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A astrologia e o jogo do bicho

por Fernando Zocca, em 13.07.19

 

 

Esse negócio de Astrologia é muito sério. E quando ocorre então, na mente das pessoas extremamente sugestionáveis, a combinação com o jogo do bicho, a coisa pode complicar bastante.

Por exemplo, o sujeito reside numa casa cujo número é 164. No bicho, a dezena 64 é o leão.

Bom, daí o camarada que é geneticamente prejudicado, carente dos mais básicos ensinamentos da escola primária, dado ao alcoolismo ou à drogadição, depois de saber, pelos guias astrológicos, das chamadas características dos “leoninos”, pode comportar-se, em alguns sentidos, como o tal bicho.

Então o sujeito, ou os sujeitos, cabeças fracas, crendo terem algumas características do tal animal silvestre e num poder capaz de lhes conceder, por exemplo, o domínio do quarteirão, praticariam as mais bizarras barbaridades como agredir vizinhos, parentes, e abusar sexualmente, além da concubina, também das crianças enteadas sob sua responsabilidade.

O tal, que pensaria possuir alguns atributos do leão, ingeriria muita comida, principalmente carne, de frango ou de vaca.  Daí a ter problemas de estômago, intestinos e vomitar constantemente, é um pequeno passo.

Se o bendito, pelos números do dia ou mês, do seu nascimento identifica-se, por exemplo, com o gato, pode agir como esse bichano, furtando objetos da própria família, confirmando a crença de que esse bicho é ladrão.

Agora se o camarada reside numa casa cujo final é 24 ele pode até retirar a plaquinha identificadora do imóvel, ou tentar seduzir a mulher do vizinho, provando que, apesar de residir sob o número correspondente ao veado ele é macho, muito macho mesmo.

Nesse sentido não há de se achar estranha a atitude do cidadão que, tendo nascido num dia 18 (no bicho porco), dedica sua vida inteira ao comércio da carne desse animal.  

Se o menino nasceu sob o signo de Virgem (22/08 a 22/09) pode sofrer alguma rejeição ou até mesmo o bullying na escola, nos esportes, nas corporações militares e clubes sociais.

- Ah, esse é fraco. Afrescalhado, não serve – diriam os sabichões, que por terem rixa com os pais do garoto o rejeitariam com essa alegação irrelevante.   

As atitudes criminosas de alguns psicopatas, às vezes, chegam ao ponto de agir no sentido de envolver a vítima em combustível, por crerem que o escorpião, quando cercado pelo fogo, mata-se.

No bicho o 93 corresponde ao veado. Você acredita que tem quem não queira residir numa habitação que lembre esse bichinho delicado e fresquinho?

  

 

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Compadrio

por Fernando Zocca, em 10.07.19

 

 

Escutas telefônicas revelaram a que ponto chega realmente o tráfico de influência dentro do Judiciário. Estamos falando em nível de interesse federal, de um assunto que tem a ver com a população e instituições todas do Brasil.

Agora imagine o que acontece nas cidadezinhas interioranas onde determinados grupos políticos monopolizam o poder durante décadas e décadas a fio.

Sabe quando um miserável, um pobre, vence uma demanda contra um grupo capaz de fazer a maior marola dentro dos limites da urbe?

Esse ideal de justiça é muito relativo. Se o camarada tem como angariar simpatias para si, e rejeições para o oponente, criando opiniões, não tem como deixar de oprimir o desgraçado.

Neste sentido o sujeito pode viver, numa boa, mesmo abusando sexualmente do menino e da menina, seus enteados, sem qualquer problema de ordem legal desde que a opinião vigente no trecho seja-lhe favorável. De certa forma estaria o criminoso blindado contra qualquer investida das chamadas autoridades encarregadas de observar o cumprimento das leis.

Jeitinho, tráfico de influência são, na verdade, sinônimos de compadrio, que nada mais é do que intimidade, proteção exagerada e injusta.       

Imagine o compadrio sendo superado pelo estrito cumprimento do dever legal. Sabe quando?

É bastante comum, o indivíduo, quando sem qualquer argumento, referir-se às razões do oponente, com a afirmação de que “não tem nada a ver”.

Essa tentativa de desmerecimento, de desqualificação é bastante comum em quem não está lá com a bola tão cheia em termos de razões positivas embasadoras das suas opiniões.

Na verdade – como diria o contabilista Hein Hiquedemorais, patrocinado pelo combativo, Orlando Pavoneoso - nada a ver acontece quando, o sujeito na piscina, bem bêbado, nadando debaixo d´água, observa atentamente as partes das barangas.

 

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O ébrio da D 20 branca

por Fernando Zocca, em 02.07.19

 

 

 

Para quem estava acostumado a me ver sempre, durante anos e anos, de paletó, gravata, calça social e sapatos, a exclamação expressiva da grande surpresa, dita por um colega de profissão, ao me ver parado defronte ao semáforo, perto do Fórum, não poderia ser outra:

- Zocca! Como ocê tá boy, meu... De moto? Como assim?

Perto da faixa de pedestres vi o estimado colega que, embalado nos trajes formais, dos que militam no judiciário, subia a pé, ofegante, pela calçada, a Saldanha Marinho.

Aproveitando a ausência dos pedestres aproximei-me adentrando a faixa reservada a eles e, levantando a viseira do capacete cumprimentei o advogado que há muito e muito tempo não via.

Trajando terno cinza, camisa branca, colete, gravata e o rosto entumecido pelo calor do esforço da caminhada ele se aproximou mais e mais de mim que lhe sorria cumprimentando-o. Os já ralos cabelos brancos na cabeça praticamente calva indicavam a inclemente passagem dos anos.

No início os processos eram todos físicos, ou seja, era papel pra tudo quanto era lado. Tinha que tirar cópias dos documentos, autenticá-las nos cartórios, colher a assinatura dos representados nas procurações, reconhecê-las também nos cartórios e depois de tudo isso, redigidas as peças processuais, pagas as taxas e emolumentos, ingressar em juízo, via cartório do distribuidor com os pedidos relativos aos acontecidos com os outorgantes das procurações.

É... Mas o tempo passa... O prédio do Fórum muda uma, duas, três vezes... Aumenta a quantidade de cartórios, ingressam para o trabalho novos escreventes, escrivães, promotores, juízes de direito, agentes da polícia civil e militar; esse desenvolvimento reflete o aumento progressivo da demanda da população que também cresce a olhos vistos. Os processos agora tramitam, em sua grande maioria, por computador, via Internet.

- Ocê parou de advogar, Zocca? – quis saber meu espantado coleta.

Fiquei com uma vontade louca de dizer: “advogar só na próxima encarnação”, mas fui impedido por uma buzinada violenta do ébrio que dirigia uma caminhonete Chevrolet D 20, branca, em péssimo estado de conservação, que atrás de mim, desejava prosseguir no seu caminho perigoso.

Avancei com a moto até o meio-fio, sufocado pela fumaça preta, emitida pelo motor diesel desregulado, daquele, por mim conhecido, projeto de pescador, intoxicado pelas pingas ingeridas, durante as longas noites de tentativa de pesca nas barrancas do rio sujo.

O trânsito rápido e violento, o ruído, a fumaça e também a pressa impediu-nos de prosseguir numa conversação evocativa dos velhos tempos de militância.

- Passa lá no meu escritório pra gente tomar um café – falou em voz alta o companheiro que prosseguiu na sua caminhada.

- Positivo operante – respondi-lhe acelerando a moto indo direto pro estacionamento defronte ao prédio do Fórum.

É a vida que segue meu amigo.

Texto revisado

03/07/2019    

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A etiologia de O Capital

por Fernando Zocca, em 29.06.19

 

 

Por causa da usura, da ânsia pelo dinheiro, das cobranças irresponsáveis feitas pelos bancos, indústria, comércio e prestação de serviços, do seu tempo, Karl Marx escreveu o Capital.

Essa verdadeira bíblia comunista foi adotada politicamente por centenas de países dentre eles a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, a atual China, a pobrezinha Cuba, a Coréia do Norte dentre outras da África.

Resumidamente o comunismo, que tem raízes nos ensinamentos cristãos ensina que toda produção dos bens de capital e de consumo são feitas pelo Estado. Isto é, não haveria a propriedade seja ela industrial, comercial ou prestadora de serviços que não fosse gerida pelo Estado.

Desta forma o Estado exerceria o papel do capitalista tendo a população toda como obreira interessada.

Ora, essa forma econômica, afrontando diretamente a tradição da livre produção, da circulação do dinheiro e da prática do comércio, é combatida exatamente por todos aqueles responsáveis pela criação das mesmas situações existentes no tempo da elaboração de O Capital.

Nesse sentido, ao espírito de ludibrio, que gere toda essa maquinaria chamada capitalista não seria estranho fabricar, na casa da moeda exógena, toneladas de dinheiro injetadas depois, via contrabando, na economia dos países cujos representantes não comungariam com as diretrizes políticas dos chamados líderes mundiais.

E você sabe, não seria preciso explicar, que a quantidade de cédulas em circulação promove o aumento dos preços de todas as coisas.

É a chamada inflação que desnutre, desidrata e anemiza toda a população, os empreendimentos, a vida saudável do povo e a reputação de qualquer governante ou partido político.   

A sacanagem, esse espírito ludibrioso, é claro, não deixa de inserir-se também no judiciário. Imagine meu querido leitor, o que pode – o poder – de um advogado, pai de magistrado, em termos de tráfico de influência, numa cidade miserável, afastada dos grandes centros desenvolvidos.

Imagine as sentenças de um juiz de direito que, numa comarca distante, é locatário do maior contraventor do jogo de bicho da região.

Você acha que o agiota, o banqueiro locador, ou qualquer dos seus apontadores teria contra si decisões desfavoráveis?

  

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A maldição da casa lotérica

por Fernando Zocca, em 29.06.19

 

 

Tenho escrito desde há muito e muito tempo, em vários dos meus blogs, que os senhores proprietários das casas lotéricas precisam usar de melhores critérios – mais sensatos, mais lógicos - ao selecionarem as funcionárias encarregadas do recebimento das contas pagas pela população.

Não é de hoje que centenas de pessoas têm sido lesadas ao pagarem suas contas de água, luz, IPTU e carnês vários nos tais estabelecimentos.

Ainda está fresco na memória de muita gente, aqui de Piracicaba, o verdadeiro escândalo ocorrido numa dessas casas quando, depois de receber, durante muito tempo, o numerário pago por centenas de cidadãos, que desejavam quitar seus débitos do IPTU – imposto predial e territorial urbano –, a tal lotérica não repassou para a prefeitura os dinheiros recebidos.

Essa apropriação indébita fez a prefeitura emitir novas cobranças assustando a todos os que se julgavam quites com as contas agora cobradas novamente.

Eu recentemente tive outra surpresa desagradável: meses depois de pagar várias prestações do financiamento de um veículo, notei que duas folhas do carnê foram furtadas deixando-me em dúvida de como proceder.

Em contato com o banco credor, fui informado – depois que a funcionária (simpaticíssima) acessando via internet a matriz em São Paulo - que o tal débito relativo a uma das folhas desaparecidas do meu carnê estava quitado.

- Como assim se eu não paguei? - quis eu, muito surpreso, saber.

- Olha aqui – disse ela mostrando uma tela do computador - está constando que essa parcela está paga.

- Você não quer receber essa prestação? Me dá um recibo – implorei eu, desejoso de pagar, enquanto colocava a importância, referente a mensalidade, sobre a mesa de trabalho da moça.

A jovem afirmou que aquela agência da Rua Benjamin Constant não tinha autorização, nem caixas, para receber qualquer tipo de pagamento.

- Mas o senhor pode pagar na Caixa Econômica Federal que fica logo ali na Rua Morais Barros. Mas... Eu não sei não... Pode ser que essa parcela já esteja paga. O senhor pode pagar duas vezes a mesma coisa.

- Será? – indaguei eu na maior dúvida.

Bom entre pagar e não pagar eu não paguei. Julgava já estar quitada aquela prestação conforme informava a funcionária.

A minha grande questão agora era sobre quem teria sido o bondoso Papai Noel que me ofertara aquele presente.

O resultado disso tudo meu esperto leitor pode adivinhar: depois de ter gasto a bufunfa toda em outras coisas fui cientificado, alguns dias depois, pela financiadora, que aquela prestação estava em aberto havendo a incidência de multa, juros e correção monetária.

Outro apuro sério sofrido com gente não muito confiável exercendo ofício de bancário em casas lotéricas foi quando do pagamento do licenciamento de 2018 da minha moto.

Paguei em dezembro de 2017 o tal licenciamento. Entretanto o departamento de trânsito, por não ter recebido o numerário, ou por não ter sido notificado da quitação, não enviou o documento oficial emitido pelo órgão.

Como resultado disso tudo, dessa sacanagem alheia, hoje fui parado pelos agentes do trânsito. O cidadão da polícia militar ao ver os documentos da moto me informou que o licenciamento de 2018 não estava pago.

Mostrei ao ilustre funcionário da milícia o recibo do pagamento do tal licenciamento de 2018 emitido pela mocinha lindinha da casa lotérica.

- Olha, vou consultar pelo rádio, a existência do pagamento lá no DETRAN.

Depois de manipular tranquilamente o seu celular, o nobilíssimo profissional especialista, cumpridor dos seus mais ínclitos deveres disse-me:

- Cidadão: não consta, no departamento, a quitação desse licenciamento de 2018. Vou ter de recolher a sua moto.

- O quê? Como assim? – perguntava eu bestificadamente bestificado.

- Faz o seguinte: o senhor tem de pagar; depois levar o recibo lá no DETRAN. Eles emitirão o tal documento oficial juntamente com a autorização da liberalização da moto que o senhor terá de buscar lá no pátio.   

Lá foi a besta aqui pagar novamente uma conta que já tinha sido paga.

A brincadeira da lotérica ficou em mais de R$350. Fora o táxi que do DETRAN me levou ao pátio onde estava a moto. É claro, meu amigo, espertíssimo cidadão, que a autorização para a liberação do veículo só saiu depois que o paquidérmico funcionário responsável pela assinatura do documento terminou o seu lento, lerdo e vagaroso passeio a pé pelas dependências da repartição. Se o tal sujeito fosse goleiro do Corinthians receberia cartão amarelo pela cera.

Quando a simpaticíssima funcionária do balcão recebeu os papeis do chefão balofo, chamando-me em seguida, para levá-los onde a moto estava apreendida me asseverou:

- Hoje já não vai mais dar tempo bem. O pátio fecha as 17:30.

“Ah, mas que novidade, preclara cidadã, escolhida a dedo pra ocupar suas funções numa repartição estadual” – pensei eu falando logo em seguida:

- Vai dar tempo sim.

Com a autorização da liberação da moto nas mãos corri pro táxi que me esperava na porta da entidade. A conta do taxímetro já passava dos R$50.

“Olha o que uma maldita casa lotérica pode fazer” – pensei eu ao entrar no carro.

- Calma que pode piorar – murmurou o taxista partindo em direção ao pátio que ficava pra lá, bem pra lá do Carrefour.

Chegamos defronte ao portão às 17:46. O funcionário falou então:

- Já está tudo fechado. Agora só segunda-feira. O preço da diária fica em R$29. Mas tem o guincho que passa dos R$150.

Na volta pra casa, já ao anoitecer, vinha eu pensando que para uma cidade como essa, que abriga uma universidade capaz de cobrar, na justiça, mais de R$7.000 por uma única aula de filosofia embasadora do mais puro comunismo nunca dantes jamais visto em tais terras caipiras, até que a maldição da lotérica saiu barato.

Todas essas coisas chatas não deveriam causar tanta estranheza nas pessoas conscientes de que nesta cidade pobre, a maioria dos responsáveis pelas casas lotéricas de hoje, foram antes, banqueiros ou apontadores do tolerado jogo do bicho.

E quando você acha que no judiciário da província o tráfico de influência só existe por ser um local afastado dos grandes centros desenvolvidos, verá que está muitíssimo enganado ao se cientificar sobre os conluios entre o ministério público e o magistrado que condenou à prisão um ex-presidente da república.

Ora, se podem conversar extra-autos o promotor e o juiz, também o podem os advogados do réu. Em não havendo isso, meu amigo, não se fala em equidade, mas sim na mais tosca, brutal, subdesenvolvida e assassina injustiça.    

 

 

 

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Fuzuês costumeiros na cabeça-de-porco

por Fernando Zocca, em 12.06.19

 

 

cabeça de porco.jpg

 

Uma vez, desconsiderando o estado lamentável de conservação da maioria das calçadas tupinambiquences Van de Oliveira Grogue, no final da tarde, duma sexta-feira qualquer, usando um velho par de chinelos, caminhando descontraidamente como sempre, pro bar do Bafão, em certa altura do caminho, pisando num buraco e sofrendo uma topada violenta, fez levantar do dedão do pé direito uma lapa imensa que deixou, na vizinhança da unha, um ferimento doloridíssimo.

No pronto socorro do bairro o curativo eficiente amenizou seu sofrimento, mas como lhe foi muito difícil andar com tanto desconforto sugeriram-lhe o uso duma bengala.

Desta forma, depois de alguns dias ele apareceu, valendo-se de um bastão de apoio, no botequim famoso.

- Eh, Van hein! – provocou Abdo Minnal apontando, com o queixo, o instrumento – deixa eu dar uma voltinha com ela?

- Você não sabe o que é sofrimento – respondeu Oliveira – dói-me a perna toda.

- Também, você é muito burro. Como pode andar de cabeça erguida numa cidade como essa? É mesmo ser muito besta desatentar para os buracos e os cocôs dos animais espalhados pelas calçadas – afirmou Abdo afastando-se em busca da cerveja antes posta sobre o tampo do freezer pelo comerciante.

Amuado Van sentou-se a mesa encostada numa parede defronte ao balcão. Abriu o Jornal de Tupinambicas das Linhas e uma matéria chamou-lhe a atenção:

“Naquela casa, que parecia ser normal, habitavam seres muito esquisitos. Havia gay, menores, prostituta, desocupados e gente violenta. Depois que puseram dentro da garagem da casa um trole, uma espécie de carroça, com os varais encostados na parede parece que aquele sentido de bom senso desapareceu completamente. Ouvia-se à boca pequena que o padrasto abusava sexualmente do menino e da menina, filhos da mulher que viera morar naquele lugar; ela não denunciava as sacanagens ao ministério público por medo de ser despedida, por não ter para onde ir. Desta forma, por omissão, consentia que o amásio se aproveitasse sexualmente da ingenuidade e desamparo dos menores.

“O doutor delegado da comarca já sabia das ocorrências e mandara elaborar um estudo feito por um especialista da polícia. O documento vinha expresso desta maneira: a mulher que hoje mora naquela casa, quando menina era catadora de recicláveis. Dessa atividade, depois de maiorzinha passou a se prostituir pelas ruas do bairro. Assistentes sociais e psicólogos a encaminharam para os serviços de ambulante no terminal rodoviário da região central da cidade onde ela trabalhou por algum tempo. Com dois filhos para criar, surgiu-lhe pela frente o mancebo que com ela vive hoje maritalmente. A mãe dessa mulher, avó das crianças, é uma senhora visivelmente virilizada que mantinha o costume de andar pelas ruas do bairro onde também recolhia o lixo que levava pra casa.

“Um dos vizinhos daquela gente descreveu assim a situação: Da mesma forma que o tumor maligno devolve humores nocivos em troca dos nutrientes e oxigênio da perfusão sanguínea que o alimenta, Donizete Pimenta, Zé Laburka, Delsinho Espiroqueta e Dani Arruela, residentes naquele conhecidíssimo endereço, cortiço notório, cabeça-de-porco bem antigo, devolvem com o mal as bondades que recebem das pessoas caridosas da comunidade”.

Entretidíssimo com a leitura Van Grogue não percebeu que dele se aproximava Hein Hiquedemorais o mais astuto, esperto, vivaz e operoso contabilista tupinambiquence.

Com a costa da mão esquerda Hein Hiquedemorais tentou secar o filete de saliva que teimava em lhe escorrer pelo canto direito da boca.

- E aí, seu Grogue? Sarou o dedão? – indagou Hein enquanto acomodava-se a uma mesa vizinha.

“Ih, rapaz! Lá vem aquele chato” - pensou Grogue.

- Estou quase bom. Negadinha do pronto socorro botou bastante mertiolate no arranhão. Tiraram até raios-X – respondeu Van de Oliveira – É verdade que o senhor só anda de carro importado e bebe vinho selecionado?

- Mas que nada, meu filho. O papai aqui está com uma dor dos infernos nos intestinos. Não posso nem pensar em soltar pum. Não sei se vem coisa mais sólida ou liquida pelos fundos. Na dúvida fico assim meio que com a barriga inchada.

“Praga de cretino, cai no próprio intestino” – pensou Grogue em silêncio.  

Van preparava uma resposta quando defronte ao bar passavam vagarosamente duas senhoras obesas de braços dados; elas conversavam em voz baixa:

- Mas você ainda usa o secador de cabelos na xereca, minha filha?

- Tenho horror de me vestir assim, com a pele úmida, depois do banho – respondeu a outra.

Quando as duas estavam bem defronte ao boteco uma delas cochichou depois de olhar o pessoal que lá dentro bebericava:

- A alegria desses retardados é que todos sejam iguais a eles. Com certeza ou é isso mesmo, comadre?

- Com certeza querida. Mas acelera. Acelera o passo que não quero ser vista perto desse ambiente. Antes pobre sóbria do que rica alcoólatra.

Abdo que lá do fundo acompanhou a passagem das idosas, tendo ouvido o comentário de uma delas, falou em voz alta para que ouvissem:

- Aqui é assim!

As velhinhas que se afastavam não deixaram de revidar; em uníssono responderam:

- No hospício também, sua múmia!

Depois que Hein Hiquedemorais sentou-se, enchendo o copo de cerveja notou que certa calma baixou no ambiente.

Grogue continuou então a leitura da matéria do Jornal de Tupinambicas das Linhas que comentava sobre a tal casa velha dos orates.

“Diziam alguns vizinhos e gente da família que o tal Donizete Pimenta, na verdade um incubo maligno, pra que não dissessem ser ele um veado mequetrefe, tinha de provar a sua macheza copulando com várias mulheres, mesmo que fossem elas da própria família, ou que precisasse usar a força.”

Célio Justinho, tendo deixado Luiza Fernanda parada na porta do boteco, entrou agitando no ar os braços e falando em voz alta:

- Nem que eu fosse gerente do banco ou de loja teria coragem pra deixar alguém fazer essa maldade que presencio todos os dias.

- O que acontece nobilíssimo freguês? Deram-lhe outra nota falsa de 50? – questionou Bafão.

- Não é nada disso – Célio pensava na insistência de Luiza Fernanda em aprender a dedilhar o teclado sem ter qualquer noção de música, mas não tocou no assunto.

- Eu quero meu maço de cigarros, uma dúzia de cerveja em lata, carvão, mortadela, seis filõezinhos e aqueles tampões de ouvido ali da vitrine – ordenou Justinho.

Hein Hiquedemorais achou que conhecia aquelas pessoas. Bebericando um gole mais avantajado de cerveja ele pensou:

“Parece que conheço essa gente. Um deles, se não me engano, é gerente de banco. O outro apontador do jogo do bicho. Não me recordo bem...”

Enquanto bebiam e conversavam o tempo passava célere. Logo aqueles habitantes da cidade retornariam para suas casas. Levariam a impressão de que durante a madrugada tudo silenciaria. Mas muitos, entretanto, achavam que não seria bem assim.    

  

 

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No escritório do seu Hiquedemorais

por Fernando Zocca, em 24.05.19

 

 

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Mané Pestana entrou no escritório de contabilidade do professor Hein Hiquedemorais com um problema muito sério: como deixar de pagar tanto imposto de renda?

Num momento ele se viu só na sala de espera do escritório, que naqueles dias não aparentava viver os seus melhores instantes de abundância.

Como não tinha ninguém para recebê-lo sentou-se num sofá já um tanto quanto que desgastado. A sós observava o ambiente. Dos cômodos vizinhos vinham ruídos de pessoas teclando computadores, papéis sendo manipulados e o zunido contínuo do que parecia ser um ventilador forte.

De repente, entrando na sala com um calhamaço de papéis nas mãos, Hiquedemorais, olhos fixos na papelada, atravessando o ambiente sem ter notado a presença do consulente foi interrompido por este que disse:

- Boa tarde gente boa. Eu preciso de um favorzinho do seu escritório. Pode ser?

Hiquedemorais assustou-se com a presença daquele alguém não esperado. Bem bobamente, com um fiozinho de saliva escorrendo-lhe pelo canto direito da boca, o profissional dos números respondeu:

- Hã? Sim. O que acontece?

- É o seguinte: eu tenho uma banda sertaneja e pra fechar contrato com as pessoas que nos solicitam shows eu preciso emitir recibos das quantias que recebemos pelas apresentações. O problema é que os que nos contratam insistem em descontar 10% a título de imposto de renda. Pode isso, seu Hein?

Hiquedemorais colocou o pacote de papeis que trazia sobre a mezinha de centro dizendo:

- Sente-se, por favor.

- Não. Fico de pé mesmo – respondeu Mané esfregando as pestanas com vigor.

- Bom, veja bem... Esse negócio de imposto de renda é terrível. Eu conheço uma antiga funcionária da prefeitura que trabalhou exatos cinco anos na tal burocracia, tendo se aposentado depois. Já faz 50 anos que minha velha e querida anciã Izlindaura (hoje com quase 100 anos) percebe os frutos do seu honorável trabalho.  E apesar da bubunfa farta, ela nunca fez qualquer tipo de declaração pra ninguém, muito menos pro imposto de renda.

- Sim, seu Hein Hiquedemorais. Então há um jeitinho furtivo assim, como de alguém que se esgueira, com o qual podemos manter o total conquistado com o nosso som sertanejo?

- Veja que aqui em nosso escritório, administramos a contabilidade dos pequenos comércios do bairro como armazéns de esquina, bicicletarias, bares e até oficinas mecânicas; nós livramos os nossos clientes dos tais pagamentos digamos injustos.

- E o pessoal, os empresários, estão indo bem nos seus empreendimentos? – desejou saber Pestana.

- Bom, o armazém da esquina fechou. A bicicletaria também não resistiu muito tempo e os botecos apesar das parcas pingas diárias, mantém o padrão.

- Mas e aí, seu Hein? Como fica a situação desses empresários todos? – indagou Mané Pestana.

- Bom, a gente fazemos o que podemos. Temos no quintal do escritório um departamento de praxiterapia. Lá os que comparecem aprendem a fazer pequenos trabalhos manuais, entende? Olha só esse tipo de enfeite que um dos nossos clientes laborou – afirmou Hiquedemorais mostrando uma placa de parede onde se lia:

DEVO SIM. NÃO NEGO. PAGO QUANDO PUDER.

Impressionado, Mané Pestana ficou sem ter o que dizer. Então Hein Hiquedemorais, demonstrando preocupação disse:

- O senhor aguarde um momentinho que eu vou ali levar essa papelada toda e já volto pra te atender. Está bom?

Mané Pestana sentou-se no sofá, e depois de mais ou menos uns 26 minutos, no momento em que já cabeceava, quase pegando no sono, foi violentamente lançado pra frente depois que um carro, perdendo o controle, invadiu o escritório derrubando toda a parede onde o sofá estava encostado.

Assustadíssimo Mané Pestana abandonou o local. Ao passar pela calçada onde metade do carro atravancava o caminho, ele viu a velhinha centenária que, saindo do veículo sinistrado, espanava, com as mãos, o vestido vermelho.

- Seu Hiquedemorais, seu Hiquedemorais... Minha virgem santa! Já aprontou os papéis que lhe pedi?

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Voyage

por Fernando Zocca, em 28.04.19

 

 

Van de Oliveira Grogue, naquela manhã de sexta-feira, entrou no bar do Bafão, mais atordoado que marinheiro na primeira viajem.

O dono do famosíssimo boteco de Tupinambicas das Linhas havia acabado de abrir as portas, depois de observar as manchetes do Diário de Tupinambicas das Linhas, juntar as contas de água, luz, aluguel e IPTU do salão e ligar o rádio.

- Seu mau hálito, por gentileza, faça com que sua nobilíssima pessoa me conceda a honra de saborear um generoso copo repleto dessa mais querida “filha do senhor do engenho” aqui de Tupinambicas das Linhas.

Bafão, olhando de viés, pro recém-chegado disse com voz macia, mas de quem estava mal humorado:

- Bom dia pra você também seu Van. Como estão as coisas? A lista do seu consumo ainda ficará pendurada, ao léu, por muito tempo, esperando?

- Ah, não vos apoquenteis com isso, meu nobre e ilustrado comerciante. O momento do aporte das verbas não tarda. Um dia chega.

- Acho bom. Olha que um livrão daqueles de capa preta, imenso, está até o meio marcado com o que você deve à empresa. Desse jeito a firma não aguenta – reclamou Bafão enquanto recheava um copázio com a mais translúcida pinga feita com os produtos dos canaviais tupinambiquences, entregando-o, em seguida, ao freguês.   

- Não se preocupe neném – respondeu Van ao apreender o copo com as mãos tremulas. 

Logo depois Bafão começou a retirar das caixas duas dúzias da mais nova cerveja – marca inédita - que chegava ao mercado, colocando-as no freezer. Ele sabia que Van demorava um pouco, mas que honrava seus compromissos, por isso não insistiu muito.

- O que é isso? Que novidade é essa? – inquiriu Van de Oliveira ao ver garrafas com rótulos diferentes.

- Chegou ontem. É uma cerveja nova. Dizem que é muito boa. Tem menos álcool, mas tem. É a Voyage.

- Ah, sim. Pode me servir uma.

- Está quente. Cerveja é boa quando fria – advertiu Bafão.

- Tem necessidade, não, meu amigo. Manda pra mim essa bonitinha.

Bafão tendo servido o freguês continuou na faina de colocar as cervejas no frio do freezer.

- Voyage... O que será que é isso? – disse murmurando Van de Oliveira enquanto bebia o primeiro gole.

Pensando no que dissera Bafão sobre um livro grande de capas pretas Van adormeceu.

Então o menino oprimido por aquele adulto muito feroz, tentando ver com aqueles olhos enuviados, a folha branca do livro de contabilidade, aberto na sua frente ouvia:

- Você copia essas notas fiscais aqui. Escreve tudo direitinho nessas folhas. Não pode errar. Não pode borrar. Entendeu?

Por mais que o menino pusesse cuidado, por mais que desejasse fazer tudo certo, mesmo assim não deixou de sentir:

- Mas como você é burro. Olha o que você fez. Errou tudo. Borra isso aí!

“Borra, como assim? Ele não falou que não era pra borrar?” – pensou o moleque atrapalhado.

Logo depois de passar a borracha pelo escrito, tentando apagar a tinta da caneta, o moço alto, que permanecia de pé, atrás do menino sentado, arrematou:

- Eu não falei? Mas você não presta mesmo. Olha o que fez. Borrou tudo. Não pode errar caramba!

Assustado com a mosca que lhe entrou pela narina direita Van Acordou no boteco.

- Aquele f.d.p. se aproveitava de mim quando eu era criança, pra descontar os seus nervosos, suas neuras, seus fracassos, suas frustrações. O maldito não fazia maldades com gente grande. Só melindrava crianças que não podiam se defender.

- Esta falando comigo Grogue? – perguntou Bafão.

- Não. Pensava em voz alta. É verdade que a palavra “borrar” em castelhano quer dizer “apagar”?

- Sim. É verdade. O verbo apagar em castelhano é borrar.

- Está vendo como são as coisas? Quando tem de fazer com capricho, sem errar, ele diz que não pode borrar. Quando é pra apagar ele manda borrar. Quando apaga ele diz que borrou. Mas não é mesmo um f.d.p.?

- O quê? Falou comigo? – perguntou Bafão terminando de colocar as dúzias de cervejas na geladeira.

- Nada não, seu Bafão. Essa cerveja é muito ruim. Quero mais não. Por mim pode ficar muito tempo, aliás, pra sempre, na geladeira. Tchau.  

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Antes tarde do que nunca

por Fernando Zocca, em 15.04.19

 

Quando fomos candidato a vereança há muitos e muitos anos passados, primeiramente pelo PDT e depois pelo PSDB, uma das nossas propostas era a da priorização, pelo poder público, das praças e jardins.

A necessidade se nos deparava em virtude de não haver, na maioria dos bairros, distantes das áreas centrais da cidade, locais diversos do próprio lar, que não fossem os botecos, onde as pessoas também pudessem estar bem.

O pessoal eleito, naquele tempo tinha como objetivo mais ajeitar a própria vida, e a dos parentes próximos, do que propriamente resolver situações outras que não lhes favorecessem os projetos.

Então a especulação imobiliária, tanto nas regiões centrais, como nas periferias, era o interesse dominante.

Esse tipo de mentalidade carreou ao legislativo e ao executivo do município, personalidades que se dedicaram, (algumas estão aí até hoje), a manterem seus focos prioritários nos ganhos decorrentes da exploração dos negócios imobiliários.

Em defesa daquela política não tão salutar, difundiam-se os argumentos de que os tais logradouros públicos só serviriam para a concentração dos desocupados, viciados e criminosos.

As motivações pelo desenvolvimento das propostas que só se referissem aos condomínios de luxo extremo, pontes, viadutos e prédios públicos suntuosos, impediam o entendimento de que com o policiamento eficiente, nas áreas destinadas ao lazer e ao bem estar do cidadão, a diluição dos problemas impeditivos alegados seria bem efetiva.

Bom, o que vemos hoje, passados tanto tempo, e a condenação de muitos envolvidos nos desvios dos dinheiros relacionados a contratos com as empresas, empregadas na realização das obras do governo, é o poder público especialmente aqui de Piracicaba, dirigir esforços (antes tarde, do que nunca) na criação de locais onde a população tenha onde ficar, e o que fazer, que não seja o só bebericar nos recintos dos botequins.     

 

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Os inocentes e a lei

por Fernando Zocca, em 10.04.19

 

 

 

Bandeira norte-americana.png

 

Não pode ser possível que todas as pessoas que deixam seus países em crise e se dirigem, nestes tempos difíceis, aos Estados Unidos sejam assassinos, estupradores ou traficantes de drogas.

É claro que dentre as multidões que buscam melhores condições de vida nos Estados Unidos pode haver alguns criminosos.

Entretanto é necessário que, para a classificação de alguém como fora da lei, haja o cometimento de crimes no território norte-americano, com apuração responsável, provas concretas da existência da autoria e da materialidade.

Não haveria bom senso em generalizar categorizando todo mundo como infrator da lei.

Seria até mais barato do que construir um muro imenso, a elaboração de triagens e a destinação dessas pessoas aos locais previamente escolhidos, onde desempenhariam funções garantidoras dos seus próprios sustentos.

É claro que seria bem mais barato deixar que o judiciário se ocupasse das ocorrências feridoras da lei do que empregar bilhões de dólares numa construção faraônica.

Um dos princípios fundamentais do direito nos diz que todos são inocentes até prova cabal em contrário. Em casos de ilicitude é o Estado que deve provar ser o cidadão um criminoso.

Mas não é o que atualmente acontece com as pessoas que buscam nos Estados Unidos vidas mais dignas. Parece que antes mesmo de qualquer fato são elas todas classificadas como foras da lei.  

Juízo e bom senso não fazem mal a ninguém. Ainda é tempo de revisão das políticas que mais oneram os cofres do Estado do que propriamente resolvam os seus problemas.     

 

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