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O Prato do Dia

O Prato do Dia

Outubro 27, 2017

Fernando Zocca

 

 

A moça bonita havia acabado de concluir o curso de pedagogia que a habilitava a ocupar o cargo de professora numa escola rural.

Não foi por sorte, mas por muito mérito, que ela conseguiu também a aprovação no concurso público municipal objetivador da complementação dos quadros de professores da prefeitura municipal gerenciadora daquela unidade escolar.

Depois da nomeação da nova docente fazia parte, da sua rotina, esperar o ônibus nas proximidades da sua casa. A condução a levava até um local bem próximo da escola onde lecionava.

Ela dependia do transporte público por dois motivos básicos: o primeiro era que seu marido, por gerenciar empresa de grande porte, num bairro distante da cidade, não dispunha de tempo para levá-la ao trabalho; e o segundo pelo fato de ser recente a sua relação trabalhista resultante em ganhos insuficientes para a compra do carro próprio.

Em meado de julho de 1983, depois de horas exaustivas transmitindo os ensinamentos para várias classes de alunos, filhos dos moradores da região rural daquela cidade interiorana, à tardezinha, a professora, juntando seus pertences e despedindo-se das colegas de trabalho foi ao ponto do ônibus onde esperaria pelo veículo que a levaria de volta pra casa.

Não demorou mais do que 10 minutos de espera quando um sujeito dirigindo um carro cinza parou oferecendo carona.

O indivíduo dizendo conhecer o marido dela e saber onde moravam, ganhou imediatamente a confiança da moça que, apesar de algum receio, aceitou a oferta, entrando no carro.

Entardecia. Rodando pela estradazinha de terra, depois da troca de algumas palavras, o motorista disse que precisava entrar, por pouco tempo, numa chácara de sua propriedade, onde pegaria alguns objetos que teria de levar para a cidade.

Estacionando o carro debaixo duma mangueira frondosa ele desceu entrando rapidamente na casa. A professora, depois de vários minutos angustiosos de espera, achou até que seria mais confortador sair do carro indo para o interior da habitação, atendendo ao chamado do camarada que, da porta, lhe acenava.

Remexendo roupas e a tralha de cozinha o homem demonstrava tranquilidade, descontração. A um convide dele, a professora sentou-se numa poltrona e, sem desconfiar de nada, ingeriu todo o conteúdo do copo de suco que lhe oferecera o obsequiador.

Não seria exagero afirmar que depois daquele momento ela não se lembraria de mais nada do que se passou.

Em casa, toda desgrenhada, com as vestes sujas, foi-lhe complicadíssimo explicar ao marido o que acontecera. Mais problemático ainda foi tentar justificar as relações sexuais denunciadas pelos resíduos e marcas nas suas partes íntimas.

Indignadíssima a professora procurou o delegado de polícia do distrito mais próximo da sua casa. O doutor informou-lhe que para instaurar o inquérito policial precisaria do consentimento do marido.

Não estranhará meu querido leitor, se eu lhe disser que a jovem professora ficou sem o marido, o lar, emprego e toda a sua dignidade.    

 

 

Outubro 21, 2017

Fernando Zocca

 

 

fogão à lenha.jpg

 

A gente sabe que o consumo faz girar a economia; se não existe a compra, não pode haver a venda; sem elas a indústria não produz; desta forma tanto os empregados como os empreendedores do comércio, da indústria, da prestação de serviços e da construção civil permaneceriam inativos.

Quando o cidadão consome (compra) ele pode pagar o preço de duas formas: a vista ou a prazo.

Observa-se que a forma de pagamento a prazo é a mais escolhida pelo consumidor principalmente se os bens forem duráveis como, por exemplo, fogões, máquinas de lavar roupa, televisores ou enceradeiras.

O uso dos cartões de crédito, boletos, e carnês são os meios mais usuais pelos quais o consumidor se compromete a pagar o vendedor pelos produtos que comprou.

Assim é de suma importância a observação dos prazos tanto nos boletos quanto nos carnês porque se não houver o adimplemento nas datas combinadas, o consumidor pagará multa e acréscimos diários pelo atraso.

Desta forma se o seu Zezinho contrata uma empresa para que ela lhe faça, na cozinha, um fogão à lenha, remetendo depois o carnê para ser pago em data tal e, se os Correios entregaram o documento depois do vencimento da prestação, não será o seu Zezinho o obrigado a pagar a multa e nem os acréscimos legais.   

Na grande maioria dos casos as empresas remetem os carnês dentro de um tempo suficiente a que o comprador pague-o conforme o acertado no contrato.

Entretanto imprevistos podem ocorrer. Por exemplo: se os Correios entram em greve, segurando os carnês e os boletos até depois do vencimento da prestação, causará dano aos clientes que se comprometeram a pagar na tal data combinada.

A lei definiria quais os serviços públicos seriam essenciais impedidos, portanto, de esgrimirem por seus direitos com a greve.

Mas quando, em decorrência dos atrasos, não provocados pelo comprador/consumidor/ da empresa, o ato de fazê-lo pagar por valores (acréscimo diário e multa) a que não deu causa, é flagrantemente injusto.  

E certamente ocorreria o vendedor ou o financiador em enriquecimento ilícito, pois teria direito aos juros e acréscimos legais por força, não do inadimplemento do comprador/consumidor/ mas sim única e exclusivamente, por culpa da empresa (no caso os Correios) encarregada de efetivar a entrega dos carnês ou boletos.

Se o agente financiador, ou o comerciante, postou os documentos a serem pagos no prazo anterior ao vencimento e com tempo suficiente para que seu consumidor pagasse, sem as multas mais os acréscimos legais, não há que se falar em atraso no pagamento.

A culpa cabe à entidade que não cumpriu a sua parte; se ela o fez por motivos justos ou não, isso, meu amigo, já é outra história.

 

Outubro 18, 2017

Fernando Zocca

 

 

explosão nuclear.jpg

 

Donald Trump e Kim Jong-un são dois idiotas; não passam de duas bibas velhas querendo provar, cada um pras suas negas, que são machos.

Eu me lembro que quando criança brincando na rua com os coleguinhas, de vez em quando, ocorriam desavenças entre alguns deles. Não era raro uma garota, geralmente irmã de algum dos presentes, colocar os desafetos um diante do outro, numa distância pequena, estendendo depois a mão espalmada – polegar pra cima, mínimo pra baixo – diante do rosto dos desafetos e, em tom desafiador decretar:

- Quem for homem que cuspa aqui, quando eu mandar!

Então lá do fundo dos alvéolos pulmonares, da pleura, das árvores brônquicas, da laringe e faringe vinham aquelas secreções pútridas, verdolengas, resíduos das gripes e resfriados frequentes, pra boca salivosa, onde aguardavam, como que balas, na agulha, o sinal para a ação.

Ao já da mocinha os dois bestalhões cuspiam na direção da mão estendida da menina, que não sendo boba, nem nada, imediatamente, feito um gato, a retirava presenciando os bólidos excrementícios atingirem os rostos dos dois patetas.

Daquele momento em diante, meu amigo, saísse da frente: eram só tapas, socos, puxões de cabelo, unhadas na gengiva, joelhadas no saco, mordidas na orelha, chutes na canela e voadora no cangote que aconteciam. Alguns mais exagerados – principalmente os que lidavam com brigas de galo - não deixavam de dizer que “era só pena que voava pra todo lado”.

Depois de exaustos os dois idiotas sujos, machucados, com as vestes em frangalhos só serviam pro achincalhe e deboche da vizinhança que achava ser a fofoca sempre o melhor programa do que ouvir rádio, ver TV, ler jornal ou rezar o pai nosso.

Hoje em dia não tem mais cusparada. Mas é claro que não deixa de haver aquele velho espírito de porco que sem dúvida nenhuma diria na maior folga:

- Quem for homem que atire a primeira bomba.

Donald Trump e Kim Jong-un são dois idiotas.  Esperto é o Aécio Neves que lesou a pátria inteira, manchou a honra do senado federal, tendo saído limpinho, lépido, espertíssimo, pronto pra outra.

Que se cuidem Joesley e Wesley Batista: o senador pode mandar matá-los.  

Outubro 15, 2017

Fernando Zocca

 

 

Marlboro.jpg

 

Quando comecei a advogar em meado de 1983, aluguei uma sala na Galeria Gianetti, na Praça da Catedral.

O local era antes ocupado por um colega que mantinha ali uma mesa pequena dentro da qual, nas suas gavetas, havia enorme quantidade de fichas.

Em nosso primeiro contato combinamos que ele indicaria a imobiliária que administrava o imóvel sob a condição de que, se eu o ocupasse, deveria manter, sob minha guarda, o tal móvel.

Trato feito contratei uma caminhonete para levar ao meu novo endereço empresarial o mobiliário do escritório que adquirira com antecedência de anos. Aproveitei a ocasião para remover a mesa dos fichários do colega pro meu quarto na casa do meu pai.

No local onde ficava a minha sala haviam outras ocupadas por advogados conhecidíssimos na cidade. O entra e sai de pessoas pelo corredor era intensíssimo e, às vezes, nem no horário do almoço o fluxo reduzia.

Como raramente eu saia do escritório pra almoçar em casa, ficava lendo os jornais ou ouvindo o noticiário nas rádios. Numa dessas ocasiões entrou um cliente do advogado famoso e importante, que anos antes, havia sido vereador.

Quando eu lhe respondia que o doutor fulano de tal estava na sua hora de almoço e que voltaria no período da tarde, o sujeito sentou-se à minha frente, tirou do bolso um maço de Marlboro, pinçou um cigarro, sacou um isqueiro metálico com o qual acendeu o rolo e, depois de uma tragada longa, começou a falar:

- Conheço o camarada que atendia aqui antes de você. Ele advogou para um parente meu; não era bom na doutrina, na legislação e muito menos na jurisprudência. Mas fazia cada trapaça que deixava os mestres e doutores de boca aberta. Numa questão de trânsito quando um cliente dele, réu numa ação criminal, e, pelo mesmo motivo, noutra na área cível, desmereceu a placa pare, invadindo a via preferencial, causando danos materiais e pessoais em outro transeunte, o chicanista provou, por meio de fotos, que no lugar onde se dera o embate não havia placa pare e que, portanto, não existia delito do seu cliente. Se alguém deveria pagar os danos seria a prefeitura que negligenciara na sinalização do local.

- Mas como o ministério público denunciaria um delito se não houvessem as condições materiais, físicas, para a transgressão da norma? Se não tinha placa sinalizadora, já no inquérito policial haveria a constatação – eu disse.

- O problema é que havia sim placa sinalizadora. Acontece que o tatu espertíssimo chegando ao lugar, de madrugada, furtou a chapa voltando pela manhã quando fotografou a esquina. Foi o maior banzé-de-cuia, um bafafá processual terrível. Mas ganhou as pendengas.

- É por esta e outras que o judiciário não está imune às críticas – concluí.

- O doutor está começando agora. Não viu nada. Num processo de execução contra devedor solvente em que uma loja de roupas usadas, quinquilharias, movia contra uma bicicletaria, esse nosso tatu amigo, no balcão do cartório, ao lado de uma dezena de outros colegas, e diante da legião de servidores da justiça, quando se viu com a oportunidade, rapidamente destacou o cheque das folhas do processo e, disfarçadamente, sem que ninguém notasse deglutiu-o com certa facilidade. Novo quiproquó, um fuá dos infernos se instalou, sendo resolvido depois de algum tempo, com o arquivamento do processo.

- É meu amigo, as coisas não são assim como parecem ser – filosofei ao perceber que entrava festivamente na minha sala o mestre, buscado pelo meu visitante, pronto para outra longa e árdua tarde de trabalho.      

Quanto à mesa e ao fichário do tatu eu os devolvi ao seu dono que, depois de anos, apareceu para resgatá-los.

Outubro 01, 2017

Fernando Zocca

 

 

Em princípios de 1995 meus filhos, minha esposa, eu, mais alguns colegas deles, vizinhos nossos, tivemos por hábito, durante algumas manhãs de domingo, sair defronte a casa onde morávamos, à Rua Bela Vista e, a pé, nos dirigíamos, numa caminhada lenta, porém progressiva, até a chacarazinha do Clube de Regatas que ficava numa estradinha no bairro Pompéia.

O grupo formado por 10 ou 11 pessoas percorria durante quase duas horas uma distância imensa; o trajeto, bastante cansativo, terminava no campo de futebol da chácara.

Naquele ano o Clube de Regatas mantinha um caseiro super bacana que residia no local com sua esposa e dois netos. Lázaro, ou Lazão fora proprietário de um bar antes de ser contratado pelo clube e, por causa dessa experiência, tinha também, sob seu comando, a cantina do local.

Quando a tropa chegava ia, geralmente, pra sombra das jabuticabeiras, mangueiras e goiabeiras. Ao redor de várias delas, havia churrasqueira pronta para o uso.

Muita água e refrigerante precediam a ingesta do churrasco de frango que assava lentamente sob a combustão do carvão trazido no apetrecho.

Os que tinham atestado médico em dia, portanto autorização na carteirinha do clube, não perdiam muito tempo e logo lançavam-se nas águas frescas da piscina legal que lá havia.

Atento às necessidades dos associados Lazão perscrutava o grupo sempre disposto a fornecer refrigerantes, doces e água de coco.

Não era raro acontecer algumas partidas de futebol depois do almoço. A maioria dos moleques levava, na mochila, chuteiras, meiões, calções e camisetas dos seus clubes preferidos.

Numa dessas partidas eu, que permanecia sempre da linha do meio do campo pra trás, objetivando barrar os ataques dos adversários, em uma disputa de bola, com o genro do Lazão pisei, sem querer, e nem imaginar nas consequências, num pedaço de galho, ali jogado no meio do gramado, pela ventania da noite anterior, fazendo com que a extremidade da madeira se elevasse no exato momento em que o adversário chutava, usando o máximo da sua força, com o pé esquerdo. Ao invés de atingir a bola o barrigudo jogador, que tinha os tênis velhos e as meias furadas, chutou a ponta do graveto grosso.

Meu amigo, a gritaria, a choradeira e a xingação que se seguiram foram memoráveis.

A molecada toda parou, bestificada com o escândalo que jorrava em forma de impropérios ali, no meio do campo.

Não faltou quem me criticasse bem como surgiram os que diziam não ter sido nada grave o incidente.

Mas o tal genro, que fora abandonado pela filha do caseiro legal, por não suportar ela tantos desaforos embasados no alcoolismo, choramingando muito, abandonou o campo indo sentar-se a uma mesa bem longe do gramado.

Naquele domingo, quando o sol já se punha no horizonte, a tropa exaurida, porém asseada, com banhos geladíssimos, pôs-se a caminhar lentamente de volta pra casa.          

  

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