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O Prato do Dia

O Prato do Dia

Maio 24, 2019

Fernando Zocca

 

 

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Mané Pestana entrou no escritório de contabilidade do professor Hein Hiquedemorais com um problema muito sério: como deixar de pagar tanto imposto de renda?

Num momento ele se viu só na sala de espera do escritório, que naqueles dias não aparentava viver os seus melhores instantes de abundância.

Como não tinha ninguém para recebê-lo sentou-se num sofá já um tanto quanto que desgastado. A sós observava o ambiente. Dos cômodos vizinhos vinham ruídos de pessoas teclando computadores, papéis sendo manipulados e o zunido contínuo do que parecia ser um ventilador forte.

De repente, entrando na sala com um calhamaço de papéis nas mãos, Hiquedemorais, olhos fixos na papelada, atravessando o ambiente sem ter notado a presença do consulente foi interrompido por este que disse:

- Boa tarde gente boa. Eu preciso de um favorzinho do seu escritório. Pode ser?

Hiquedemorais assustou-se com a presença daquele alguém não esperado. Bem bobamente, com um fiozinho de saliva escorrendo-lhe pelo canto direito da boca, o profissional dos números respondeu:

- Hã? Sim. O que acontece?

- É o seguinte: eu tenho uma banda sertaneja e pra fechar contrato com as pessoas que nos solicitam shows eu preciso emitir recibos das quantias que recebemos pelas apresentações. O problema é que os que nos contratam insistem em descontar 10% a título de imposto de renda. Pode isso, seu Hein?

Hiquedemorais colocou o pacote de papeis que trazia sobre a mezinha de centro dizendo:

- Sente-se, por favor.

- Não. Fico de pé mesmo – respondeu Mané esfregando as pestanas com vigor.

- Bom, veja bem... Esse negócio de imposto de renda é terrível. Eu conheço uma antiga funcionária da prefeitura que trabalhou exatos cinco anos na tal burocracia, tendo se aposentado depois. Já faz 50 anos que minha velha e querida anciã Izlindaura (hoje com quase 100 anos) percebe os frutos do seu honorável trabalho.  E apesar da bubunfa farta, ela nunca fez qualquer tipo de declaração pra ninguém, muito menos pro imposto de renda.

- Sim, seu Hein Hiquedemorais. Então há um jeitinho furtivo assim, como de alguém que se esgueira, com o qual podemos manter o total conquistado com o nosso som sertanejo?

- Veja que aqui em nosso escritório, administramos a contabilidade dos pequenos comércios do bairro como armazéns de esquina, bicicletarias, bares e até oficinas mecânicas; nós livramos os nossos clientes dos tais pagamentos digamos injustos.

- E o pessoal, os empresários, estão indo bem nos seus empreendimentos? – desejou saber Pestana.

- Bom, o armazém da esquina fechou. A bicicletaria também não resistiu muito tempo e os botecos apesar das parcas pingas diárias, mantém o padrão.

- Mas e aí, seu Hein? Como fica a situação desses empresários todos? – indagou Mané Pestana.

- Bom, a gente fazemos o que podemos. Temos no quintal do escritório um departamento de praxiterapia. Lá os que comparecem aprendem a fazer pequenos trabalhos manuais, entende? Olha só esse tipo de enfeite que um dos nossos clientes laborou – afirmou Hiquedemorais mostrando uma placa de parede onde se lia:

DEVO SIM. NÃO NEGO. PAGO QUANDO PUDER.

Impressionado, Mané Pestana ficou sem ter o que dizer. Então Hein Hiquedemorais, demonstrando preocupação disse:

- O senhor aguarde um momentinho que eu vou ali levar essa papelada toda e já volto pra te atender. Está bom?

Mané Pestana sentou-se no sofá, e depois de mais ou menos uns 26 minutos, no momento em que já cabeceava, quase pegando no sono, foi violentamente lançado pra frente depois que um carro, perdendo o controle, invadiu o escritório derrubando toda a parede onde o sofá estava encostado.

Assustadíssimo Mané Pestana abandonou o local. Ao passar pela calçada onde metade do carro atravancava o caminho, ele viu a velhinha centenária que, saindo do veículo sinistrado, espanava, com as mãos, o vestido vermelho.

- Seu Hiquedemorais, seu Hiquedemorais... Minha virgem santa! Já aprontou os papéis que lhe pedi?

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