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O Prato do Dia

O Prato do Dia

Março 30, 2020

Fernando Zocca

 

 

 

 

 

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Um lindo exemplar de peixe, aliás, uma formosa garoupa, movia-se lentamente beirando a margem esquerda do rio, naquele belo anoitecer de sexta-feira.

Ela vinha pensando na filha que, contrariando todos os seus ensinamentos, resolvera morar, sem as formalidades do noivado e casamento, com aquele cascudo irresponsável que vivia folgadamente com os beiços abertos, guelras ativas e as nadadeiras inquietas, dentro duma imensa caverna de rocha da cachoeira da cidade.

- Eu falei para aquela menina tomar cuidado com tal namorado. Primeiro porque ela era ainda muito nova pra manter um relacionamento afetivo e segundo que eu não estava com idade legal pra ser vovó - dizia em voz baixa, soltando bolhas de ar na água, a garoupa passeadora.

- Eu sabia que você estaria aqui nesta hora por isso não pude deixar de vir - falou o escorpião idoso quando ela, nadando suavemente, aproximou-se despercebida.

 - Ai que susto, escorpião! - respondeu a garoupinha - Não era para você estar na reunião a essa hora?

- Sim a essa hora era pra eu estar presidindo o encontro dos filantropos. Mas para mim, por enquanto, está muito difícil permanecer. Eles dizem, insistem, que foi por eu ter indicado você pra presidir o conselho particular do cardume, que as finanças do caixa arruinaram-se todas - afirmou com segurança o escorpião.

- Ah, vá! Imagina se 100 ou 200, iscas, depois das colheitas fartas, fariam falta pra aquele aquário enorme. Fiz até um bazar de roupas usadas pra promover a entidade.

- É, mas o pessoal desconfiou de você e como não podia deixar de ser, veio me cobrar.

- Ah, para com isso escorpião! Nao há provas que eu meti as nadadeiras naquelas iscas.

- Sim, mas o zunzunzum é forte.

- Escorpião pode parar. Se você continuar com esse assunto nado até a outra margem e te deixo sozinho.

- Esta bem. Vamos mudar de assunto. E o gato? Dizem que ele te come, é verdade?

- O gato vereador? Imagina só gente! O gato me comendo! Essa é boa.

- O comentário geral lá no aquário é de que você perdeu parte do seu rabo nos rolos com ele. É verdade?

- Claro que não - indignou-se a garoupa formosa - Por causa da minha posição de liderança - presidência do cardume no aquário - ele se aproximou de mim. Mas ele só me lambia. Comer, ele não comia não.

- Olha, peixe, estou disposto a esquecer todo aquele assunto das iscas desviadas. Posso até defender você nas reuniões. Se for legalzinha comigo, entende? Posso dizer que as iscas eram pros pobres e que você, também sendo pobre, não fez nada mais do que adiantar sua parte. Que tal?

- Escorpião, você só pode estar ficando louco. Sua cabeça deve estar cheia de fumaça de óleo diesel.

- Exatamente. Estou louco de amor por você, minha peixuda!

- Mas você é casado criatura venenosa! Onde já se viu isso?

- Minha mulher não quer saber mais de mim. Vem minha beiçudinha escamosa; vem que o papai quer te beijar.

- Mas você garante o suprimento de iscas e de tudo o que eu e minha peixota precisarmos?

- Naturalmente, minha garoupa querida. Vem com o vovô, vem!

Enquanto pensava "esse escorpião velho, pai de um monte de escorpiõezinhos, que parecia ter a respeitabilidade de um professor ou diretor de escola aquarial estadual, não passa de um cafajeste comum" - apareceu de repente ao lado de ambos, falando fino, igual a uma fêmea, um imenso tamanduá rabudo.

- O que é isso tamanduá? Como é que você chega assim, de repente?

- Desculpa gente. Eu não queria “cortar o barato” de vocês. Mas é que eu estou procurando formigas. Sou candidato a reeleição e vim pedir votos. Onde estão as formigas?

O escorpião e a garoupa entreolharam-se.

- Lá vem você de novo com essa história de eleição? Não tem vergonha na cara não, ô tamanduá? – indignou-se a garoupa.

Sem dar qualquer atenção ao pedinte costumeiro o casal iniciou movimento afastando-se.

- E se começarem a falar da gente? – perguntou a peixe sentindo esperança e medo.

- Ah, daí a gente publica um monte de fotos suas ao lado de um pescador qualquer pra baratinar. Morou?

Com a pinça e a nadadeira entrelaçadas a garoupa e o escorpião saíram em direção ao aconchego da toca, defronte ao velho rancho de pescarias.

 

Março 25, 2020

Fernando Zocca

 

 

Comunicar os fatos não quer dizer oposição. Se assim fosse, a omissão de, por exemplo, noticiar um assalto a banco, significaria a concordância com o crime.

Não denota oposição, repito, o noticiar os fatos; não significa perseguição, ataque, dizer, por exemplo, que os vereadores de Piracicaba, se estapearam, agrediram-se, de forma selvagem; se os atos aconteceram não haveria porque não comunicá-los a sociedade.

O condenável, sem dúvida nenhuma, é caluniar atribuindo crime, aos murmúrios, a quem não o cometeu, com a finalidade de obter ou manter posição social.

Dizer, por exemplo, que existem pessoas que ocupam cargos públicos eletivos transitórios, há uma vintena de anos, não quer dizer que não gostamos desse pobre individuo.

Deixar de falar sobre esse ou aquele tema não quer dizer que se compactua com ele. Gosta-se do sigilo, precisa-se dele, quando o que se faz é condenável tanto moral quanto legalmente.

Qual e o verdadeiro amigo do padrasto, que molesta a enteada? É aquele, certamente, que mantém silêncio sobre os fatos ou os desmente para os vizinhos.

A quem interessaria, por exemplo, caluniar uma criança, se não fossem os familiares envolvidos em alcoolismo, jogos proibidos, adultério, violência doméstica e estupro de vulnerável, pelo próprio pai?

Muita gente tem horror de quem noticia os acontecimentos porque as ocorrências com ela, - a horrorizada - se comunicadas, poderiam causar muitos dissabores.

Quando o cidadão conta, por exemplo, que um vizinho maluco o ameaçou de morte, ou publica a foto dum fugitivo de hospital psiquiátrico, agredindo outro a tijolada, é claro que essa participação não se daria por ódio, mas para informar a todos os demais moradores do bairro que eles também podem ser agredidos.

Geralmente quem faz coisa errada, condenável, procura levar outros a fazerem o mesmo, objetivando com isso o livramento, ou a amenização da culpa que sobre si incidiria.

Qual é o vereador, deputado estadual, federal ou senador praticante da “rachadinha” que se sente feliz com os noticiários da imprensa?

Nenhum é claro.

Entretanto é bem mais fácil empastelar jornais, oprimir, impedir a comunicação do que, por exemplo, propor, por meio de projeto de lei, a legalização da tal prática condenável da “rachadinha”.  

Março 20, 2020

Fernando Zocca

 

 

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As autoridades de quase todos os países do mundo, em decorrência da pandemia do covid-19, determinaram, sob aplicação das penas pecuniárias, que seus cidadãos mantivessem distância, uns dos outros, quando em lugares públicos, e se abstivessem das aglomerações.

Desta forma tudo o que podia ser feito por celular seria a melhor escolha do que pelo ajuntamento das pessoas.

Então em Tupinambicas das Linhas o vereador Ary Ranha Júnior, que se destacava por seus conhecimentos médicos, recordando-se de seu pai que sofrera com uma gripe fortíssima, mais por ter seu sistema imunológico enfraquecido, pelo uso excessivo do álcool, propôs, durante uma sessão noturna de quinta-feira, que as reuniões ordinárias da câmara municipal fossem realizadas por vídeo conferência e que as votações a serem feitas, poderiam acontecer também pelo telefone celular.

Era uma ideia inovadora que encontrou, porém, forte oposição do decano da casa, o vereador Zé Lagartto que cumpria o seu quinto mandado consecutivo.

- Vossa excelência não tem vergonha na cara – disse em altos brados Ary Ranha Júnior ao Zé Lagartto numa ocasião em que, por causa duma discussão fortíssima no plenário, todos os vereadores correram para uma sala contigua onde se estapearam, se agrediram com socos, pontapés, empurrões e chutes na canela.

- Quem não tem vergonha na cara é vossa excelência, médico vagabundo, pedófilo, que faz questão de receber comissão por cada cadáver encaminhado para as empresas funerárias – respondeu Zé Lagartto com o rosto completamente entumecido pela raiva.

Na ocasião em que esse “debate” ocorreu, a presença dos vereadores era plena. A “arquibancada” estava repleta de curiosos, cidadãos da cidade, que careciam de saber como se davam os “trabalhos” desses eleitos.

Ao contrário, do que geralmente acontece quando tais cenas eclodem, os circundantes buscaram açular ainda mais os ânimos dos pândegos.

- A cidade inteira sabe que seu pai, seu Ary Ranha Júnior, era um bêbado contumaz que não saia dos bares onde também funcionava o jogo do bicho – gritou a vereadora Magdalenna Ignácia que, com um lenço colorido na cabeça, e o agito frenético dos braços, procurava com essa manifestação, afastar as noções daqueles que afirmavam, pela cidade toda, que ela, não se dignaria a fazer um único mísero discurso durante todos os 48 meses do seu tempo de mandato.

- É isso mesmo. Faço minhas as palavras da nobre vereadora e digo mais: foi com o apoio dos banqueiros do bicho, da pingaiada frequentadora dos bares, mais as difamações, calúnias, desmerecimentos e injustiças, verdadeiros preconceitos e rejeição contra alguns pobres da cidade, que vossa excelência foi guindado a esse posto que, já vou dizendo, não é vitalício – gritou o vereador Fuinho Bigodudo depois de ligar o microfone da sua mesa.

Ary Ranha Júnior assustou-se com tamanha manifestação contra si; atordoado ele buscava palavras que o defendessem.

- Eu só estou fazendo uma proposta – disse, com voz de quem estava constrito, o vereador Ary Ranha Júnior.

- Quem foi que falou pra sua pessoa, pro seu pai, aquele cafajeste, que usava os programas de rádio, pra se reeleger múltiplas vezes, e também eleger o senhor, que o moleque mijou na latinha do indigente? Quem foi, seu cabeçudo, que contou essa mentira em que vossa excelência e seu pai, se fundaram pra fazer as campanhas eleitorais? – voltou a carga o combativo Zé Lagartto.

- É isso mesmo! Quem foi que falou pra vocês seus otários que aquele molequinho pobre mostrou o birigulim pra mocinha? Com certeza foram os envolvidos no escândalo de adultério, violência doméstica e estupro da própria filha pelo pai. Sim não haveria melhor “cortina de fumaça”, pra abafar esse escândalo tupinambiquence, do que a ideia de que aquele moleque era molestador. Vossa excelência sim é um pedófilo, seu vereador de meia tijela! – bradou Magdalenna Ignácia, agora firme e forte, de pé, atrás de sua bancada.  

Tendo o tumulto se alastrado para além dos limites do plenário e quando já se ouviam discussões, buzinaços, batidas de carro, gritarias e xingamentos na rua, defronte ao prédio da câmara, resolveu por bem, a excelentíssima senhora presidente da câmara municipal, a preclara professora Pregnancy Tramme encerrar a sessão.

- Dou por encerrada essa sessão. Solicito aos senhores aqui presentes que se dispersem sob pena do uso da força policial.

Todos foram saindo. Nem mesmo aquelas costumeiras “rodinhas” que se formavam nos finais das sessões foram toleradas.

Encolhido numa saleta onde havia um bebedouro, garrafas térmicas de café, e chá; sucos e biscoitos, Ary Ranha Júnior, sorvendo um copo de água gelada, ao ver um cidadão que entrava, apontou ostensivamente, com o queixo, a jarra de suco de laranja, postada sobre a mesa ornada com uma toalha branca e disse:

- Beba!

Quando a pessoa, não lhe dando a menor atenção, passou por ele, indo em direção à porta, Ary Ranha Júnior pensando no Zé Lagartto disse entredentes, com muito ódio:

- Ainda mando aquele filho da puta pra ortopedia.

Março 19, 2020

Fernando Zocca

 

 

Naqueles dias Tupinambicas das Linhas estava mais parada do que avião de museu.

No bar do Bafão o nível dos estoques de aguardente e cerveja impedia que novas remessas das distribuidoras fossem, por absoluta falta de espaço no botequim, sequer descarregadas dos veículos das empresas.

Caminhões enormes paravam, de vez em quando, defronte ao bar e, da boleia, quando os motoristas, viam de longe, o sinal de negativo feito pelo dono do estabelecimento, seguiam em frente sem deixar mercadoria nenhuma.

Mas para Delsinho não havia crise:

- Ai credo, agora foram inventar esse tal de corona que não sei não... Parece-me mais outro engodo - murmurava ele naquele início de segunda-feira quando, girando o molho de chaves, atado num cordão longo, caminhava em direção ao botequim do Bafão.

Na manhã clara, fresquinha, a luminosidade do final do verão exuberava. Arrastando os chinelos que mais lembravam tamancos de plástico usados por alguns velhinhos do antigo asilo para idosos, há muito instalado no bairro, Delsinho entrou no boteco e, com espalhafato foi dizendo:

- Ai que horror seu Bafo! Onde estão as pessoas? A cidade esta deserta!

- Não brinca não seu pequeno Delso. É a crise provocada por esse tal de corona vírus: o covid-19. A praga pegou no mundo todo!

- Ai que chato seu Bafão! Como apareceu isso tudo?  

- Dizem que foi por causa dos croquetes ou patês feitos com asas e coxas de morcego - respondeu Bafão - pelo menos foi o que li no Diário de Tupinambicas das Linhas. Sabe aquele jornal do Zé Ciliodemorais?

-Sei. Mas pra mim contaram história diferente: disseram que é bactéria de Poodle. Sabe aquele cachorrinho fedorento?

- Não pode ser. Se fosse, a doença teria aparecido bem antes. Veja que na China, onde surgiu esse mal, a população come cães; faz churrasco com eles, não é de hoje. Não seria qualquer linguiça ou salsicha de Poodle anão perebento que causaria tanta confusão universal.

Enquanto prosseguia o papo, Delsinho tirou do bolso uma listinha do que compraria. Quando começou a fazer seu pedido ouviu de quem entrava no botequim:

- Ai, mas eu não acredito no que estou vendo! Cruzes!

Delsinho parou estagnado. Não ousava olhar pro lado pra saber quem era o tal esgoelante. Poderia ser qualquer um daqueles vizinhos invejosos que não gostavam do seu rebolado.

A pessoa aproximou-se, tocou no ombro do assustadiço e virando-o delicadamente exclamou numa explosão de alegria!

- Sou eu bicha!

Delsinho ergueu lentamente os olhos e quando viu aquela pessoa há muito tempo conhecida, acostumadíssima a manusear papéis, visivelmente encacarecada, com a tez amarela, bem diferente do que fora há 30 anos, exclamou molemente:

- Rosano! Há quanto tempo! Minha nossa! Quem é vivo sempre aparece!

Sob a atenção extremada do Bafão as duas pessoas trocaram abraços beijos e não paravam de contar, uma à outra, as novidades:

- Eu agora tenho um programa de rádio, querida! - informou Rosano forçando um sorriso amarelo.  

- Que chique neném! - admirou-se Delsinho enquanto pensava “como embarangou, meu Deus!” - Me conta como foi isso?

Rosano então começou a falar:

- Você sabe... Nesse ano teremos eleições. Eu e um pessoal da irmandade fizemos uma vaquinha, alias, aquilo estava mais para boiada do que pra vaquinha... Então conseguimos comprar um horário bom na rádio. Na verdade a empresa era uma rádio pirata que conseguiram transformar em rádio via Internet. Estamos aí, minha querida, numa boa.

- Ai que luxo, Rosano. E o salão? Aquele salão de cabeleireiro que você tinha? Como é que se chamava mesmo? Perucão? Cabelão? Não me lembro bem.

- Que memória fraca, Delsinho! - ralhou Rosano enquanto ajeitava um maço de folhas de papel sulfite batendo-o no balcão.  

- Eu me recordo que a ultima vez que te vi, você estava na porta do seu estabelecimento; se não me engano você fechava a porta... Eu passava de ônibus pela rua e vi. Você vestia um roupão branco, aveludado. Eu pensei comigo mesmo "ai que chique o Rosano, o hiper, bom, excelente funcionário...”

- Virgem! Faz tempo isso Delsinho! - admirou-se Rosano.

- Mas e aquelas aulas que você dava naquele sobradão velho da Rua Morais? Aquilo era filosofia ou o quê?

-Ih, Delsinho, nem me fale disso. Estou em outra meu filho. Agora minha comunicação acontece pelas ondas do rádio. Vou muito mais longe. Não falo só para uma ou duas dezenas de pessoas. O mundo me ouve, entende?  

- Do jeitão que caminha a humanidade não demora muito pra nascer gente na lua - afirmou Delsinho, mudando de assunto.  

- Mas não e mesmo? Já existem casais de astronautas que passam meses e meses naquelas estações espaciais que orbitam a lua. Quando acontecer não será novidade nenhuma - concordou Rosano.  

- Imagine só o que responderão as crianças do futuro quando lhes perguntarem onde nasceram - ponderou Delsinho Espiroqueta – Mas, mudando de assunto, cá entre nós, e os logros, os enganos que você costumava praticar contra os ingênuos? Continua firme, na lide? Eu me recordo que você gostava de cobrar contas que já estavam pagas. Não é mesmo?

 - O que vai querer a rica freguesia? - indagou Bafão ansioso de ver a mercadoria desencalhando.

- Um momentinho só, seu ilustre Bafo - interrompeu Rosano puxando Delsinho para a entrada do bar onde, fazendo conchinha com mão direta, cobrindo com ela a boca, perguntou em tom de cochicho:

- Mas, me diga aí Delsinho: e aquela gente brega, caipiras endinheirados, que pensam ter o rei na barriga? Como está aquela situação?

- Olha Rosano, a pergunta é: o que a gente pode esperar desses cretinos que pensam ter dinheiro, além das fofocas, intrigas, difamação e preconceito que fazem contra os pobres?

- É... Bem que me disseram, mas relutei em acreditar. Não imaginava que Lurdona Ton Inn, Hein Hiquedemorais, Célio Justinho e Luiza Fernanda, a bacana, pudessem maltratar tanto a comunidade pobre do bairro.

Enquanto conversavam foram saindo do botequim. Caminharam até o carro de Rosano onde embarcaram.  

No boteco, sozinho, Bafão não pode afastar a ideia de vender o seu estabelecimento comercial e abrir um escritório de contabilidade.

Março 15, 2020

Fernando Zocca

 

 

 

 

marielle franco.jpg

 

- Seu Fernando! Sua pressão está muito alta! - gritou com voz esganiçada a enfermeira ao lado da minha cama.


Com um susto intenso despertei do cochilo quando então vi que ela portava uma seringa imensa com uma agulha finíssima e longa, prestes a enterrá-la no meu bracinho esquerdo.


Seu olhar era de quem estava alegre, pimpona,  dando-me a impressão que se sentiria muito  melhor com as minhas inevitáveis manifestações de dor.


- É claro que está alta. Com esses ferros todos fincados na perna seria esquisitíssimo se a pressão
estivesse normal - respondí-lhe mal humorado.


- Essa medicação é pra dor - explicou ela brandindo a seringa diante dos meus olhos.


Depois de injetar com força  e muita rapidez o líquido na veia do braço esquerdo, por onde havia, há dias,  um cateter permanentemente fixado com esparadrapo,  ela, quase que gritando,  com aquela voz agudíssima ordenou:


- Abra a boca! Põe a língua pra fora!


Obedientemente fiz o que me mandara quando então ela pôs um comprimidinho cor de rosa na língua ordenando-me em seguida:


- Não mastiga, nem engole. Deixa dissolver debaixo da língua.


O ferimento doía-me 24 horas por dia. Não houve um momento sequer, durante os 10 dias de internação, em que deixei de sentir as dores do machucado.


Passados mais de 7 meses após a colisão, caminhadas vagarosas, em dias alternados, no Parque do Piracicamirim e no do Santa Cecília, substituem, para o gáudio da patuléia odienta, as 10 voltas diárias que eu fazia em trote brando, tanto num quando noutro parque.


- Não foi acidente! - afiançou-me um amigo.


- Você acha que foi de propósito? - perguntei sentindo a dúvida.


- E claro! Você esta cercado de idiotas favoráveis a politica corrupta do executivo e tem a coragem de não desmerecer a probidade, a honradez? Ora faça-me o favor! Você teve sorte de não ter levado uma rajada como a Marielle. Lembra da Marielle Franco? Então... Fica quieto! Os retardados não sabem, não conseguem fazer o que você faz, por isso, para eles, é impossível responder no mesmo nível, nos mesmos termos; então eles usam a agressividade, a violência do irracional, dos insanos criminosos que sempre foram.


Depois desta arenga prometi que ficaria quieto pensando em deixar para o ministério público e ao judiciário as investigações, julgamentos e as justas condenações tanto do delinquente atropelador quanto dos lesadores das finanças publicas. Isto é se não forem eles - os representantes dessas instituições - permeáveis ao aporte das altas, frequentes e gordas somas dos corruptores.

 

 

Março 12, 2020

Fernando Zocca

 

 

Lima Barreto em 1909 quando da publicação do Rec

 

Só quem leu o que escreveu Lima Barreto (foto) pode ter uma ideia do que foi – em termos de rejeição, preconceito de cor e de classe social - a sociedade ali no Rio de Janeiro, no final do século XIX e início do XX.

Nascido no dia 13 de maio de 1881, portanto 7 anos antes da publicação da Lei Áurea, Afonso Henrique Lima Barreto era filho de uma negra e de um português que exercia o cargo de almoxarife no Hospício de Pedro II.

Conseguiu a alfabetização, e aos 16/17 anos, ingressou na Escola Politécnica onde pretendia formar-se engenheiro.

Enfrentando o preconceito abertamente hostil, por causa da cor e pobreza, buscou nos seus escritos aquela espécie de catarse que o notabilizaria com seus contos, crônicas e 17 livros.

Abandonando a Escola Politécnica passou a escrever freneticamente para Revistas e Jornais daquele tempo. A ocupação do cargo burocrático na secretaria do Ministério da Guerra, do governo de Floriano Peixoto, foi certamente facilitadora das manifestações literárias.

Publicou, desta forma, Recordações do Escrivão Isaias Caminha, em 1909 e Triste Fim de Policarpo Quaresma em 1915.

Frequentador da vida boêmia carioca foi acometido pelo alcoolismo e tabagismo que o levaram em 18 de abril de 1914 à primeira internação no Hospício de Pedro II na ilha do Governador.

De volta a sociedade continuou a escrever constantemente nos jornais e a publicar seus romances.

Acometido novamente por sérios distúrbios mentais em decorrência da imoderação do álcool e tabaco, foi na noite do dia 25 de dezembro de 1919, conduzido pela polícia ao Hospício.

Lima Barreto amava o Rio de Janeiro e os seus deslocamentos, a pé e por bondes, pela cidade inspiraram-lhe inúmeras crônicas e contos hoje todos reunidos em livros que podem ser encontrados na Biblioteca Pública de Piracicaba.

O escritor, solteiro, sem qualquer formação universitária, faleceu no Rio de Janeiro, no dia 1 de novembro de 1922, aos 41 anos de idade.

 

 

Março 03, 2020

Fernando Zocca

 

 

glucose de milho.jpg

 

Um grupo de adolescentes, por volta do meado de 1968, na calçada, defronte a sua casa, fazia o que absolutamente a maioria das pessoas daquela idade, naquele tempo, em tal local, do nosso querido mundo fazia: absolutamente nada.

Num certo momento, daquela manhã ensolarada, um caminhão-tanque vermelho, imenso, ruidoso, foi-se aproximando vagarosa e pesadamente do grupo; expelia ar comprimido, muita fumaça diesel, até quando parou defronte a morada dos meninos.

O motorista desceu da boléia, bateu estrondosamente a porta; atravessando a rua, entrou no escritório da marcenaria que havia ali na esquina.  

Os moleques se aproximaram mais do caminhão vermelho e viram que dum cano, com uma espécie de torneira que saia do tanque, vazava um tipo de melado.

Logo abelhas começaram a voejar acima das gotículas do fluído pegajoso que já formava uma poça perto da sarjeta.

Um dos meninos, Bruno Lima, pôs o dedo na coisa fluente amarelada, cheirou-a e mandou-a, em seguida, pra boca.

- Hum... É Karo, gente! – disse ele provocando agitação nos demais que se aproximaram.

Os outros também seguiram o exemplo; raspando a boca da torneira com os dedos degustaram o tal liquido viscoso.

Depois de algum tempo outro moleque folgazão (Marcão da gasolina, filho de um dos sócios da marcenaria) morador nas proximidades, comendo pão, se achegou ao grupo.

Mostrando ostensiva e desafiadoramente à turma o que faria, untou um pedaço do pão, com a graxa manteiga contida no molejo da roda traseira do caminhão, comendo-o em seguida; sua satisfação ficou patente ao ver as reações de nojo que provocou na negadinha.

Durante o burburinho de estranheza, que a ação daquele moleque causou, o motorista aproximou-se dos meninos.

- Isso é glicose de milho. Vou levar pra fábrica de balas da rua de cima. Sabe aquela fábrica que fica perto da Igreja Metodista? Então... – disse o motorista respondendo a pergunta de um dos garotos sobre a coisa que vazava daquele tubo.

Naquela tarde um garoto, o Tone Pintowski, filho da professora primária, que morara na vizinhança, vindo até a casa dos meninos convidou:

- Vamos pro rancho do meu pai, amanhã de manhã? A gente vai de carro; mais outra pessoa, o Varlex, vem com a gente. Conhece o Varlex?

Na tarde do dia seguinte Tone Pintowski e Varlex chegaram com o fusca vermelho, modelo 1969, zero bala, defronte a casa de Bruno Lima.

- Bora lá fazer fuá no rancho? – gritava Tone na calçada, depois de bater na porta do Bruno.

- O que hein Tone? De carro novo! Seu pai só andava de lambreta... – comentou Bruno ao ver o fusca parado defronte sua casa.

- É zero quilometro. Meu pai tirou da agência na semana passada. Foi o maior sufoco conseguir a liberação pra ir pro rancho.

Já dentro do carro o trio seguia rapidamente pela estrada de terra que margeava o rio.

- O que a gente vai fazer lá? – perguntou Bruno que, sentado no banco de trás incomodava-se com Varlex; o tal não parava de mexer no rádio do carro, trocando sucessivamente de estações.

- Deixa aí, pô! Que absurdo! – ordenou Bruno ao Varlex quando soava Coruja da dupla Deny e Dino.   

- A gente vai buscar o Ray Ban do Deny. Já ouviu falar na dupla Deny e Dino? Absurdo é cobrar $10.000 por uma única aula de filosofia – respondeu Varlex, já naquela altura com os olhos vermelhos, consequência da fumaça dos seus costumeiros baseados.

É claro que não havia óculos Ray Ban nenhum. O giro aconteceu só por zoação, matar o tempo. Pra quem não tinha o que fazer não haveria quase nada melhor do que um passeio num carro com o desempenho e os odores de novo.

- Ih, olha lá. A esquadrilha da fumaça reapareceu – comentou Tone ao ver Varlex, sentado na margem do rio, ao anoitecer, pitando mais um dos seus cigarrinhos.

- É melhor a gente voltar pra casa – falou Bruno – a gente não tem comida aqui. Está na hora da janta e tá batendo a fome.

Antes da partida emergiu uma baita discussão sobre quem iria no banco da frente e quem ficaria no de trás.

- Para com essa conversa! Vai todo mundo na frente – decidiu Tone ao acender um cigarro.

- O quê? Ocê tá louco? Vou sentado no breque de mão, cara? Pirou mano? – indignou-se Varlex.

- Não esquenta. Eu abaixo a alavanca – concluiu Tone.

O sol já havia sumido no horizonte, a noite chegava fria. Na estrada ninguém mais tinha assunto.

Na entrada da Vila Rezende Tone falou:

- Pegue a direção Varlex. Vou acender o cigarro.

Sentado entre o motorista e o passageiro, sobre a alavanca do freio de mão, Varlex esticou os braços segurando a direção do fusca. Tone buscou o maço de cigarros, o isqueiro e, quando ia acendê-lo gritou:

- Vira essa porra. Olha a curva pra direita, seu burro!

- Desacelera caralho! – respondeu Varlex, com os olhos esbugalhados.

Espremido entre Varlex e a porta do carona, Bruno viu que o carro subiria na calçada do lado esquerdo da rua, por erro na direção. Nesse momento Tone soltando o isqueiro, mordendo o cigarro, pegando o volante, puxando-o com força pra direita tentou corrigir a rota.

Como não podia deixar de acontecer o fusquinha derrapou sobre as rodas esquerdas, as duas direitas ergueram-se do solo; com um movimento brusco Tone quis endireitar o carro virando o volante, com muita força, para a esquerda; não deu; foi demais; tombou sobre a lateral direita ralando-a toda, só parando ao aproximar-se da calçada.

- Sai de cima de mim, caramba! – gritava Bruno.

Tone abriu a porta do lado do motorista saindo do carro. Logo depois saíram os outros dois. Antes que começasse a chegar pessoas o trio destombou o fusca.

- Carro novo, meu! – dizia Tone – Nossa! Não quero nem ver o que meu pai vai fazer.

- Fazer o quê com essas cabeças de inseto, bestas vagabundas que não têm o que fazer além de perturbar e dar prejuízo pra gente? – comentou Ben Inhoswski ao ver o fusca vermelho danificado parado defronte sua morada.         

 

    

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