Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

O Prato do Dia

O Prato do Dia

Julho 24, 2017

Fernando Zocca

 

Naquela terça-feira, às 11 da manhã, Van de Oliveira Grogue, pilotando uma tremenda moto vermelha, passaria defronte ao bar do Bafão. Na garupa levava a loura, alta (1,82m) olhos verdes, cabelos esvoaçantes que segurava firme no assento.

Ao ver, de longe, os considerados na porta do estabelecimento e, pensando em não ser notado, Van aumentou a velocidade do veículo, mas não pode deixar de ouvir:

- Eh Van hein... Vai levar pra comer?

A moça, sentindo-se incomodada com a brincadeira, cabeceou, batendo o seu capacete no do Grogue.

- Não ligue lindinha. Esses caras não sabem o que falam.  Parecem papagaios.  Esse nhenhenhem é dia e noite. Não tem fim. É movido a muita pinga ruim.

- Ai que chato, meu neguim. O que a vizinhança vai pensar de mim? – insistiu a loiraça.

Falando mais alto que o ruído do motor da moto e, de vez em quando, voltando o rosto pra trás, Van tentou acalmar a companheira:

- Às vezes a maldade está na cabeça da gente mesmo. Neste caso só pode ser na sua. O “levar pra comer” que cara falou na porta do boteco, referia-se ao almoço no restaurante da praça central onde vamos comer aquela bisteca imensa com fritas.

- Ai sim, meu neném. Dou o meu maior apoio – disse a moça, encerrando aquela conversa, enquanto percebia o namorado atravessando célere e consecutivamente os vários sinais verdes da avenida em que trafegavam.  

Julho 13, 2017

Fernando Zocca

 

 

 

Ibirapuera 4 9 2014 004.JPG

 

Dizia meu amigo Van de Oliveira Grogue, já embriagado, no bar do Bafão, numa verdadeira “sessão nostalgia”, sobre seu passado infantojuvenil:

- A gente fazemos o que podemos.

- Geralmente não eram muitas, e nem volumosas as coisas, que consideraríamos úteis nos dias atuais – completou Billy Rubina segurando, com firmeza, a lata usual de cerveja que lhe cabia, em decorrência da força do hábito.

Van que tinha por costume recostar-se na parede externa, do bar esquinal, com a lata na mão, onde observava o movimento do trânsito nas ruas, e dos pedestres nas calçadas, confabulando animadamente com seus achegados, agora no balcão, dentro do boteco, percebendo enevoados os carros e as pessoas, tentou findar o assunto:

- Nem ligue...

- Esse “xarope” fuxiquista tinha a mania de escarafunchar, bisbilhotar, as coisas alheias. Mexia em tudo o que não era dele. Até mesmo nos escritos particulares, privativos, confidenciais, dos cadernos escolares dos irmãos, ele xeretava, indo depois espalhar os segredos entre os colegas todos dos bares da cidade – denunciou, com mais força, Billy Rubina.

Bafão que enxaguava os copos naquela pia fincada na parede, debaixo duma prateleira imensa, onde jaziam enormes fileiras de garrafas de bebidas, julgou sentenciando:

- Que coisa feia, seu Van. Isso, invasão de privacidade,  não se faz com parentes e nem os amigos.

- A gente éramos crianças. Naquele tempo Juscelino Kubitschek de Oliveira era o presidente do Brasil, Jânio da Silva Quadros governava São Paulo – respondeu, em sua defesa, o atordoado Van ensaiando uma aula de história.

- Consta dos anais familiares que esse malquisto bebedor violava o armário onde um parente visado guardava seus escritos em diários e, copiando o que podia, ou até mesmo arrancando algumas páginas, delatava depois pra mãe e os irmãos, o que o escrevedor dissera sobre eles – continuou Billy reforçando a carga acusatória.

- Diziam, e eu estou sabendo, que certo colateral escrevia muitos xingamentos naqueles diários; redigia tudo sobre todos. Os cadernos eram uma espécie de latrina em que, aliviando os dejetos da roupa suja familiar, esse bode espiador ocasionava as catarses necessárias – esclareceu Bafão ao terminar de lavar o último copo.

- “Garraram” tanto ódio dele que além de dar indiretas sobre os temas dos escritos, um deles esculpindo, com um canivete, uma espécie de tacape, bateu com ele no cabeção do escriba, fazendo com que o tal fosse enviado ao pronto socorro onde recebeu seis pontos na cabeça. Isso tudo sem falar no golpe no braço direito, com a chave de fendas que lhe abriu um “córrego” na altura do cotovelo e que, também, foi fechado com quatro pontos de linha categute.

- É seu Van... Que feio espionar desse jeito as pessoas.

Enquanto Bafão e Billy Rubina entreolhavam-se satisfeitos e cúmplices entraram no recinto dois homens vestidos de preto e com crachás no peito. Ante o olhar surpreso dos presentes eles se apresentaram:

- Polícia. Quem é o Bafão e quem é o Billy Rubina?

Quando os dois se identificaram, levantando o indicador da mão direita, um dos policiais, entregando a cada um deles um documento impresso concluiu:

- Intimação do doutor delegado no inquérito que investiga denúncia de violação de correspondência.

Julho 05, 2017

Fernando Zocca

 

 

Rua do Porto 27 de janeiro de 2016 042.JPG

 

A tia Bete, uma colega de caminhadas e corridas pelos parques da cidade, achava que havia certa semelhança entre os políticos desonestos e os usuários das drogas ilícitas.

- Sabe, seu Fernando, eu tinha uma vizinha que infelizmente sofreu o desprazer de ter um de seus parentes viciado no uso daquelas substâncias que a polícia não permite que sejam usadas – disse-me a tia Bete quando completávamos a quinta volta na pista do parque do Piracicamirim.

- Verdade? – indaguei, carregando naquele tom expressivo de extrema curiosidade e torcendo pra que ela me contasse mais sobre o que sabia.

- Era um bafafá tremendo naquela casa. Não havia praticamente sossego. Era de manhã, de tarde e durante as madrugadas que o zunzunzum do fumacê vigorava. A Leila, tadinha, babá da molecada, de tanto nervoso, não sabendo o que fazer, buscava alívio comendo demais; engordou feito uma jaca molenga e agora sofre com o açúcar no sangue – continuou a Bete enxugando o suor que lhe escorria sobre os olhos.

Eu arfava, suava com os passos vigorosos, mas a fome de saber o que acontecia, naquele trecho do mundo, me fazia atentar mais e mais nas palavras da minha colega querida. Ela então continuou:   

- Um vizinho nosso, que é metalúrgico aposentado, e que vaga hoje pelos bares do bairro, barrigudo feito um guaru, me contou que o mais corrompido furtava os objetos da casa pra vender. Com o dinheiro comprava os satisfatores da sua adicção.

Eu então compreendi o paralelo que a Bete traçara entre os maus gestores públicos e os usuários de drogas. Os primeiros desviavam os recursos que não lhes pertenciam para a satisfação dos seus maus propósitos da mesma forma que os viciados desviavam os bens da casa da família para serenar os clamores do vício.

- Eu não sei não, mas em minha opinião, esse pessoal todo, tanto os ladrões da coisa pública, quanto os viciados precisam de tratamentos. Além de condenados pela justiça, os primeiros devem devolver o que não lhes pertence; convém passarem depois por períodos de reciclagem e serem instruídos a não cometerem mais tantos dissabores contra os que confiaram neles.

- É verdade dona Bete. A senhora tem razão. Se o pessoal encarregado não moralizar essa gandaia toda, chamando os meliantes pra cima do palco e dando, nas orelhas deles, piparotes corretivos a credibilidade das instituições desmoronarão infalivelmente – concordei eu já, naquela altura da caminhada, bastante cançado.

Quando completei minhas usuais e corriqueiras dez voltas reduzi a velocidade e fui parando devagar. A Bete, esbanjando saúde, dizendo bye-bye e acenando tchauzinhos, seguiu firme em direção ao portão da saída do parque.

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2015
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub