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O Prato do Dia

O Prato do Dia

Agosto 28, 2017

Fernando Zocca

 

 

 

Por falar em atropelamentos, calçadas, alcoolismo e mortes, a gente não deixa de lembrar uma tragédia ocorrida aqui na província, semelhante a estas que aconteceram nos dias atuais na Espanha, França e Inglaterra.

Era meado de 1960 quando na política mandavam os militares, na cultura a Jovem Guarda e, no coração dos adolescentes, é claro, as paixões.

As brincadeiras dançantes e os bailes carnavalescos aconteciam no Clube de Regatas, no Palmeirinhas, no Cristovão Colombo, no Coronel Barbosa, no Atlético Piracicabano e Clube de Campo.

Quem quisesse saborear deliciosos queijos e vinhos devia ir a certas bancas especializadas instaladas no mercado municipal.

Nos ginásios onde bons professores ministravam e alguns alunos aprendiam as matérias do segundo grau, os contatos com o sexo oposto aconteciam de forma bem diversa, excitante e divertida, dos usuais experienciados pela primeira vez nos lares.

A crença dominante entre os jovens era a de que somente conseguiria ter sucesso na conquista daquela garota desejadíssima quem tivesse um bom carro.

Entretanto quase ninguém dos apaixonados tinha idade suficiente para obter a habilitação; mas haveria alguma esperança a quem tivesse um pai ou tio proprietário de qualquer carro que fosse.

Se a moda era esperar a garota no portão do ginásio, logo depois do término das aulas, mais chique e revelador da importância social, seria esperá-la num belo e potentíssimo automóvel.

Mas, meu amigo, se o sujeito tinha o carro, mas não a namorada cumpria conseguir uma. E não haveria melhor forma de concretizar a tal façanha do que exibindo a si e ao seu lustroso veículo – mesmo que fosse furtado do pai - às prováveis e possíveis pretendentes, circulando em volta do quarteirão da escola, a muitos quilômetros por hora e... É claro, com os escapamentos abertos.

Pois foi assim que um promissor garoto, que amava os Beatles e os Roling Stones, embriagadíssimo de vinho, obtendo de forma subreptícia o carro do pai, ao exibir-se numa tarde, durante a saída dos alunos duma famosa e tradicional escola, da região central da cidade, perdendo o controle, invadiu a calçada, atropelou, aleijou e matou muitas jovens.

As cicatrizes persistem até hoje.  É uma realidade que ainda gera muitos lamentos, choros e murmurações tenebrosas.

Agosto 25, 2017

Fernando Zocca

 

A palavra io em italiano significa eu. E o eu é o vocábulo mais respeitado, adorado e louvado pelas personalidades egoísticas, egocêntricas do que qualquer outra coisa, justamente por causa do seu significado.

Do rol dos adágios das personas ególatras faz parte o refrão “farinha pouca, meu pirão primeiro”, e dane-se o resto da tripulação.

Quando éramos criança morávamos à Rua Benjamim Constant e tínhamos uma vizinha com sobrepeso bastante exacerbado.

Em decorrência das dificuldades de caminhar pelas ruas, passar pela roleta dos ônibus, sentar-se nas poltronas dos teatros e cinemas, ela resolveu fazer dietas depois de consultar um especialista.

Da lista das atividades, receitas e recomendações do doutor fazia parte o nadar bastante numa piscina apropriada.

Então como éramos, eu e essa vizinha, sócios do Clube de Regatas de Piracicaba, às vezes, íamos juntos pro clube ou nos encontrávamos lá.

Numa tarde de sábado, quando muita gente desfrutava os prazeres de nadar a colega fofinha sofreu um tombo batendo com muita força a busanfa no chão.

O choque foi tão forte que ela pensou ter fraturado algum osso. Prontamente socorrida foi levada pra casa.

Como as dores não passavam sua mãe resolveu marcar uma consulta com o médico pra que ele detectasse a possível ocorrência de qualquer anomalia mais grave.

O médico examinou detalhadamente a paciente e disse-lhe:

- Olha, não aconteceu nada de muito grave. Só um hematoma bastante proeminente. Mas vou prescrever uma medicação e logo você volta pra atividade física.

Assinando as receitas do anti-inflamatório e analgésico, o doutor recomendou:

- Junto com os remédios você deve também fazer a helioterapia.

Depois de 45 dias as duas, mãe e filha, voltaram ao médico e a idosa, queixando-se muito, logo ao sentar-se diante do consultor foi declarando:

- O senhor mandou a menina fazer helioterapia. Por isso procurei uma pessoa especializada nisso e ela imediatamente começou a primeira duma série de 10 sessões de massagem na garota. Na quinta eu, que sempre esperava na sala ao lado, quando entrei de repente, no local da esfregação, vi o Hélio praticamente em cima da menina, babando feito o lobo mau, diante da chapeuzinho vermelho. Eu fiquei indignada e puxei a menina pra fora. Nunca mais quero saber desse negócio de helioterapia.

Diante do espanto do médico a mulher prosseguiu:

- Só deram certos os remédios que o senhor receitou. Sarou o bumbum, mas a menina engordou tudo de novo. Olha só como está isso: parece uma abóbora, uma pêra. Tem até gente que chama a pobrezinha de abacaxi.

Percebendo a pressão arterial aumentar vertiginosamente enquanto seu rosto avermelhava-se o doutor tentou com a voz mansa e pacífica explicar:

- Minha senhora... Minha querida... Helioterapia é usar a luz solar, o calor, o ar livre, pra acelerar o advento da melhor saúde.

- Ah... Então é isso? Não tem nada de massagem? – indagou a menina que até aquele momento mantivera-se calada.

- Não, bem. Nada disso.

Na saída mãe e filha que não se olhavam, ao passarem por uma lanchonete viram logo o cartaz daqueles sanduíches enormes. Sentindo o aroma de toucinho frito nas narinas as duas ingressaram no estabelecimento e com apetites leoninos devoraram dois maxi-hiper-megas sandubas regados com litros de refrigerante.

Com os olhos marejados de prazer a menina, expressando-se com a boca ainda bem cheia, perguntou:

- A gente se ama, né mãe?

- É claro filha. Quem é melhor do que eu, se não eu mesma?

Agosto 18, 2017

Fernando Zocca

 

 

 

A Câmara Municipal de Piracicaba aprovou a lei que autoriza a Guarda Municipal a aplicar multas nos motoristas que trafegam pelas ruas da cidade.

A decisão tem várias consequências. A primeira delas é onerar a carga de trabalho dos policiais. A segunda seria, em tese, o reforço dos caixas do município, supostamente em baixa. A terceira seria o entulhamento dos órgãos responsáveis pelo julgamento, da justeza ou não, da aplicação das penalidades e a quarta é a consciência de que as multas não resolverão os problemas do trânsito na cidade.

À semelhança do que acontece em todas as urbes medianas e superdesenvolvidas a questão primordial refere-se aos engarrafamentos, resultados diretos da maior quantidade de veículos em ruas projetadas nos anos em que o grosso do tráfego era exercido com carroças.

Ou seja, muitos automóveis para ruas estreitas, resultam no uso de mais tempo na deslocação de um ponto a outro de certos trechos urbanos.

Não são todas as regiões da cidade a terem mais veículos do que espaço para o escoamento célere. Na região central o afluxo é bem maior do que era há alguns anos.

A população cresceu, o número de veículos automotores – carros, motos e Vans - a circular agigantou-se, no entanto as ruas são as mesmas de cinquenta anos antes.

Perceba que não serão as multas a resolverem os problemas de circulação, engarrafamentos, furtadores do tempo dos cidadãos.

O problema da prefeitura não é a rarefação das verbas. A administração não se moveu até o presente momento em decorrência das dúvidas sobre a perda ou não dos direitos políticos do seu prefeito.

Como a decisão da instância superior julgou improcedente o pedido ministerial que apontava fraudes e falhas nas atitudes do senhor prefeito, parece que a segurança e a autoestima embasarão agora as ações prometidas durante a campanha eleitoral.

Mas a glória – à semelhança dum gol do Palmeiras, aos 45 minutos do segundo tempo, naquele jogo do título - coroaria o começo do retorno do prefeito se ele, com uma canetada, não sancionasse, rejeitasse, interrompesse as consequências da decisão dos senhores vereadores.

A galera adoraria.   

Agosto 15, 2017

Fernando Zocca

 

 

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Tem nego que não pode te ver com um celular ou uma câmera na mão e já pensa que é para fotografá-lo.

E não é incomum que esse tipo de noção gere avanços hostis contra quem caminha pacificamente pela rua.

Essa ideia e atitudes são atribuíveis, nem duvide, ao atraso cultural, demência senil, e até mesmo à paranóia.

Vai saber o que pode aprontar (diante de tanto desenvolvimento tecnológico), um malucão desses, cuja cabeça é composta por conceitos da década de 1940, quando a loja de bugigangas – brinquedos, utilidades domésticas de plástico, e roupas - era a última novidade no bairro distante da cidade complexa.

Não tem como deixar de assemelhar essas atitudes antissociais ao comportamento das feras das florestas densas, que se perdem nas regiões civilizadas.

Os observadores atribuem essas investidas agressivas ao desmatamento, à expansão imobiliária nas áreas outrora afastadas, perturbando o que antes era o viveiro dos bichos silvestres.

Como informar aos agressores que as coisas estão mudando, que os fordinhos 1929 são já superados, que o brechó da esquina não consegue competir com a grande loja de departamentos?

Como dizer ao dono do cachorro que, quando com ele na rua, deve mantê-lo preso na coleira e, em caso de cães psicopatas, equipá-lo com a focinheira?

Se o vovô doidinho não entende muito bem o que se passa à sua volta, neste início de século XXI, seria mais sensato e confortável até, informar-se com alguém que supostamente já teria saído antes da caverna.

A atualização sobre as novidades da tecnologia depende da atenção nas mídias sociais.

Mas como assistir atentamente aos jornais das TVs, ler as matérias dos jornais impressos, ouvir as rádios que mais informam, se as benditas cabecinhas antigas, atrasadas, não coadunam lé com lé, cré com cré, vivendo encharcadas de pinga e cigarro ruim?

Não adianta resmungar. Ou o sujeito se atualiza ou vai ficando cada vez mais pra trás.  

Agosto 11, 2017

Fernando Zocca

 

 

Poucas vezes fui ao campo de futebol. Mas me lembro muito bem que numa das primeiras vezes em que estive no estádio, era ainda menino; acompanhava meu pai e meu primo Roque.

Já faz um tempinho e o XV ainda era proprietário da sua arena situada na Rua Regente Feijó, entre a Rua Governador Pedro de Toledo e a Santo Antônio.

A área do campo do XV, ocupava uma grande extensão de terra, no coração de Piracicaba. Bem no centro da urbe, não resta dúvida nenhuma que a especulação imobiliária tenha visado com os olhos grandes, esbugalhados da ganância, a desocupação do trecho, para a elaboração de algo mais rentável, aos mais exuberantes em espertezas.

Este fenômeno da troca de donos, por vias mal contadas, obscuras até, de certas propriedades imobiliárias, nos recorda outro praticamente semelhante: a da alienação do imóvel antes pertencente a um conjunto de donos, proprietários, como foi o caso do Clube de Regatas de Piracicaba, cuja sede era na Rua do Porto e sua chácara, situada no bairro Pompéia.

Sabe-se que, por motivos políticos, o Clube de Regatas teria sido adquirido pelo Palmeirinhas, situado na esquina das Ruas Bernardino de Campos com a São José. E que hoje, meu amigo, dizem, aquilo tudo é propriedade e teria o gerenciamento da prefeitura municipal.

Foi da mesma forma, crêem muitos, que por meandros tais só explicados pela consumação da ganância, da avidez pelo lucro, o Esporte Clube XV de Novembro deixou de ser o legítimo proprietário do seu campo passando a usar o da prefeitura.

Tais negociatas boas, somente para alguns, não deixaram de ser humilhantes para todos aqueles que pagaram as mensalidades, por anos e anos a fio, dos seus títulos societários adquiridos com o fruto de muito trabalho e sacrifício.

Mas voltando à vaca fria, vi o XV jogar com o Guarani há algum tempo, no estádio Barão de Serra Negra.

O XV venceu, mas não consegui entender o fato notabilíssimo de que, mesmo estando em vantagem no placar e tendo o árbitro omitido a punição de certas faltas cometidas por alguns atletas alvinegros, grande parte da torcida vaiava e ofendia o apitador.

A conclusão não deixou de ser a de que grande parte daquele povo todo, antes ia ao estádio para ofender, xingar, do que para deleitar-se com o bom futebol.

É por estas e outras razões, meu amigo, que o Esporte Clube XV de Novembro de Piracicaba, está onde hoje se encontra.  

Agosto 02, 2017

Fernando Zocca

 

 

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Um conceito bem marcante, inesquecível, facilmente comprovável, que vigorava entre os velhos amigos, naquelas reuniões informais da Turma do Sereno (foto), era de que, para concretizar um bom negócio, o “turco” esperto vendia a própria mãe.

Se ele entregava a progenitora ou não, isso já é outra história.

Mas o que vemos hoje em Brasília é exatamente a prática daquela teoria antiga e bem desenvolvida.

Na verdade esse conflito que alimenta os debates hoje na câmara dos deputados, na capital brasileira, dá-se entre a obrigação de julgar pelo Supremo Tribunal Federal, os indícios e provas dos crimes cometidos pelo presidente da república, e a autorização dos deputados para que o julgamento possa ser realizado.

Como é sabido Temer agraciou meio mundo com liberação de verbas, apoios políticos, facilidades mil, aos deputados e burocratas, buscando a manutenção da sua rendosíssima posição.

Negócios são negócios.

O que pode acontecer, mais uma vez, é a ocorrência da impunidade e até mesmo a negação da possibilidade de o julgamento assertivar se houveram ou não os tais crimes descritos na denúncia.

No caso do arquivamento do pedido de autorização para o julgamento, concluir-se-á que a moral, os costumes e a forma criminosa de agir, arraigadas no eleitor brasileiro, representados pelos atuais senhores deputados, sobrepôs-se, mais uma vez, à lei.

Ou seja, o julgamento político, prevalecendo sobre a avaliação técnica nos confere a noção de que mais vale a sacanagenzinha eficiente do que um cipoal de leis, constituição, códigos, normas, estatutos, portarias e milhares de publicações relativas.

Uma situação semelhante é aquela em que o Tribunal de Contas rejeita as ações de determinado administrador municipal, por inobservância das disposições legais, sobre distribuição de verbas, mas que não pode deixar de se perceber contrariado quando a câmara de vereadores ratifica as atitudes delituosas condenadas.

Enquanto isso, meu amigo, a calamidade pública, a miséria, e o fenecimento dos serviços públicos são inegáveis. O dinheiro que serviria para a manutenção destas instituições está hoje, com absoluta certeza, nas contas destes nossos queridos e intocáveis eleitos.          

Como é sabido o bom turco, pra fechar qualquer negócio satisfatório, vende até a própria mãe.

Mas se ele a entrega ou não, aí, meu querido, já são outros 500, outra história.

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