceira.

- Mas você faz assim: um serviço de alto-falantes dirigidos a alguns pontos estratégicos do clube pode simular uma rádio. A gente gosta de música sertaneja. É só mandar bala na bagaça, mano – falava, com ênfase, Célio Justinho - Quem não gostar que se mande, que se trumbique.

Quando o casal, aproximando-se rapidamente do local onde havia uma extensa cobertura proporcionadora duma sombra salvadora, Luísa Fernanda ao ouvir o que dizia o parceiro respondeu:

- Serviço de alto-falantes não é rádio “mor”. O ouvinte de rádio pode modular o som, aumentando-o, diminuindo-o, trocando de estação e até desligando o abençoado. Mas nesse serviço, que você insiste em implantar, o ouvinte não tem escolha: só pode ouvir o determinado chateando-se todo. Isso que deseja fazer não passa da expressão dos princípios da tortura.

Logo a seguir, adentrou na área do entorno da piscina o doutor Silly konne Carneiro, o mais famoso médico psiquiatra tupinambiquence. Andando rapidamente sobre o solo abrasador ele se achegou sob a sombra, sentou-se numa das cadeiras ali dispostas, tirou da sua bolsa imensa uma touca de natação, óculos, snorkel, pés de pato e protetor solar dispondo tudo meticulosa e ordenadamente sobre a mesa ali havida. Em seguida ritualisticamente passou a despir a camiseta, o par de tênis, a bermuda e não deixou de alisar a sunga vermelha vestida por baixo.

Depois de haver se equipado todo Silly aproximou-se da borda da piscina e sem qualquer empecilho, ou dúvida, lançou-se n´água.

- Ih, a lá, neguinho tá se afogando! – gritou a vovó Bim Latem que viu o velhote barrigudo afundar e demorar-se junto aos ladrilhos do chão.

Donizete Pimenta que jamais imaginara ver tamanha quantidade de água limpa em toda sua vida pode observar que o barrigudinho subia logo à tona iniciando a natação.

- Minha nossa senhora do chuveiro, dai-me resistência. Eu que até hoje, só vi tanta água assim em alagamentos e represas, posso perceber que o cidadão está nadando igual a um peixe cascudo – anunciou Dani Arruela.

A vovó Bim Latem que naquele momento tinha na cabeça um chapéu imenso, diante dos olhos um par de óculos de lentes pretas, vendo transbordar dos limites do biquíni a gordura acumulada dos seus quase noventa anos, achegando-se perto da Arruela segredou:

- Aquele metido ali é o Carneiro. Ele só anda de Galaxie 69. Lembra dele? Olha que lindinho...

É claro que Arruela não conhecia o Carneiro. Mas algo os unia; certamente não tardaria o momento em que ambos se veriam frente a frente naquele mais supimpa e formoso consultório especializado.       

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Academia de Letras

por Fernando Zocca, em 09.01.19

 

 

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- Que tempos foram esses, meus amigos, durante os quais se “encheram as bolas” desses cretinos fazendo-os pensarem que eram o que na verdade nunca foram? Viram no que deu aplaudir a nulidade, a mediocridade, a burrice, simplesmente por ignorarem como contorná-las? Mas não é mesmo ruim de ver o saldo atual dessa insanidade irrefreável? O mau caratismo de alguns aproveitadores fazendo a vovó viúva lhes comprar um automóvel, sob o pretexto de que se ela precisasse de socorro, por causa dos cada vez mais frequentes achaques da senectude, o teria ali, prontamente, com o tal fom-fom bonitão, proporcionou nos demais herdeiros, boquiabertos e inconformados, sem dúvida nenhuma, o desejo de também “morder” parte da herança deixada pelo falecido esquartejador de porcos e bois. Viram no bafafá que deu? Sobrou, sobretudo para a criançada. Cresceram doidas, malucas, desesperançadas, sem terem pra onde ir e nem o que fazer. No salve-se quem puder não se via mais nada do que irmão brigando contra irmão: era rasteira, rabo de arraia, cotovelada no cangote, chutes no saco e dedadas nos olhos os golpes que mais se viam. Isso sem falar na maledicência, difamação, nas calúnias, nos descréditos, nas depreciações pessoais, usados por todos, contra todos, durante muitos e muitos anos. Tudo pra poder ficar com as maiores partes da herança deixada pelo falecido. Se pelo menos o abestado não fumasse nem bebesse tanto poderia ter se livrado do AVC que o mandou ao sepulcrário; quem sabe até, se tivesse Deus piedade, a vida lhe orientaria no sentido de transformar, o trecho em que vivia, em um lugar muito melhor do que na tal zona de inquietude psicológica, desassossego emocional, que o local maduro, quase podre, se transformou depois da sua morte. Como poderíamos aceitar meus amigos, que algumas mentes frequentemente encachaçadas, misturassem, nos constantes surtos psicóticos que as acometiam, os conceitos do jogo do bicho com os enunciados da astrologia? O que diríamos àqueles crentes que os veterinários tinham tudo a ver com os ícones do jogo do bicho? Que mentalidade é essa, meus amigos, vigente especialmente nesta cidade, em que para provar que o sujeito não é otário, laranja, deve enganar mil e uma pessoas, tomando-lhes inclusive os bens? Meus livros, meus artigos, meus contos, minhas crônicas e demais textos publicados durante todos esses anos refletem esta pobre e miserável realidade vivenciada com muito sofrimento. O que escrevi está escrito. Se tivesse que voltar no tempo faria tudo igual. Encerro então, com estas palavras, este meu discurso de posse nesta honorável Academia Tupinambiquence de Letras. A todos que acreditaram no meu trabalho e em mim puseram sua escolha a minha eterna gratidão. Meu muito obrigado – disse comovido Zé Cíliodemorais ao auditório repleto da Academia Tupinambiquence de Letras, provisoriamente reunido no salão nobre da câmara de vereadores da cidade.

Então mais rápido do que a exibição dos créditos da novela, Abdo Minnal, que secretariava a sessão, presidida por Virgulão Abobrinhoso, após as assinaturas de praxe nos livros usuais, deu-a por encerrada.

Delsinho Espiroqueta, Dani Arruela, Zé Laburka e Donizete Pimenta que aguardavam o término da sessão do lado de fora, na calçada, aproximaram-se do mais novo imortal da academia.

- Nossos parabéns seu Zé Cíliodemorais. A gente que lia muito o Diário de Tupinambicas das Linhas, seu inesquecível jornal, tem o maior orgulho de ser seu conhecido.

- Ah, muito obrigado. É bondade de vocês.

Completamente cercado pelo grupo de admiradores Zé Ciliodemorais ouviu:

- A Dani Arruela também quer ser escritora. Ela tem o desejo de publicar livros como o senhor. E quer, vá vendo seu doutor, ser eleita imortal da academia – confidenciou Donizete Pimenta.

- Ah, para. Tenho vergonha. Não fala isso! – interrompeu Arruela contorcendo-se toda.  

- É verdade, seu doutor. Ela quer porque quer – reforçou Laburka ao modular o volume dos aparelhinhos contra a surdez - Ela já sabe até conjugar verbos.

- Ai, para gente. Que vergonha – defendia-se a tímida Dani pretendente.

- Mostra pra ele Dani. Mostra o que você sabe minha filha. Conjuga o verbo ver – incentivou Delsinho espiroqueta num tom de voz esganiçado.

- Ai gente, que vergonha. Mas é o verbo ver que vocês querem? Então tá: eu olho, tu olhas, ele olha, nós olhamos, vós olhais e eles olham.

Van de Oliveira, que passava pelo grupo reunido na calçada, defronte a câmara de vereadores, ao ouvir o que diziam sentenciou:

- E pensar que esta cidade, destacando-se dentre todas as demais, era conhecida como a Atenas do Estado de São Tupinambos...

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