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O Prato do Dia

O Prato do Dia

Junho 29, 2019

Fernando Zocca

 

 

Por causa da usura, da ânsia pelo dinheiro, das cobranças irresponsáveis feitas pelos bancos, indústria, comércio e prestação de serviços, do seu tempo, Karl Marx escreveu o Capital.

Essa verdadeira bíblia comunista foi adotada politicamente por centenas de países dentre eles a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, a atual China, a pobrezinha Cuba, a Coréia do Norte dentre outras da África.

Resumidamente o comunismo, que tem raízes nos ensinamentos cristãos ensina que toda produção dos bens de capital e de consumo são feitas pelo Estado. Isto é, não haveria a propriedade seja ela industrial, comercial ou prestadora de serviços que não fosse gerida pelo Estado.

Desta forma o Estado exerceria o papel do capitalista tendo a população toda como obreira interessada.

Ora, essa forma econômica, afrontando diretamente a tradição da livre produção, da circulação do dinheiro e da prática do comércio, é combatida exatamente por todos aqueles responsáveis pela criação das mesmas situações existentes no tempo da elaboração de O Capital.

Nesse sentido, ao espírito de ludibrio, que gere toda essa maquinaria chamada capitalista não seria estranho fabricar, na casa da moeda exógena, toneladas de dinheiro injetadas depois, via contrabando, na economia dos países cujos representantes não comungariam com as diretrizes políticas dos chamados líderes mundiais.

E você sabe, não seria preciso explicar, que a quantidade de cédulas em circulação promove o aumento dos preços de todas as coisas.

É a chamada inflação que desnutre, desidrata e anemiza toda a população, os empreendimentos, a vida saudável do povo e a reputação de qualquer governante ou partido político.   

A sacanagem, esse espírito ludibrioso, é claro, não deixa de inserir-se também no judiciário. Imagine meu querido leitor, o que pode – o poder – de um advogado, pai de magistrado, em termos de tráfico de influência, numa cidade miserável, afastada dos grandes centros desenvolvidos.

Imagine as sentenças de um juiz de direito que, numa comarca distante, é locatário do maior contraventor do jogo de bicho da região.

Você acha que o agiota, o banqueiro locador, ou qualquer dos seus apontadores teria contra si decisões desfavoráveis?

  

Junho 29, 2019

Fernando Zocca

 

 

Tenho escrito desde há muito e muito tempo, em vários dos meus blogs, que os senhores proprietários das casas lotéricas precisam usar de melhores critérios – mais sensatos, mais lógicos - ao selecionarem as funcionárias encarregadas do recebimento das contas pagas pela população.

Não é de hoje que centenas de pessoas têm sido lesadas ao pagarem suas contas de água, luz, IPTU e carnês vários nos tais estabelecimentos.

Ainda está fresco na memória de muita gente, aqui de Piracicaba, o verdadeiro escândalo ocorrido numa dessas casas quando, depois de receber, durante muito tempo, o numerário pago por centenas de cidadãos, que desejavam quitar seus débitos do IPTU – imposto predial e territorial urbano –, a tal lotérica não repassou para a prefeitura os dinheiros recebidos.

Essa apropriação indébita fez a prefeitura emitir novas cobranças assustando a todos os que se julgavam quites com as contas agora cobradas novamente.

Eu recentemente tive outra surpresa desagradável: meses depois de pagar várias prestações do financiamento de um veículo, notei que duas folhas do carnê foram furtadas deixando-me em dúvida de como proceder.

Em contato com o banco credor, fui informado – depois que a funcionária (simpaticíssima) acessando via internet a matriz em São Paulo - que o tal débito relativo a uma das folhas desaparecidas do meu carnê estava quitado.

- Como assim se eu não paguei? - quis eu, muito surpreso, saber.

- Olha aqui – disse ela mostrando uma tela do computador - está constando que essa parcela está paga.

- Você não quer receber essa prestação? Me dá um recibo – implorei eu, desejoso de pagar, enquanto colocava a importância, referente a mensalidade, sobre a mesa de trabalho da moça.

A jovem afirmou que aquela agência da Rua Benjamin Constant não tinha autorização, nem caixas, para receber qualquer tipo de pagamento.

- Mas o senhor pode pagar na Caixa Econômica Federal que fica logo ali na Rua Morais Barros. Mas... Eu não sei não... Pode ser que essa parcela já esteja paga. O senhor pode pagar duas vezes a mesma coisa.

- Será? – indaguei eu na maior dúvida.

Bom entre pagar e não pagar eu não paguei. Julgava já estar quitada aquela prestação conforme informava a funcionária.

A minha grande questão agora era sobre quem teria sido o bondoso Papai Noel que me ofertara aquele presente.

O resultado disso tudo meu esperto leitor pode adivinhar: depois de ter gasto a bufunfa toda em outras coisas fui cientificado, alguns dias depois, pela financiadora, que aquela prestação estava em aberto havendo a incidência de multa, juros e correção monetária.

Outro apuro sério sofrido com gente não muito confiável exercendo ofício de bancário em casas lotéricas foi quando do pagamento do licenciamento de 2018 da minha moto.

Paguei em dezembro de 2017 o tal licenciamento. Entretanto o departamento de trânsito, por não ter recebido o numerário, ou por não ter sido notificado da quitação, não enviou o documento oficial emitido pelo órgão.

Como resultado disso tudo, dessa sacanagem alheia, hoje fui parado pelos agentes do trânsito. O cidadão da polícia militar ao ver os documentos da moto me informou que o licenciamento de 2018 não estava pago.

Mostrei ao ilustre funcionário da milícia o recibo do pagamento do tal licenciamento de 2018 emitido pela mocinha lindinha da casa lotérica.

- Olha, vou consultar pelo rádio, a existência do pagamento lá no DETRAN.

Depois de manipular tranquilamente o seu celular, o nobilíssimo profissional especialista, cumpridor dos seus mais ínclitos deveres disse-me:

- Cidadão: não consta, no departamento, a quitação desse licenciamento de 2018. Vou ter de recolher a sua moto.

- O quê? Como assim? – perguntava eu bestificadamente bestificado.

- Faz o seguinte: o senhor tem de pagar; depois levar o recibo lá no DETRAN. Eles emitirão o tal documento oficial juntamente com a autorização da liberalização da moto que o senhor terá de buscar lá no pátio.   

Lá foi a besta aqui pagar novamente uma conta que já tinha sido paga.

A brincadeira da lotérica ficou em mais de R$350. Fora o táxi que do DETRAN me levou ao pátio onde estava a moto. É claro, meu amigo, espertíssimo cidadão, que a autorização para a liberação do veículo só saiu depois que o paquidérmico funcionário responsável pela assinatura do documento terminou o seu lento, lerdo e vagaroso passeio a pé pelas dependências da repartição. Se o tal sujeito fosse goleiro do Corinthians receberia cartão amarelo pela cera.

Quando a simpaticíssima funcionária do balcão recebeu os papeis do chefão balofo, chamando-me em seguida, para levá-los onde a moto estava apreendida me asseverou:

- Hoje já não vai mais dar tempo bem. O pátio fecha as 17:30.

“Ah, mas que novidade, preclara cidadã, escolhida a dedo pra ocupar suas funções numa repartição estadual” – pensei eu falando logo em seguida:

- Vai dar tempo sim.

Com a autorização da liberação da moto nas mãos corri pro táxi que me esperava na porta da entidade. A conta do taxímetro já passava dos R$50.

“Olha o que uma maldita casa lotérica pode fazer” – pensei eu ao entrar no carro.

- Calma que pode piorar – murmurou o taxista partindo em direção ao pátio que ficava pra lá, bem pra lá do Carrefour.

Chegamos defronte ao portão às 17:46. O funcionário falou então:

- Já está tudo fechado. Agora só segunda-feira. O preço da diária fica em R$29. Mas tem o guincho que passa dos R$150.

Na volta pra casa, já ao anoitecer, vinha eu pensando que para uma cidade como essa, que abriga uma universidade capaz de cobrar, na justiça, mais de R$7.000 por uma única aula de filosofia embasadora do mais puro comunismo nunca dantes jamais visto em tais terras caipiras, até que a maldição da lotérica saiu barato.

Todas essas coisas chatas não deveriam causar tanta estranheza nas pessoas conscientes de que nesta cidade pobre, a maioria dos responsáveis pelas casas lotéricas de hoje, foram antes, banqueiros ou apontadores do tolerado jogo do bicho.

E quando você acha que no judiciário da província o tráfico de influência só existe por ser um local afastado dos grandes centros desenvolvidos, verá que está muitíssimo enganado ao se cientificar sobre os conluios entre o ministério público e o magistrado que condenou à prisão um ex-presidente da república.

Ora, se podem conversar extra-autos o promotor e o juiz, também o podem os advogados do réu. Em não havendo isso, meu amigo, não se fala em equidade, mas sim na mais tosca, brutal, subdesenvolvida e assassina injustiça.    

 

 

 

Junho 12, 2019

Fernando Zocca

 

 

cabeça de porco.jpg

 

Uma vez, desconsiderando o estado lamentável de conservação da maioria das calçadas tupinambiquences Van de Oliveira Grogue, no final da tarde, duma sexta-feira qualquer, usando um velho par de chinelos, caminhando descontraidamente como sempre, pro bar do Bafão, em certa altura do caminho, pisando num buraco e sofrendo uma topada violenta, fez levantar do dedão do pé direito uma lapa imensa que deixou, na vizinhança da unha, um ferimento doloridíssimo.

No pronto socorro do bairro o curativo eficiente amenizou seu sofrimento, mas como lhe foi muito difícil andar com tanto desconforto sugeriram-lhe o uso duma bengala.

Desta forma, depois de alguns dias ele apareceu, valendo-se de um bastão de apoio, no botequim famoso.

- Eh, Van hein! – provocou Abdo Minnal apontando, com o queixo, o instrumento – deixa eu dar uma voltinha com ela?

- Você não sabe o que é sofrimento – respondeu Oliveira – dói-me a perna toda.

- Também, você é muito burro. Como pode andar de cabeça erguida numa cidade como essa? É mesmo ser muito besta desatentar para os buracos e os cocôs dos animais espalhados pelas calçadas – afirmou Abdo afastando-se em busca da cerveja antes posta sobre o tampo do freezer pelo comerciante.

Amuado Van sentou-se a mesa encostada numa parede defronte ao balcão. Abriu o Jornal de Tupinambicas das Linhas e uma matéria chamou-lhe a atenção:

“Naquela casa, que parecia ser normal, habitavam seres muito esquisitos. Havia gay, menores, prostituta, desocupados e gente violenta. Depois que puseram dentro da garagem da casa um trole, uma espécie de carroça, com os varais encostados na parede parece que aquele sentido de bom senso desapareceu completamente. Ouvia-se à boca pequena que o padrasto abusava sexualmente do menino e da menina, filhos da mulher que viera morar naquele lugar; ela não denunciava as sacanagens ao ministério público por medo de ser despedida, por não ter para onde ir. Desta forma, por omissão, consentia que o amásio se aproveitasse sexualmente da ingenuidade e desamparo dos menores.

“O doutor delegado da comarca já sabia das ocorrências e mandara elaborar um estudo feito por um especialista da polícia. O documento vinha expresso desta maneira: a mulher que hoje mora naquela casa, quando menina era catadora de recicláveis. Dessa atividade, depois de maiorzinha passou a se prostituir pelas ruas do bairro. Assistentes sociais e psicólogos a encaminharam para os serviços de ambulante no terminal rodoviário da região central da cidade onde ela trabalhou por algum tempo. Com dois filhos para criar, surgiu-lhe pela frente o mancebo que com ela vive hoje maritalmente. A mãe dessa mulher, avó das crianças, é uma senhora visivelmente virilizada que mantinha o costume de andar pelas ruas do bairro onde também recolhia o lixo que levava pra casa.

“Um dos vizinhos daquela gente descreveu assim a situação: Da mesma forma que o tumor maligno devolve humores nocivos em troca dos nutrientes e oxigênio da perfusão sanguínea que o alimenta, Donizete Pimenta, Zé Laburka, Delsinho Espiroqueta e Dani Arruela, residentes naquele conhecidíssimo endereço, cortiço notório, cabeça-de-porco bem antigo, devolvem com o mal as bondades que recebem das pessoas caridosas da comunidade”.

Entretidíssimo com a leitura Van Grogue não percebeu que dele se aproximava Hein Hiquedemorais o mais astuto, esperto, vivaz e operoso contabilista tupinambiquence.

Com a costa da mão esquerda Hein Hiquedemorais tentou secar o filete de saliva que teimava em lhe escorrer pelo canto direito da boca.

- E aí, seu Grogue? Sarou o dedão? – indagou Hein enquanto acomodava-se a uma mesa vizinha.

“Ih, rapaz! Lá vem aquele chato” - pensou Grogue.

- Estou quase bom. Negadinha do pronto socorro botou bastante mertiolate no arranhão. Tiraram até raios-X – respondeu Van de Oliveira – É verdade que o senhor só anda de carro importado e bebe vinho selecionado?

- Mas que nada, meu filho. O papai aqui está com uma dor dos infernos nos intestinos. Não posso nem pensar em soltar pum. Não sei se vem coisa mais sólida ou liquida pelos fundos. Na dúvida fico assim meio que com a barriga inchada.

“Praga de cretino, cai no próprio intestino” – pensou Grogue em silêncio.  

Van preparava uma resposta quando defronte ao bar passavam vagarosamente duas senhoras obesas de braços dados; elas conversavam em voz baixa:

- Mas você ainda usa o secador de cabelos na xereca, minha filha?

- Tenho horror de me vestir assim, com a pele úmida, depois do banho – respondeu a outra.

Quando as duas estavam bem defronte ao boteco uma delas cochichou depois de olhar o pessoal que lá dentro bebericava:

- A alegria desses retardados é que todos sejam iguais a eles. Com certeza ou é isso mesmo, comadre?

- Com certeza querida. Mas acelera. Acelera o passo que não quero ser vista perto desse ambiente. Antes pobre sóbria do que rica alcoólatra.

Abdo que lá do fundo acompanhou a passagem das idosas, tendo ouvido o comentário de uma delas, falou em voz alta para que ouvissem:

- Aqui é assim!

As velhinhas que se afastavam não deixaram de revidar; em uníssono responderam:

- No hospício também, sua múmia!

Depois que Hein Hiquedemorais sentou-se, enchendo o copo de cerveja notou que certa calma baixou no ambiente.

Grogue continuou então a leitura da matéria do Jornal de Tupinambicas das Linhas que comentava sobre a tal casa velha dos orates.

“Diziam alguns vizinhos e gente da família que o tal Donizete Pimenta, na verdade um incubo maligno, pra que não dissessem ser ele um veado mequetrefe, tinha de provar a sua macheza copulando com várias mulheres, mesmo que fossem elas da própria família, ou que precisasse usar a força.”

Célio Justinho, tendo deixado Luiza Fernanda parada na porta do boteco, entrou agitando no ar os braços e falando em voz alta:

- Nem que eu fosse gerente do banco ou de loja teria coragem pra deixar alguém fazer essa maldade que presencio todos os dias.

- O que acontece nobilíssimo freguês? Deram-lhe outra nota falsa de 50? – questionou Bafão.

- Não é nada disso – Célio pensava na insistência de Luiza Fernanda em aprender a dedilhar o teclado sem ter qualquer noção de música, mas não tocou no assunto.

- Eu quero meu maço de cigarros, uma dúzia de cerveja em lata, carvão, mortadela, seis filõezinhos e aqueles tampões de ouvido ali da vitrine – ordenou Justinho.

Hein Hiquedemorais achou que conhecia aquelas pessoas. Bebericando um gole mais avantajado de cerveja ele pensou:

“Parece que conheço essa gente. Um deles, se não me engano, é gerente de banco. O outro apontador do jogo do bicho. Não me recordo bem...”

Enquanto bebiam e conversavam o tempo passava célere. Logo aqueles habitantes da cidade retornariam para suas casas. Levariam a impressão de que durante a madrugada tudo silenciaria. Mas muitos, entretanto, achavam que não seria bem assim.    

  

 

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