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O Prato do Dia

O Prato do Dia

Novembro 24, 2018

Fernando Zocca

 

 

O crescimento das famílias, a multiplicação dos seus filhos necessita, para a continuidade da existência, do espaço suficiente onde possam viver sem muitas complicações.

Terrenos, casas, apartamentos, sítios e fazendas já têm dono. A terra, o território, da maioria dos países, está comprometida com a acomodação daqueles que chegaram antes.

Nos tempos bíblicos, isto é, tempos do antigo testamento, não era incomum as pessoas, para se livrarem das grandes dificuldades da vida, ofertarem sacrifícios aos deuses em troca de mais conforto e melhores condições para a sobrevivência.

Tanto é assim que a Abraão é pedido que sacrifique seu filho Isaque. Ainda bem que ele não prosseguiu com tal intenção.

Mas, meu amigo, nos tempos atuais, especialmente no século passado, isto é, no século XX, em certas regiões remotas desse mundão velho, o tal pensamento ainda pairaria no ar feito nuvem de poeira.

Aos que conhecem o jogo de xadrez, a proeza sacrificial denomina-se gambito.

Então para a concessão dos favores, daqueles bambambãs mais antigos, considerados os senhores legítimos da informação e dos pedaços necessários ao desenvolvimento normal das proles, não era novidade a entrega de um filho, que se tornaria refém, das tais autoridades familiares.

Ao invés da vida do neném, o preço a pagar, aos concedentes dos favores territoriais, pelos concessionários, a saúde mental do infante talvez fosse até melhor.

A deterioração espiritual do ser infantil, conseguida com os falsos testemunhos, difamação e bullying, serviria de exemplo aos pósteros e também de treino aos futuros médicos da família.  

A criança transformar-se-ia, no mínimo, num legítimo bode expiatório que receberia, a exemplo de um para-raios gigante, todas as acusações originadas nos infortúnios e frustrações daquele grupo familiar.

Para a concretização dos planos absurdos, o zunzunzum murmurativo, não deixaria de sugerir ao casal recém-casado, ingênuo, mal informado, cabeça-fraca, uma viagem de trem até a cidade vizinha, onde num monte das amarelas palhas de milho, do paiol antigo, lançariam o recém-nado, fazendo sexo, logo em seguida, ao lado do filho.

A extensão dos limites familiares, da competência do tal bode, em absorver as indigitações, não raras vezes, acontecia facilmente ao abranger o bairro, a cidade, o estado e até mesmo o país todo.

Uma das chibatas mais famosas, que cabia perfeitamente nos costados do bode expiatório rebelde, não deixaria de ser a frustração amorosa.

- O moleque não é a torre de Pizza, mas também tem uma inclinação bem acentuada – notaria um dos credores frustrados pelo papai do garotão, ao vê-lo seguir, com olhos vorazes, a louraça alvíssima, portadora dos mais belos olhos azuis jamais vistos sobre a face do tal território.

- É por aí que a gente “vamos” pegar aquele filho de quem não presta – decidiria a cúpula gestora dos malefícios vingativos daquelas mal pagas pessoas.

Esquivando-se das armadilhas engendradas pelos perseguidores ávidos de satisfação sanguinária o menino não deixaria de ouvir o cochicho infame vindo da casa vizinha do terreno baldio:

- Ih, a lá, vai mijar na latinha de comida do indigente. Santo Cristo!

Mas oh Deus, quão grande frustração causariam as palavras do adolescente, às investigativas velhas e ressequidas senhoras prognosticadoras da loucura do mocinho, quando ele, ainda bebê, depois de ter sido involuntariamente derrubado no chão pela própria mãe, que o alimentava com a mamadeira, numa esquina próxima de sua casa, e de ter sido vítima da maldição da cigana, dissesse em resposta à pergunta, como vai sua cabeça?

- Cheia de cabelos.

Entretanto, meu querido leitor, depois de duas sofridas internações hospitalares satisfatórias, planejadas pelos vingadores, haveria ainda outra chibata complementadora melhor do que, ao choro e ranger dos dentes da circunvizinhança, a esposa do moleque crescido, reagisse solidariamente com os prolongados e perturbadores roncos noturnos?

Deus quisesse que não.

Novembro 16, 2018

Fernando Zocca

 

 

Espirrando, tossindo, bocejando e finalmente emitindo dois sonoros arrotos, Van de Oliveira Grogue entrou, naquela manhã, por volta das 11:30 no boteco do Bafão.

Ele trazia num embrulho amarrotado, uma vistosa bandeira do Palmeiras que, de imediato, desfraldou pra galera atenta nele.

- Fui jogador de futebol por muitos anos e meu “verdão” vai ser campeão. Eu já vejo – disse ele.

Logo em seguida, ao erguer a camiseta que tinha por baixo outra, seu ventre volumoso desprendeu-se para fora, em direção ao solo. Ele exibia, com muito orgulho, a mais vistosa camisa do seu time.

- Você não enxerga – e, ao que parece, faz muito tempo - nem o dedão do pé, e vai me dizer que já vê o time campeão? Como assim, Grogue balofo? O que pode uma criatura aprontar com uma barriga imensa dessa? - questionou Alan Brado ao levar à boca o bico da garrafa de cerveja, mantida antes debaixo da cadeira sobre a qual se sentava.

- Não usa copo, não ô cabeçudo? – respondeu o pingueiro alisando a pança antes de dobrar cuidadosamente a bandeira verde e guardá-la entre as suas coisas.

- Esse boteco precisa de mais gente. As despesas são muitas e o que recebemos não paga a metade das contas – sussurrou Bafão a um recém chegado careca.  

- Como assim? – inquiriu Allan Bike aproximando-se e se sentando defronte ao proprietário do botequim – E os moleques, a molecada, os malucos, os jovens da cidade? Cadê essa turma?

- Esses não pagam. Não têm dinheiro – concluiu Bafão ao alisar o tampo do balcão com um guardanapo.

Allan Bike firmando o olhar notou algo diferente na disposição das coisas dum canto do balcão.

- O que é aquilo? – desejou saber o sem cabelos, ao questionar Bafão.

- Ah, isso e coisa do Grogue. Você sabe como ele é. O cara agora cismou de contar quantas cervejas toma por semana e aquelas tampinhas ali, enfileiradas, representam as garrafas consumidas.

O desfavorecido capilar, com um gesto pediu uma dose de “engasga gato” e, depois da deglutição, feita num só golpe, saiu mandando Bafão botar o preço na conta. Ao passar perto da fileira das tampinhas marcadoras do consumo do Grogue, espalhou-as todas com um golpe furtivo.

Sorrindo disfarçadamente, arrastando os chinelos de couro, Allan Bike caminhou em direção à porta de saída murmurando:

- Palmeiras? Como assim Palmeiras?

Novembro 15, 2018

Fernando Zocca

 

 

Lula foi ouvido, mais outra vez, pela justiça do Paraná sobre a suspeita de ter recebido propina na forma de reformas feitas num sítio, pagas pela empreiteira que, em tese, teria sido beneficiada por determinações do acusado.

A imputação, muito genérica, parte do pressuposto de que o tal sítio seria de propriedade do ex-presidente.

A peça inicial vem estribada em depoimentos de pessoas formalmente processadas pela mesma justiça e que por acusarem o réu, teriam recebido o direito à diminuição da pena que lhes seriam impostas.

A denúncia não prova que a propriedade do tal sítio era realmente do processado.

Por outro lado haveria de se provar também que a empresa vencedora das licitações promovidas pela Petrobrás, agiu de forma a prejudicar a outros possíveis concorrentes.

O direito vem sendo manipulado politicamente. Na verdade a ideologia capitalista não permite, nem pode permitir que qualquer outra orientação possa diferir dos ensinamentos contidos, por exemplo, na Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo de Max Weber.

Neste mesmo sentido relembramos o show político midiático culminante no impeachment da Sra Dima Rousself. Toda a acusação baseava-se em determinações administrativas tomadas pela então presidenta que consistiam em, de algumas definidas contas da Caixa Econômica Federal e do Banco do Brasil, transferir os valores destinados ao adimplemento dos créditos dos programas Minha Casa Minha Vida, Bolsa Escola e Bolsa Família.

Até o momento da elaboração do petitório do impeachment, as tais manobras financeiras não faziam parte de qualquer tipo penal. Isto é, não eram, e nunca foram crimes.

O próprio governo estadual do PSDB utilizou esses mesmos mecanismos na solvência dos custos das construções de várias linhas do Metrô de São Paulo.

E não teria sido o então presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira, um experimentado administrador, a transferir verbas das contas do FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço) para o pagamento das despesas com a construção de Brasília?

Por isso tudo a gente vê que os julgamentos todos que submeteram e submetem o Partido dos Trabalhadores, e seus líderes destacados, não deixam de ser única e exclusivamente políticos. Não há e nunca houveram crimes a serem punidos.

Desta forma, travestem-se as reprovações das orientações políticas, em condenações de supostos crimes, fazendo-as injusta e indignamente, com base nas provas fabricadas nos autos.  

Novembro 07, 2018

Fernando Zocca

 

 

Willian Shakespeare.jpg

 

Dina Mitt entrou no bar do Bafão naquela manhã de segunda-feira e foi logo avisando a todos os presentes:

- Sobrancelha não é bigode.

O embasbacamento geral fez com que quem levava o copo à boca parasse na subida do braço; quem pagava a conta estancasse sacando o dinheiro do bolso e quem fumava paralisasse com o pito nos beiços.

Dina continuou:

- Eu amava o meu barrigudinho. Ele era malvado, arfava feito uma mula velha na subida; tinha um bigodinho esquisitíssimo e gostava de bater na mamãe. O cachorro não era besta de cavoucar minhoca em barro duro, mas vivia com a varinha na mão. O olho esquerdo era afetado. Uma ventania tinha lançado muita poeira na vista tendo-o deixado quase cego. Era nervosíssimo. Um problema neurológico fazia com que seus olhos dançassem de um lado pro outro, assim de bobeira, sem que ele quisesse. Os doutores disseram que era nistagmo, coisa da cabeça, tipo carburador sujo. Mas era fofinho. Eu gostava do gorducho. A perninha direita era mais fina do que a esquerda. Minha mãe quase apanhou quando sugeriu a ele que a amputasse e colocasse no lugar uma prótese. Com certeza ele teria mais segurança – dizia ela - pra pisar no breque do fusca velho. Mas papai não queria saber de conversa. Ele pensou em montar um armazém de secos e molhados no bairro. Entretanto achava que minha mamãe não tinha jeito pra coisa. Ele era macho, muito macho mesmo. E pra provar isso, apagou um charuto no braço esquerdo. Ele olhava pra ferida e, mostrando pra visita sorria como se dissesse “faça isso, seu vagabundo, se for homem”. Meu baixote barrigulino era importante. O pai dele, meu avô, trabalhara, apesar de analfabeto, numa filial governamental interiorana e ficava mais em casa do que no trabalho. Alguns vizinhos enxeridos diziam que vovô só saia de casa no dia do pagamento. Era muito difícil ver papai rindo ou demonstrando felicidade. Ele quase não falava. Vivia bravo.  Uma vez ele cismou que queria criar galinhas. E não é que o fofutcho disse que se não conseguisse amealhar umas 1.000 penosas ele não seria digno do emprego na empresa que o sustentava? Aos que ele considerava nervosos sempre recomendava Maracugina. Vocês acreditam que ele comprou até um bote. Sabe aquelas canoas de tábuas que fabricavam há alguns anos passados aqui na cidade? Então... Ele tinha um daqueles, que ficava ancorado na margem do rio Tupinambicas. Manja aquele riozão? Então... Vocês imaginam que ele queria falar inglês. Eu sabia que ele não conseguiria, por isso arrumei um namorado que lia, escrevia e falava no idioma do tio William Shakespeare. Manjam o Shake...? Meu pai ficava furioso quando me pegava namorando o tal, altas horas, na varanda de casa, debaixo dos vasos de samambaia... Mas ele era também muito romântico. Uma vez ele fez um verso pra mamãe Rosalina. Era assim: “batatinha quando nasce esparrama pelo chão, Rosalina quando dorme, ronca muito no colchão”. Não é uma gracinha? Não merecia um selinho?  

Dina Mitt só parou de falar quando um caminhão tanque imenso, perdendo os freios, invadiu a calçada, na esquina vizinha, derrubando toda a parte frontal dum bazar especializado em objetos de plástico.

Do corre-corre subsequente destacou-se a exclamação do palmeirense arraigado que passava pelo trecho:

- Oh, dó!  

 

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