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O Prato do Dia

O Prato do Dia

Fevereiro 21, 2017

Fernando Zocca

 

 

 

Mesquita.jpg

 

Quem teria a cara de pau de, estando um casal hospedado num hotel, em lua de mel, aparecer de surpresa, sem ser convidado, e fazer gracinhas?

Quem teria a coragem de irromper na casa daquele a quem o considerava um bom colega pedindo-lhe emprestada a máquina de escrever com o objetivo de preencher, com falsidades, os documentos constituintes dos direitos de aposentadoria, de uma centena de pessoas, junto ao instituto de previdência social?

Quem teria a audácia de convidar vários casais de pessoas amigas para passarem uma noite na chácara onde semanas antes abusara sexualmente duma menor de idade, criando desta forma, situação que causaria dúvidas sobre a autoria do crime?

Quem, meu amigo, quem se tornaria proprietário de posto de gasolina só pra se aproveitar das mocinhas ingênuas previamente contratadas para os supostos cargos de encarregadas da administração?

Quem a não ser ele, o mais fenomenal, esperto, satírico, satânico, lascivo e indestrutível Donizete Pimenta Aarder seria assim tão capaz de tantas artimanhas, safadezas e esquisitices mil pra ver-se satisfeito diante do sofrimento alheio?

Quem viveria da jogatina de baralho nas sedes sociais dos clubes de futebol, ganhando e perdendo dinheiro e automóveis?

Quem, a não ser o finório Donizete Pimenta Aarder, responderia a todos que lhe perguntassem o que fazia no momento, com “o que se faz aqui, nesta cidade? Se tivesse praia, eu estaria lá. Antigamente havia o clube de Regatas. Nessas horas, com esse calor, eu estaria na piscina”?

Quem teria a caradura de entrar numa agência de automóveis e, emitindo um cheque sem fundos, “comprasse” um veículo zero quilômetro e depois, respondendo sobre se havia ou não fundos para o cheque, responderia com a ideia de que até a devolução do documento ele teria a posse do carro e poderia, enquanto isso, viajar ao Rio de Janeiro, (onde ingeriria sucos das mais variadas frutas), a fim de possibilitar a aceleração dos tramites burocráticos que possibilitariam a obtenção de mais um benefício previdenciário fraudulento?

Quem, hã? Quem a não ser o inabalável Donizete Pimenta Aarder o finório inquebrantável e sempre sujeito oculto da polícia e do ministério público, seria capaz de perder no carteado, a casa em que morava com suas filhas, deixando-as desamparadas?

Entretanto, quando informaram ao Delegado de Polícia sobre os deslizes atuais da tal figura, a autoridade teria respondido num tom que amedrontaria até ao mais frio e calculista meliante:

- Deixa ele... Deixa ele pra mim que ele vai ver como as coisas funcionam...

 

 

 

Fevereiro 17, 2017

Fernando Zocca

 

 

 

Fofão.jpg

 

Nossa! Quando eu vi o Fofão, ali na minha frente, depois de tantos anos, não acreditei no que podia estar acontecendo.

Ele estava imenso. Antes era magérrimo. Portava agora a pinta de quem tinha enriquecido muito.

Quando lhe perguntei se ainda trabalhava, ele me respondeu que se aposentara, mas logo depois que começou a receber os benefícios previdenciários, seus parceiros o convidaram a continuar trabalhando.

 - Olha Fernando, quando me perguntaram se eu queria permanecer na empresa, mesmo depois de aposentado, eu fiquei na dúvida, mas me lembrando do meu falecido pai, que era mestre no jogo do bicho, frequentador contumaz dos botecos da cidade, e que sempre me dizia “se vira vagabundo porque eu já estou batendo os pino” eu resolvi aceitar – contou-me ele esbaforido quando subíamos a Rua Fúrio Francesquini em direção ao parque do bairro Santa Cecília, naquela quinta-feira pela manhã.

- Mas você era bem magro e agora está bastante corpulento. É, com certeza, um plus size, digamos, pra muita gente, “apetitoso” – comentei sem esperar ofendê-lo devido ao vasto tempo de relacionamento informal.

- Também, filho, com a mamata no serviço, “rango” do bom e do melhor, exercício físico só quando troco as marchas do carro, e piso no breque, você quer o quê?

- Mas e agora? Você está de short preto e camiseta branca, calçando confortavelmente um “pisante maneiro”, andando a pé em direção a uma área de atividade física, por que essa mudança? – perguntei mais uma vez sem cerimônia.

- Isso tudo é insistência do doutor Ary “Ranha”. Você não o conhece? Não se lembra da figura? O pai dele era amicíssimo do meu pai. Eram companheiros de copo e jogatina. Os dois fumavam feito um não sei o quê. O “Ranha” formou-se e montou consultório na cidade. Como não estava bem financeiramente, um arranjo político tornou a situação mais confortável para ele. Numa consulta que lhe fiz, ele me receitou exercícios físicos. Pelo menos caminhar meia hora três vezes na semana.

- Mas que surpresa. Mal posso acreditar que vejo você assim supimpa, pra lá de muito melhor da conta. Mas me diga: esses anéis nos dedos e esse “relojão” no pulso não atrapalham? – quis eu saber, desviando dum montículo de caca canina, esquecida no meio da calçada.

- Atrapalhar não atrapalham. Fico um pouco incomodado quando as mãos incham e tenho que tirar os cabelos que insistem em me cobrir os olhos. Ô saco, viu?

- E sua empresa vai bem? – indaguei.

- Você sabe: a burocracia é tremenda. Eu só sigo as leis, as normas, as regras, os pareceres. Se ninguém avalizar eu não decido sozinho. Isso não, isso nunca. As reuniões são daquele jeito. Todo mundo quer saber de tudo. Até sobre mofo eu preciso, às vezes, responder.

- Mas e as tretas burocráticas? Não dá pra tirar algum por fora, além do salário atual e da aposentadoria? – perguntei.

- Olha... A gente tinha um esquema que rendia até dez mil reais em certas transações, mas a mumunha vazou e a Câmara Municipal está em cima – segredou-me ele em tom de cochicho.

Ao chegarmos ao Parque do Bairro Santa Cecília, onde bastante gente caminhava, outros corriam, e muitos passeavam com seus cães, Fofão já apresentava sinais visíveis de esgotamento. Parando no meio da calçada ele me disse:

- Olha... Paro por aqui. Minha pressão está muito alta. Não consigo nem pensar direito. Sinto-me interrompido. Vou chamar um taxi.

Ao nos despedirmos com um abraço fraternal ele sussurrou algo, que não pude entender, no meu ouvido direito.

Manipulando então o seu celular, ficou ali na calçada, o meu amigo Fofão que há muito tempo eu não via.     

 

 

Fevereiro 14, 2017

Fernando Zocca

 

 

Os fatos estampados diariamente na mídia nos revelam que vários candidatos, para conseguirem chegar aos principais cargos eletivos, comprometem as reservas monetárias do estado.

As notícias nos informam também que, em muitos casos, para manterem-se no poder, eles destroem grande parte do que dependeria das suas boas ações para a promoção do progresso e desenvolvimento.

E não é incomum então, nestes estados de injustiça e opressão, certa pedagogia que incentiva o cerceamento de toda e qualquer liberdade.

Isso é muito fácil de perceber quando, dentre outras coisas, você observa reiteradamente a restrição dos impulsos de brincar e correr das crianças.

Fez parte do rol dos meios de controle dos infantes, há algum tempo atrás, a agressão física. As palmadas, os “coros”, os puxões de orelha, os beliscões e até socos a cabeça.

Além destas formas físicas da contenção dos impulsos infantis de brincar alegremente, havia, embora com menos intensidade, a utilização do medo.

Então, quando a mamãe, percebendo o fluxo intenso de carros na via, desejava que suas filhas deixassem de correr pela calçada, ela ao invés de socar as meninas, usava a expressão:

- Parem que isso é loucura.

Ou seja, a instigação do medo da insanidade, observada possivelmente num parente ou pessoa próxima, poderia cercear os impulsos infantis alegres.

É o velho sistema do bicho-papão, do ogro. O temor servia pra frenar as ações consideradas impróprias e julgadas perigosas pela mãe.

Nesta fórmula muitas senhoras antigas usavam a fala em que as autoridades policiais apareciam como entidades terríveis capazes de provocar dissabores intensíssimos nas crianças folionas.

Então a frase:

- Chega de bagunça. Olha lá... Vem vindo o guarda que vai prender vocês.

Não precisa ter muito discernimento para concluir que estaria aí, em muitos adultos, a fonte das prováveis rejeições preconceituosas contra as pessoas que exercem as funções de policiais.

Esse tipo de atitude, como já dito, é bem próprio da sociedade onde o regime da força, opressão, começa lá na ponta superior.

Os ditadores governam com decretos, prisões, fuzis, bombas, mísseis, armas nucleares e não raro, para manterem-se, a si e aos seus considerados no poder, destroem cidades inteiras, não se importando que a metade da população fuja aterrorizada para outros países vizinhos.

Tanto no caso dos políticos que zeram os cofres públicos para se elegerem quanto os que usam da destruição, pelas armas, de grande parte do seu país, vivenciarão ambos certa dificuldade para o exercício posterior do poder.

Os primeiros não terão com o que pagar os seus funcionários e fornecedores; os segundos governarão poucas pessoas que conseguirem sobreviver entre as muitas ruínas a que deram causa.  

 

Fevereiro 07, 2017

Fernando Zocca

 

 

 

Bashar al-Assad.JPEG

 

Os governos autoritários não são bem aceitos. Por mais que ofereçam, aos governados, fazem-no em menor escala do que os democráticos e populares, criando, entretanto maior oposição.

No autoritarismo a repressão é mais recrudescida: os de menor poder são submetidos, não raras vezes pelo terror, violência e suas vozes não são ouvidas.

Veja que há além da opressão física a “vis compusiva” (coação moral) que não deixa nunca de fazer parte do saco de maldades dos que se assenhoram do poder.

A história está repleta de tiranos que uma vez nos cargos de comando cometem aberrações úteis, mais a eles mesmos, do que aos que vivem no seu entorno.

Na atualidade temos o caso da Síria. O pai do ditador Bashar al- Assad permaneceu por longos 40 anos no poder. Durante esse tempo todo se supunha que ninguém mais naquela sociedade toda fosse capaz de governar o país. E a crença nesse fato resultou na ascensão e permanência, no governo, deste que aí está a murmurar ditames opressivos como forma de dominação.

A contrariedade, a oposição, tomou a forma de uma entidade conhecida como Estado Islâmico que, destruindo, buscou governar a Síria.

Com o auxílio da Rússia, dos Estados Unidos, da França e Inglaterra, o terrorismo foi debelado.

Mas não deixa de persistir na Síria os métodos usados pelo senhor al-Assad para manter o seu governo.

Nas prisões do ditador “onde o filho chorava e a mãe não via”, os agentes do governo não sabiam por que batiam e torturavam tanto.  Mas garantia-se que os presos tinham ciência do por que apanhavam.

Nos porões da ditadura, nas trevas, às ocultas, não raro os prisioneiros, por causa da tortura, perdiam literalmente a própria identidade.

Quando respondendo aos chamados dos seus nomes e submetidos imediatamente aos sofrimentos físicos, preferiam verem-se livres de tudo o que os identificavam e que, naquele momento, era fonte de muito sofrimento.

Os prisioneiros, (esperando sempre por um julgamento, que talvez fosse justo, libertando-os da prisão), assumindo outra identidade, e respondendo aos chamados por outro nome, ou apelido, poderiam livrar-se das atrocidades.  

Ao se libertarem das horas tormentosas, esquecidos do próprio nome, e não sabendo mais nem mesmo quem eram não poderiam ao menos demonstrar surpresa quando, nos julgamentos públicos, ao se identificarem perante todos, perceberem que aquelas credenciais eram de quem praticara inúmeros crimes de homicídio.

E neste sistema, meu amigo, o veredicto, para culpados e inocentes, é um só: a forca.

Este é o governo dos ditadores, dos autoritários, dos manipuladores, dos opressores, dos psicóticos enfim.

Chegou a sua hora, seu Bashar.    

Fevereiro 05, 2017

Fernando Zocca

 

 

Donald Trump.jpg

 

Mas, e o exército, está com Donald Trump? Sim porque, se não estiver ele não governará sozinho.

Isso que vem acontecendo na política norte-americana lembra muito bem o ocorrido na Alemanha em 1933.  Com o apoio de parte da sociedade, industriais, comerciantes e governo assumiu o comando da nação o nacional socialismo, com o fim específico de deter a expansão dos ideais marxistas e devolver ao país a situação econômica anterior ao tratado de Versalhes.

Trump quer desfazer tudo o que a orientação democrata, representada por Obama, fez durante o tempo em que governou o país.

Então o plano de saúde pública (semelhante ao nosso SUS), a priorização do bom relacionamento com os vizinhos – México e Canadá -, apoio e solidariedade aos governos democráticos, à população dos estados que solicitam a colaboração norte-americana, estão agora todos ameaçados pelo esquecimento.

Desta forma o presidente republicano quer fazer um muro na fronteira com o seu vizinho do sul, o México, impedir a entrada das pessoas que professam a crença no islamismo e fomentar a indústria do seu país.

Acontece que segundo a constituição norte-americana, ao expressar que todos são considerados iguais perante suas normas, tais decisões políticas afrontam os seus princípios.

E foi isso mesmo o que a suprema corte decidiu: o decreto presidencial que impede as pessoas de origem árabe de entrarem no país fica suspenso até julgamento definitivo.

Os protestos, nos Estados Unidos, como em grande parte do mundo todo, demonstram que Trump pode se isolar. Se o exército se alinhar a ele pode também afrontar a constituição norte-americana. E isso parece pouco provável.

Na questão da Síria, Obama equivocou-se quando, para barrar o avanço do estado islâmico julgou que deveria destronar antes o ditador Bashar al-Assad.

Se mantivesse firme a sua opinião Obama poderia ter contra si, e os Estados Unidos, a violência do estado Islâmico, a do ditador Assad e também (aí seria mesmo o fim do mundo) dos russos.

Entretanto a opinião contrária, defendida por Putin, mostrou-se correta. Apoiou o ditador sírio e o objetivo foi atingido.

Esse e outros enganos dos democratas serviram para fortalecer o discurso de Trump que agora, depois de eleito, demonstra apresentar mais problemas do que soluções.

Mais útil seria para sua nação se Trump, acometido de ventosidades desgovernadas, se mantivesse quietinho no seu gabinete deixando as coisas acontecerem.     

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