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O Prato do Dia

O Prato do Dia

Fevereiro 23, 2020

Fernando Zocca

 

Ofereço este texto à memória do escritor Afonso Henriques Lima Barreto, de quem sou fã.

 

 

 

goiaba.jpg

 

Antes de sofrer a acidente de trânsito que me quebrou a perna eu pedalava muito pela região próxima da minha casa.

Numa tarde de domingo quando seguia pela Rua Nuporanga, do Jardim Abaeté/Potiguar, antes mesmo de iniciar a travessia da ponte, mas já perto dela, uma mulher dirigindo um carro, vindo na direção contrária, ao me ver, reduziu a velocidade e, botando a cabeça pra fora do auto disse:

- Moço, pegue aquele gato que está no meio da ponte.
Quando eu iniciei a travessia vi um pequeno gato branco estendido no asfalto no meio do caminho.

Parei a bike no passeio de pedestres daquela ponte e me aproximei do bichano.

O animal estava sujo, úmido, magérrimo, havia um cateter de acesso de medicação preso fortemente com esparadrapo no antebracinho esquerdo.

Ao pegar o animal, pra tirá-lo do alcance dos veículos que trafegavam, pude sentir a emanação fortíssima de perfume.

Os odores me fizeram lembrar as putas da Ripolandia, a zona do meretrício, que existiu por muitos anos aqui em Piracicaba.

Estranhando muito aquela situação, fiquei sem saber o que fazer.
Primeiro pensei em levar o bicho pra casa onde poderia cuidar dele; entretanto eu estava de bike; não havia como carregar o perfumado e pedalar ao mesmo tempo.

Com o bicho no colo caminhei até um caminhão branco estacionado nas proximidades; vendo o motorista que descansava tranquilamente na cabine perguntei se ele não poderia socorrer o bichinho.

Sem nem ao menos abrir a boca, mas fazendo um sinal negativo com a cabeça, o tal aumentou ainda mais a minha angústia que via no sofrimento do gatinho, e  nos pequenos miados fracos, a sua morte que se aproximava.

Sai da presença do insensível e andando em direção às casas do entorno, apertei a campainha donde aparentemente moravam pessoas em boa situação financeira.

A minha pergunta, através do interfone, se ela, a mulher que me atendeu,  poderia cuidar do bicho, respondeu-me que, infelizmente não.

Continuei batendo à porta dos moradores do lugar obtendo sempre respostas negativas.

Finalmente resolvi aconchegar o sofredor num cantinho do portão duma casa chique.

Ao caminhar desesperançado até a bike percebi que fedia igual ao gato abandonado.

Pedalei mais alguns metros, passei defronte a Capela Nova Jerusalém parando numa pracinha onde havia uma torneira de água potável.

Tirei o relógio de pulso e mesmo sem sabão procurei me lavar livrando-me da catinga fedorenta que me impregnou. Por mais que usasse a água não me livrei do perfume horroroso.

Bom, pedalando consegui cumprir o percurso previamente definido que, geralmente, consumia 2 horas.

Quando chegava em casa percebi que havia esquecido o relógio sobre a mureta da torneira da praça onde parara.

Resolvendo voltar para recuperar o meu "bobo" reiniciei, agora já bem cansado, o caminho que fizera antes.

Ao passar perto do local onde deixara o provável paciente de alguma clinica veterinária, vi que um bando de crianças rodeava o bichinho sofredor.

Sem parar fui direto ao local onde deixara o relógio.
É claro que não estava mais lá.

De volta pra casa ainda pude ouvir uma ladainha extensíssima da minha mulher sobre o meu descuido com as coisas, especialmente com aquele relógio, que custara caro, e que me dera de presente com muito carinho.

Na semana seguinte resolvi ir a pé ao Parque do Piracicamirim. Era uma segunda-feira e quando lá cheguei encontrei um velho conhecido, cidadão do bem, que morava numa casa próxima. Ele curtia, sentado num banco confortável, a sombra duma árvore densa.

Conversa vai, conversa vem, contei-lhe sobre o gato, o perfume e o relógio.

- Ih, rapaz!  Era um gato branco? – perguntou-me ele.

- Era. Estava molhado, magro, sujo. Pareceu-me que o tinham embebido em perfume – respondi.

- Ih, nossa!! Ele estava machucado?

- Não aparentava ferimento. Mas tinha um cateter fixado com esparadrapo no antebraço esquerdo.

- Rapaz! Isso é macumba. Despacho dos brabos – garantiu o parceiro – Você teve sorte de não ter te acontecido nada de mal.

- Pra começar perdi o relógio.

- Ih, alá eu não te falei? Começa assim, mano. Ocê conhece o feirante Benjamin Baçoso que tem também uma banca no mercado municipal? Lá ele vende frios tipo presunto, mortadela, queijos e vinhos. Conhece? A banca dele fica bem perto da porta de entrada.

- Não. Não conheço – respondi, com segurança.

- Ele mora por aqui mesmo. Dá pra ver a casa dele. Tá vendo aquele telhado vermelho, com antena de TV, depois da esquina? É perto.

- Ah, já sei – respondi, firmando a vista.  

- Então vai lá e conversa com ele. Vai te contar tudo sobre esse negócio de gato branco na ponte e tudo o mais. Já aconteceu com ele.

Sai caminhando devagar e em pouco tempo me aproximei do local onde Benjamin Baçoso mercanciava. Na verdade aquilo era um depósito. Um mundo infinito de frutas estava todo ali. Baçoso e alguns auxiliares trabalhavam juntando algumas e separando outras em sacos plásticos grandes.

Eu me aproximei e me apresentei. Conversamos por alguns minutos e ele dizendo-me que não poderia parar com o serviço, convidou-me para acompanhá-lo enquanto agia.

- Aqui todas as nossas frutas têm nome – informou-me ele – As mangas, por exemplo, chamamos de Vera; os abacaxis de Renato; as melancias de Claudete; os abacates de Zelão e assim por diante. Compreende?  – ensinava-me ele professoralmente.

- Ah, sei... - respondí-lhe quando já naquele momento havia me sentado numa poltrona confortável.

Benjamim Baçoso continuava então o seu trabalho separando as frutas a serem enviadas aos seus inúmeros revendedores.

A um dos seus auxiliares que, tendo um saco plástico imenso à sua frente, o patrão Benjamin falava:

- Abacaxi, pra quantos?

- Pra 30 – respondia um empregado.

- Melancias, pra quantos?

- Ih rapaz, prum monte... Quero dizer pra cem – corrigiu outro servidor, depois de se arrepender da gracinha.

- Fala ai, e os abacates? Pra quantos vão – perguntou, com força, o Benjamim a outro empregado.

- Abacate, doutor? Abacate vai pra 12 – confirmou o auxiliar.  

- E a Vera, Carlinhos? Pra quantos vão?

- Um momentinho só patrão. Estou analisando. Deixa ver... Vera? Ah sim... Vera pra mil.

- O quê? Vera pra quanto?

- Vera pa mil. Vera pa mil. Copiou patrão?

- Sim. Copiei. Está tudo certo – concluiu Benjamin – e depois voltando-se para mim disse: - esses empregados!

Eu ia falar sobre o gato branco, o cateter de acesso no antebraço esquerdo, sobre a mulher esquisita, cara de louca, maluca, que passou com o carro, mas achei que estava tarde e fui me despedindo.

Durante o trajeto eu pensava: “Vera pa mil? Mas não seria muita coisa? Esse exagero todo não seria próprio de quem não tem o juízo são? É muita gente, amigo.”

 

Fevereiro 09, 2020

Fernando Zocca

 

 

chevett ii.jpg

 

Quem nunca viu aquele vídeo amplamente divulgado nas redes sociais e nas TVs, em que a mãe pede a criança (provavelmente num estágio pré-verbal de desenvolvimento) para que, diante da guloseima tentadora, colocada ostensivamente diante dela, não a coma até que a própria mãe volte de algum outro lugar?

Existem vídeos nos quais, ao invés de crianças, alguns cães são tentados, ostensivamente com petiscos, juntamente com solicitações de que não toquem neles, até que o tentador retorne, depois de uma curta ausência.

Sim, são muito comuns. Entretanto em Tupinambicas das Linhas o truque era bem diferente: quando surgia a questão do aparecimento constante de uma visita indesejável, os donos da residência, ao invés de pedirem, verbalmente, para que a pessoa não viesse tanto à sua casa, deixando assim de lhes encher o saco, simplesmente punham à mostra um objeto que fosse do interesse do visitante indesejado. Podia ser um relógio, um litro de leite, algumas notas de dinheiro e pronto.

Do mesmo jeito que, para o rato estava armada a ratoeira, e para o canário o alçapão, ali estava a situação que prometia levar ao livramento, da visita indesejada, os desacorçoados donos da casa.

Deixando a sós o visitante era só esperar que este, tomado pela tentação, surrupiasse sub-respticiamente a coisa, incorrendo com isso, numa situação vexatória.

E depois disso tudo consumado não era preciso, na presença do ingênuo, nem mesmo falar sobre o assunto. Ele já se tocaria, obtendo por si só, a certeza de que qualquer outro lugar seria menos desconfortável do que aquele.

Tupinambicas das Linhas era assim. O povo tinha certas características geralmente bem diferenciadoras das de outros lugares.

Numa certa ocasião um casal que acabara de se mudar, com seu Chevrolet Chevett branco, para uma casa seminova teve a experiência de receber constantemente a visita duma vizinha cujo objetivo principal era o de provocar o embate, e a discórdia, com outro antigo vizinho também morador no local.

A fuxiqueira tinha o nível cultural bem abaixo do fiantã da cobra, era analfabeta, psicologicamente retardada, mas sua maldade a destacava no seu grupo familiar, da mesma forma que a crueldade do bandido, o faz importante, necessário na quadrilha.

Então, depois de algumas semanas da acomodação na casa recém-alugada, durante várias noites, a fuxiqueira que, para firmar-se como líder orientadora das filhas, obtendo-lhes o respeito e a obediência, dizendo a elas “vocês querem ver como essa nova vizinha vai brigar com o velhote da casa da frente?”, apareceu na residência da recém-chegada, e com muita conversa propôs ficarem as duas deitadas, na garagem da casa, na posição do parto normal.

Vai vendo...

A duas doidas deitadas naquela posição, sob o som altíssimo da marchinha “Mamãe eu quero”, vibrante num gravador miseravelmente primitivo, levaram o maior susto quando o velhote, da casa frontal, apareceu-lhes repentinamente pedindo silencio por já serem duas horas da madrugada, daquela nascente segunda-feira, quando então teria de levantar-se pra pegar no batente.

A vizinha visitante, fuxiqueira, que tivera boa parte da sua vida vivida como recicladora de lixo, e também, logo depois, como putéfia, objetivando angariar respeito, importância e obediência da vizinha nova disse: “Ih, alá, o ‘véinho’ tá nervoso. Abra e feche a perna; tire sarro que ele vem...”

E não é que o vizinho foi mesmo? Mas, irado, gritou com as barangas provocadoras, pedindo mais respeito e silêncio na madrugada.

A fuxiqueira escolada na putaria pesada, gargalhando a mil disse pra vizinha nova assustada:

- Vai, taca o ferro, desanca o besta!

A vizinha nova, um tanto quanto que indignada, instigada pela simpatia da colega, avançou sobre o velhote. Com tapas procurava a restauração da dignidade supostamente denegrida pelo aquietador insone.

Evitando ser atingido o trabalhador perturbado afastava-se da agressora enquanto que esta, avançando cada vez mais queria esculachar o chato.

É meu amigo... Mas chegou o momento em que ambos se agarraram e, tapa daqui, bofetão de lá, puxão de cabelo da nuca, dedão no nariz, unhada na gengiva e muitas tentativas de joelhada no saco, terminaram com a presença doutras pessoas que apartaram os contendores.

Se a tal vizinha nova, enredada pela maldade da fuxiqueira, soubesse daqueles velhos truques de afastamento de visitante indesejado, certamente a situação não chegaria a tal ponto tão degradante.

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