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O Prato do Dia

O Prato do Dia

Abril 26, 2020

Fernando Zocca

 

 

 

 

 

Vita Sackville-West e Virgínia Woolf.jpg

 

Há no Facebook uma página que se chama Só Fotos de Piracicaba. O objetivo do empreendimento é publicar matérias, especialmente fotografias da cidade.

Fotos antigas do comércio, da indústria, da prestação de serviços e da construção civil, diariamente são publicadas pelos inscritos no grupo.

Resgatar, relembrar, reviver, os fatos passados da cidade é um jeito de manter fresca na memória, com a intenção de mostrar aos pósteros, como eram os tempos passados.

Dessa forma não podemos deixar de mencionar uma grande marcenaria existente na esquina das Ruas Benjamim Constant com a Ipiranga. Era a Oficina São José onde se faziam barcos de madeira usados especialmente nos rios Piracicaba e outros mais.

Quando se fala em barco fala-se também em água, em rio, mar; eu particularmente quando o assunto gira em torno desse tema lembro-me da escritora Inglesa Virginia Wolf.

Mas o que tem a ver a autora de livros inglesa, falecida aos 59 anos, com os barcos, a marcenaria e os rios?

Adeline Virgínia Stephen nasceu em Kensington Middlesex, Inglaterra, no dia 25 de janeiro de 1882; era filha do historiador, ensaísta Leslie Stephen (1832-1904) e da sua segunda esposa Julia Princeps Jackson (1846-1895).

Ela teve três irmãos: Vanessa Stephen (1879-1961), Thoby Stephen (1880-1906) e Adrian Stephen (1883-1948).

Laura Makepeace Stephen (1870-1945) era meia irmã de Virgínia, nascida do primeiro casamento de seu pai com Harriet Marion Thackeray (1840-1875).

Do primeiro casamento da sua mãe com Herbert Duckworth, os meio-irmãos de Virgínia eram George Duckworth (1868-1934), Stella Duckworth (1869-1897) e Gerald Duckworth (1870 -1937).

Em 1912 Adeline Virginia Stephen casou-se com Leonard Sidney Woolf (1880-1969); ela então passou a chamar-se Adeline Virginia Woolf. Juntos fundaram, em 1917, uma editora que se chamava Hogarth Press que viria a publicar seus livros.

Virgínia Woolf escreveu os romances The Voyage Out (1915), Night and Day (1919), O Quarto de Jacob (1922), Mrs. Dalloway (1925), To the Lighthouse (1927), Orlando: Uma Biografia (1928), As Ondas (1931), Os Anos (1937), Entre os Atos (1941).

Virgínia escreveu também contos, biografias, ensaios, teatro, diários, cartas e prefácios.

Dentre seus romances destaca-se “Orlando: uma biografia”, cuja trama baseou-se na vida da paisagista, poetisa e escritora inglesa Victória Mary Sackville-West, também conhecida como Vita Sackville-West, com quem Virgínia manteve, por muito tempo, um romance extraconjugal lésbico.

Victória Mary Sackville-West ou Vita Sackville-West poetisa,  romancista e paisagista inglesa, nasceu na Knole House em nove de Março de 1892, tendo falecido no Jardim do Castelo de Sissinghurst em 2 de Junho de 1962.

Vita Sackville-West foi casada (de 1913 a 1962) com o gay Harold George Nicolson, diplomata, jornalista, deputado, autor de romances e biografias.

Agora você, meu amigo, minha amiga e senhoras donas de casa, leitores fiéis que conseguiram chegar até o final deste texto, poderiam me reperguntar: Mas o que tem a ver a autora inglesa de livros com os barcos, a marcenaria, os rios e a água?

É que Virgínia Woolf deprimida também pela destruição da sua casa por um bombardeio nazista, tristeza causada pela critica negativa da biografia, escrita por ela, do seu amigo Roger Fry (1866-1934), no dia 28 de março de 1941, caminhando pelas ruas, enchendo com pedras os bolsos do seu casaco lançou-se nas águas do rio Ouse onde morreu.

Abril 23, 2020

Fernando Zocca

 

 

roseira.jpg

 

Apesar de todas as limitações, como esse tal de isolamento social, também pelas dores na perna, recém-recuperada de uma fratura (causada pela imperícia no trânsito), e pelo ganho de peso corporal, devido ao sedentarismo forçado, hoje fui caminhar na pista do Parque do bairro Santa Cecília.

Quem pensou que àquela hora da tarde, (ali pelas 15h00), o parque estaria deserto enganou-se.

Havia papai com seus filhinhos, marmanjos caminhantes esbaforidos (pareciam estudantes universitários), discutindo sobre aluguel de imóvel, onde pretendiam fazer uma república de estudantes, moça bonita com seu cão trazido pela coleira, vovozinhos sentados à porta da residência construída defronte ao parque, e muito movimento de veículos nas ruas do entorno.

- Luis! ... !, 2, 3 ...- exclamava em tom de ameaça, o papai barbudo, com os olhos ocultos pelo óculos de sol espessos e um boné surrado, fincado na cabeleira, em resposta à desobediência do filho que teimava em não lhe acompanhar.

Geralmente a visão de palmeirense e corinthiano juntos causaria estranheza. Mas naquele momento, ali no parque, sob o pandemônio da pandemia, coisa mais natural foi ver os dois jovens paramentados, cada um com a camisa do seu time, correndo lado a lado, envoltos nas vibrações da maior resenha.

Andando bem devagar logo percebi aqueles caminhantes, (que discutiam, sobre aluguel do imóvel, onde fariam uma república) que passaram diante de mim, quando cheguei à pista, se aproximavam no maior trólóló; tinham completado os 640 metros, e agora me ultrapassariam por andarem mais rápido.  

- Esse ministro da saúde, esse tal de Nelson não sei de quê, parece muito tímido. O cara é acanhado, enrustidão, para desempenhar a função que lhe foi atribuída – falava um dos estudantes enquanto aumentava o ritmo das passadas para a ultrapassagem.

- Ouvi na rádio, hoje de madrugada, que o cara, por ser muito envergonhado, temeroso, quase esquizofrênico, mudo igual a uma roseira, não conversava com ninguém da sua vizinhança e que numa comemoração de fim de ano recusou-se a cumprimentar uma pessoa que ele, bobamente, achava ser mais importante do que ele. Não sei se é verdade – respondia outro.

- Babaca! Não fala com a imprensa...

- Luis! 1, 2, 3... – exclamava o papai nervoso com a vacilação do filhote que, munido dum skate, nem tchum lhe dava.

- Essa forma de falar ao filho deve ter sido desenvolvida por contabilistas que, exigindo obediência, aproveitavam também a ocasião para ensinar a ordem crescente dos números cardinais – disse eu em voz baixa - Essa pedagogia de hoje diverge muito da de outrora. Se o professor contraria os alunos estes sentam-lhe o cacete impiedosamente.

Bom, diante das 10 voltas que eu, diariamente cumpria neste parque, e na vigência das circunstâncias atuais, penso que as míseras cinco voltinhas dadas por mim hoje, apesar da claudicação, não foram tão vexatórias.     

 

Abril 18, 2020

Fernando Zocca

 

- Esse tal de covid-19 não passa de terrorismo médico com objetivos ideológicos - disse-me um integrante de fila da casa lotérica ontem (17/04) quando fui pagar algumas contas.

A OMS (Organização Mundial da Saúde) já perdeu as contribuições que recebia do governo norte-americano exatamente por embasar comportamentos deletérios ao capitalismo, reforçando, desta maneira, a pretensa positividade do sistema ditatorial comunista.

Nas repúblicas federativas de regime capitalista, cada estado componente da união tem seu próprio governo que, em dissonância com o central, demonstraria inoperância, ineficiência e inferioridade organizacional capitalista ante as formas produtivas empregadas pelos países comunistas.

Quando o sistema capitalista para completamente, com os argumentos médicos/científicos vindos dos adversários políticos não se pode deixar de supor que a democracia capitalista seja bastante vulnerável.

Na verdade, o que muitos veem é uma disputa ideológica na qual, ao invés de mísseis nucleares, utiliza-se, no momento, terrorismo viral.

Sem contatos pessoais tipo olho no olho, fica difícil todo universo capitalista: a indústria, o comercio, a prestação de serviços, a construção civil e também a imensa produção cultural.

Os republicanos representados nos Estados Unidos por Donald Trump, e no Brasil, por Jair Bolsonaro, contradizem as diretrizes da OMS orientando seus cidadãos a voltarem ao trabalho, não interrompendo, desta forma, a livre circulação de pessoas e mercadorias.

Com medo da morte causada pelo vírus ou pela fome, a gente reza, as pessoas religiosas do mundo todo rezam, para que essa loucura, esse desassossego, esse pandemônio, essa insanidade passem logo e todos possam voltar à vida normal.

Abril 12, 2020

Fernando Zocca

 

 

Angelino Ambrulhano e seu irmão Joseph Embrulhanus Ambrulhano, numa tarde de sexta-feira, resolveram ir pro rancho de pescarias que mantinham numa cidade distante de Tupinambicas das Linhas.

Os dois brothers, utilizando uma velha caminhonete Chevrolet D20 branca em péssimo estado de conservação, depois de abastecerem-na com sacolas e mais sacolas contendo macarrão, sacos de 5kg de arroz, pacotes e mais pacotes de feijão, enlatados de salsichas, sardinhas, atum, pacotes de café em pó, duas ou três dezenas de litros de leite, 5 kg de açúcar, um fardo de cerveja em lata, duas garrafas de pinga, 6 kg de frango congelado, cinco peças de queijo minas, pacotes e mais pacotes de biscoitos, leite em pó, fubá e uma infinidade de sabonetes, pastas de dente, desodorantes, sabão em pó, e detergentes iniciaram a viagem.

Durante a saída de Tupinambicas das Linhas Joseph Embrulhanus Ambrulhano ligou o rádio da caminhonete.

- Quem é essa mocinha que fala agora no rádio? - quis saber Angelino.

- Eu sei lá. A voz dela é muito fraca. Pra ter conseguido chegar a esse lugar ou foi por conchavo com o dono da rádio ou por favores que só Deus sabe. Voz de locutor ou locutora ela não tem mesmo – respondeu Joseph.   

- Me falaram que é filha do ex-deputado Jaibos Talcott, que também é dono do asilo pros velhos da cidade. Conhece? – continuou Angelino.

- Já ouvi falar. Segundo consta durante o mandato dele como deputado estadual construíram uma barragem à montante do rio Tupinambicas das Linhas. No tempo de estiagem o pessoal lá de cima fecha o curso das águas dos afluentes do nosso rio e o resultado é uma seca geral aqui na cidade. Tem gente que chega a atravessar o nosso rio a pé seco. O presente que ele ganhou pra ajudar a aprovar o projeto de lei que autorizava a construção da barragem foi a concessão da rádio que ele batizou de Adestradora.

Sacolejando muito o caminhãozinho seguia em direção da estrada que os levaria a tal cidade onde, na margem esquerda do rio Sorocaba havia um rancho de pescarias frequentado pelos irmãos e seus amigos.

- Aqui quem vos fala é Laddy Talcott, no seu programa 100 Lengalenga, da nossa rádio Adestradora. Não se esqueça: Laddy com dois dês e Talcott com dois tês.

- Que voz irritante – disse Joseph Embrulhanus ao engatar uma quarta marcha no caminhãozinho queimador de óleo diesel -  Desliga essa porcaria!

No silencio os dois seguiram viagem até a estrada que os levaria ao rancho. Depois de duas horas trafegando pela estrada de terra – sem asfalto - pararam defronte a porteira; buzinando, chamaram a atenção de Salvadir Vandich um velho pedreiro aposentado que, por não ter o que fazer, vivia pelos bares do bairro onde morava. Com pena do velho gagá os dois irmãos convidaram-no a morar no rancho. Em troca ele devia fazer pequenos reparos no casebre e capinar o terreno quando a erva daninha crescesse.

Vandich não estava bem com as suas faculdades mentais. A demência da velhice agarrara-o obrigando-o a fazer coisas malucas como, por exemplo, subir nas árvores plantadas nas margens do rio, de onde, imitando macacos, buscava provar pra si mesmo que ainda estava em boa forma, pulando de galho em galho.

- Vai que ocê leva um tombo e aí eu quero ver – avisou um dia Gelino Ambrulhanus.

- Ah, não dá em nada – respondeu, naquela ocasião, o quase octogenário pedreiro de mãos calejadas.

Capengando Salvadir Vandich aproximou-se da caminhonete parada diante da porteira; Iluminado pelos faróis ele a abriu para a dupla que entrou ruidosamente envolta numa nuvem de fumaça de óleo diesel queimado.

Gelino e Joseph, sob os olhares curiosos de Salvadir começaram a descarregar a mercadoria que trouxeram.

Logo que todo o material foi guardado nos armários e na geladeira, Joseph abriu uma garrafa de pinga pondo-a no centro da mesa. Em seguida foi até um cômodo vizinho onde ligou a bomba que tiraria água do poço completando a caixa de água postada no forro da casa.

Ao anoitecer, macarronada com sardinha, frango frito e cerveja serviram de jantar.

Como até aqueles dias não havia ainda TV e nem o recurso dos celulares, os três foram logo para o quarto. Uma cama beliche e outra de solteiro compunham o mobiliário do aposento.

Na escuridão do quarto, sem sono o professor Joseph Ambrulhanus, também formado em economia, pela faculdade local, começou uma conversa:

- Conta aquela história, ô Salvadir, do molequinho que mijou na latinha de comida do indigente.

- Ih, rapaz, aquilo aconteceu faz muito tempo. Eu ainda era solteiro. Foi assim:

- Escuta essa Gelino. Veja que história interessante – cortou Joseph.

- Bom, naquele tempo, Tupinambicas das Linhas nem rodoviária tinha. Eu namorava...

- Naquele tempo o prefeito foi reeleito cinco vezes – interrompeu novamente Joseph.

- É. Sim. Mas deixa eu falar, caramba! – Salvadir já dava sinais de irritação – num dia fiquei sabendo que um indigente tinha feito uma cabana de papelão, e material de lixo reciclável…

- Era só mato naquele trecho da cidade. Mesmo assim apesar da miséria da população os vereadores e o prefeito só trafegavam com carros importados dos Estados Unidos - cortou novamente Joseph a fala do pedreiro.

- Mai, ocê num vai deixá eu falá caramba? – protestou Salvadir Vandich.

- É que tem pernilongo aqui no quarto. Ô Gelino levanta e acende a luz pra gente. Faz o favor – ordenou o professor, diretor de escola e economista Joseph Embrulhanus.

Com a luz acesa, Salvadir Vandich pigarreou e reiniciou a narrativa:

- O camaradinha veio caminhando pelo descampado do terreno e quando viu aquela espécie de barraca, barraco, ou sei lá o quê, donde saía uma fumacinha, aproximou-se entrou e viu que tinha uma lata de leite Ninho cheia de comida. Era uma espécie de sopa aquecida pelas chamas da lenha daquele fogão feito com tijolos soltos e empilhados no chão.

- Ocê num falô, ô Salvadir, do riacho Itapeval que passava defronte ao terreno – atalhou novamente o professor Joseph.

- Oia, se ocê cortá eu novamente eu num falo mais nada. Vou dormi lá fora – protestou o pedreiro quase octogenário.

Da escuridão da noite sons de grilos, sapos e pássaros noturnos compunham melodia inusitada tendo como fundo o ruído das águas do rio.

- Então quando o molequinho terminava de urinar o indigente chegou manquitolando; tinha os olhos arregaladíssimos; vendo a cena, brandiu a bengala, ameaçou, amaldiçoou e, avançando sobre o intruso quis agarrá-lo. O garoto conseguiu se esquivar e saiu correndo pelo descampado, atravessou aos pulos, o riacho Itapeval indo esconder-se na sua casa que ficava distante uma centena de metros.

“O indigente que estava naquele lugar por ter brigado com a mulher, quando voltou pra casa contou o acontecido para os filhos. Um deles era estudante de engenharia e frequentava um centro espírita do bairro central.

“O filho do ‘ligeira’ chocado com o que o pai lhe contara levou o acontecido a uma reunião da irmandade no centro.

“Então, segundo consta, uma entidade vingadora, obsessora, baixando num médium antigo decretou a sorte do moleque: ‘ele vai ser o que o velhote foi: indigente. O que esse menino fez pro velhinho, vão fazer pra ele’”

- Mas, ô Gelino, meu nego, ocê colocou a sobra da janta na geladeira? – quis saber Joseph.

- Oia, vô falá de novo: se interrompê eu, paro de contá o caso – disse irritadíssimo o pedreiro Salvadir.

O voejar das corujas-buraqueiras, seus piados, o farfalhar das asas dos morcegos provocavam temor nos desavisados.

- Então, muito tempo depois, - continuou o pedreiro Salvadir Vandich – quando consultaram o tal espírito obsessor vingador ele confirmou o decreto da vingança dizendo que o xixi vinha dos rins, rim em inglês é kidney palavra que contém o prefixo kid, que é criança. Então as entidades armariam armadilhas usando crianças contra esse moleque sem educação até que ele ficasse bem louquinho. E vejam bem: em todo lugar onde tivesse brim, de, por exemplo, das roupas jeans, esse safado estaria sujeito ao controle.

Gelino Embrulhano, que até aquele momento não dissera nada resolveu arriscar:

- Mas esse centro não era do deputado Tendes Trame e do pessoal do seu partido?

- É claro que era. Dominaram politicamente a cidade por quase meio século. Mas agora vamos dormir. Já é tarde – disse o professor, diretor de escola e economista Joseph Embrulhanus, ao levantar-se para apagar a luz do quarto.   

  

 

 

 

-

Abril 09, 2020

Fernando Zocca

 

 

 

 

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É sabido pelos psicólogos e médicos que a temperatura, bem como a luminosidade também natural dos dias podem eliciar, evocar – fazer lembrar – experiências vividas antes.

Desta forma como estamos aqui no Brasil, nestes momentos de outono, não poderia deixar de nos surgir na memória as lembranças de certa ocasião em que, pelos idos do início da década de 1970, estaríamos A.C.M., V. e eu, por alguns dias, no rancho de pescarias localizado na margem esquerda do rio Piracicaba, logo depois da foz do rio Corumbataí que, ao fazer uma curva suave para a direita, lança suas águas no Piracicaba.

Uma das primeiras providências a serem tomadas, logo depois que chegamos, por volta das 10 da manhã, levados pelo pai de A.C.M., naquele seu fusca vermelho, 1969 ex-zero bala, foi destacar alguém pra fazer, digamos, a comida.

Alguém tinha de produzir, pelo menos o trivial, ou seja: o arroz e o feijão. A “mistura” poderia vir na forma de peixes fritos que facilmente seriam pescados nas águas do Piracicaba. Essa era a teoria; esse era o plano.

Alguém colocou água pra ferver enquanto que outro, noutra panela combinava óleo, sal, alho e se não me engano, fatias de cebola.

É claro que, ninguém em sã consciência, ou por absoluto desconhecimento das mais básicas técnicas da cozinha, poderia colocar juntos, no mesmo tempo, na mesma vasilha, água e óleo quente; mas não foi bem aquele caso.  Passado o susto que a reação da composição causou, aguardou-se o cozer do arroz.

A concentração de gente sem ter o que fazer, na cozinha, pode prejudicar o bom andamento do processo. A certa altura um mais ansioso achava que o arroz já estava bom, pronto pra ser deglutido; outro mais paciente achava que não; que faltava deixar mais tempo sobre o fogo quando então, bem seco, estaria em condição de ser servido.

Na discussão entre apagar o fogo, esperar esfriar ou deixar mais uns 20 minutos optou-se por encerrar logo o cozimento.

É bem verdade que o apressado ou come cru ou muito quente. E foi assim que V. metendo a colher na panela, sacando uma porção imensa de arroz e, ao levá-la à boca, sentindo nos lábios e na língua, as dores da queimadura, não vacilou em cuspir pra bem longe o bocado, enquanto que, ao mesmo tempo, atirava num movimento reflexo, contra a parede, acima do fogão, o restante do arroz semi-cozido que ficara na colher.

Que reação causaria em quem visse aquela porção de arroz, igual a massa de modelar, grudada na parede? Psicólogos e psiquiatras diriam que as respostas dependeriam da personalidade de cada observador. Mas esse assunto não vem, no momento, ao caso.

Na verdade o comportamento de todos conduziu-nos, naquele dia, ao maior jejum jamais visto em toda história daquele rancho.

Bem a tardezinha o objetivo passou a ser tomar banho. Mas como desfrutar de um longo e reconfortante banho de água quente se não havia energia elétrica?

- Bom, a gente vai fazer uma sauna – disse A.C.M.

Sob o riso incontrolável de deboche de V., que perguntava, aos gritos, como faria tal proeza, A.C.M. foi até a parte de trás da casa e retirando um cano desativado de água, que jazia junto à parede e, mandando V. pegar uma lata velha de tintas, dum canto qualquer, pediu que eu a enchesse de água.

Quando me aproximei com um balde cheio d água, a lata grande de tinta já estava postada sobre alguns tijolos dispostos em forma de fogão rústico. V. providenciava na estrada que passava defronte ao rancho, os galhos secos que seriam queimados.

A.C.M com um quadrado de tábua fechou a abertura da lata; tendo colocado a ponta do cano dentro da vasilha, vedou-a com um trapo, de modo que a pressão do vapor, em tese, sairia pelo tubo subindo até a janelinha do banheiro, pra dentro do qual foi o tal canudo parcialmente inserido.  

Com a lenha já queimando esperava-se a fervura da água. Por isso A.C.M. e V. foram pro banheiro. Eu fiquei de fora pensando em como passar a noite sobre um colchão velho num quarto inegavelmente embolorado.

Mas, realmente, depois de 20 ou 30 minutos jatos d água quente e vapores saiam ruidosa e furiosamente do cano.

Se alguém tivesse o descuido de receber um jato daqueles no corpo certamente teria problemas de queimaduras sérias.

Eu que não estava no banheiro quando o “projeto sauna” começou a funcionar, ouvindo a algazarra da rapaziada, fui ver. Quando entrei tive um susto.

- Nossa que vapor é esse? Deu certo, então? – perguntei.

- Deu nada, seu burro. São os seus óculos que estão embaçados - gargalhava V. sob a frustração inegável de A.C.M.

O projeto de ficarmos alguns dias no rancho não obteve êxito. Terminou quando o pai de A.C.M. apareceu naquela noite levando todo mundo embora.

Texto revisado em 09 de abril de 2020.   

 

 

 

Abril 03, 2020

Fernando Zocca

 

 

 

 

 

 

morcego.png

 

Muito atento aos males e problemas causados pela fome, um cidadão, em Tupinambicas das Linhas, resolveu iniciar um programa municipal de experimentos culinários.

Numa reunião no gabinete com Jarbas, (o eterno, caquético, quase imperador) prefeito da cidade, o jovem professor Joshep Embrulhanus, que circulava pela cidade com um veículo velho movido à óleo diesel, poluindo-a diuturnamente com fumaça tóxica disse:

- Senhor prefeito, então é assim: todos nós sabemos que a fome faz a cada dia inúmeras vítimas. Com o encarecimento do arroz, feijão, mandioca, trigo e tudo o mais usado na alimentação do nosso povo, pensei eu em diversificar as fontes da alimentação humana.

“Na China, como é notório, o pessoal não se vexa em enchurrascar cães, gatos, cobras e tudo que possa ser frito ou assado.

“É claro que em Tupinambicas das Linhas quase ninguém se sente confortável ao fritar um poodle ou outro cão vira-lata qualquer, mas em nosso laboratório na Escola Superior de Lavoura, as experiências nos mostram que os mamíferos não seriam tão somente as únicas e possíveis fontes de saciação da fome do povo.

“De fato, a nossa proposta inicial passa também por minhocas, abelhas, moscas, baratas, pernilongos, pulgas, gafanhotos e, inclusive morcegos. Veja que, numa de nossas experiências, o espaguete de minhocas pareceu-nos tão realizável e nutritivo que, submetido à apreciação de um colegiado de gourmets, recebeu nota 10 da maioria da banca."

Diante do olhar penetrante do prefeito que, com o cotovelo direito apoiado na mesa, segurando com a mão o queixo, batendo lenta e ritmadamente, com a esquerda a ponta de uma caneta Bic, no tampo da mesa, o professor Joshep Embrulhanus continuava a sua aula:

- Perceba senhor prefeito que os alunos, de todas as nossas escolas, estarão num futuro breve consumindo um produto farto, abundante na natureza. Primeiro porque não há tanta demanda por tais produtos e segundo que entre os insetos a proliferação não escasseia. Entende?

- Mas, com certeza gafanhotos não receberiam tanta aceitação dos nossos alunos. Imagine uma criança chegando em casa depois de passar o dia inteiro na escola dizendo pra mãe: “mãe, hoje, na escola, almoçamos gafanhotos ao molho pardo”. Seria uma vergonha! – ponderou o prefeito.

- Certamente que pernilongos, baratas, gafanhotos, moscas e outros insetos seriam servidos na forma não somente salgada, mas também em doces. Já pensou nos bolos de cenoura feitos com extrato de baratas cascudas?

- Eu não sei não... Acho que não vai dar certo... – resmungava o prefeito mais careca do que bola de bilhar.

Embrulhanus sentiu certa raiva ao ouvir as razões contrárias ao seu projeto.

- Pense bem senhor professor doutor, em quanto gado deixaremos de consumir. Menos gado, menos pastagens, redução de canaviais, portanto mais terreno livre para os condomínios de luxo. Já imaginou quanto suas imobiliárias e incorporadoras não faturariam com os luxuosos condomínios residenciais a serem construídos no entorno da cidade?

Enquanto o professor Embrulhanus falava entrou no gabinete a chefe de gabinete do prefeito. Era uma senhora bem idosa, obesa, ofegante, que fora por anos e anos a fio chefe do departamento do Instituto do Serviço Social da Federação.

Com um gesto ela pediu que o prefeito aproximasse seu ouvido da boca que ela, com a conchinha da mão direita, procurava abafar. Ela então sussurrou:

- Lindinho... É o seguinte... Sabe aquele presidente do sindicado dos funcionários que insiste em criticar os salários baixos? Lembra daquele débil? Ele escreveu até um artigo na revista Olhe da Editora Maio Cultural dizendo que os salários estavam baixos e fez o maior auê contra a nossa administração?

Diante da concordância do prefeito que, com um gesto de cabeça, pediu também que ela prosseguisse, a vovó continuou:

- Então, bem... O chefe da guarda descobriu um plano terrorista feito pelo funcionário reclamão: ele, o revoltado, junto com outros colegas, pretendia explodir os dutos de fornecimento de água da cidade.  Sabe aquela estação de coleta de água do rio Tupinambicas das Linhas que abastece a cidade toda com água potável?  O camarada queria destruir tudo. Vai vendo...

Enquanto a vovó cochichava no ouvido do Jarbas o professor Embrulhanus não continha a ansiedade:

- O senhor prefeito prefere que eu volte em outra ocasião?

- Não, não. Imagina. A secretária já está de saída – respondeu o alcaide.

Depois do recado a chefe de gabinete saiu pisando com cuidado, lentamente. Ao fechar a porta o professor continuou:

- Então, senhor professor, doutor prefeito: o nosso projeto é muito abrangente. Veja que a novidade lá do nosso laboratório da Escola Superior de Lavoura consiste num patê feito com coxas, asas e pés de morcego. Inclusive estamos com a nossa produção mensal pronta pra ser entregue nas escolas. Só precisamos do seu aval, do seu consentimento.

Nervoso e agitado com a notícia que sua chefe de gabinete lhe dera o prefeito falou ao professor:

- Está muito bem professor Embrulhanus. Por mim seu projeto está aprovado. Mas, agora o senhor me dê licença. Preciso cuidar de um problema grave. Imagine que tem um funcionário descontente com os salários e que, por vingança, quer destruir o fornecimento de água do município – disse Jarbas saindo da sala.

O professor Embrulhanus caminhou até a porta, ingressou no hall, esperou o elevador e descendo até o andar térreo, esfregava as mãos de contentamento.

Quando saiu à rua, ao encontrar com sua sócia, a empresária Mary Garoupa disse:

- Tudo aprovado. O prefeito Jarbas concordou. Pode distribuir essa nossa produção de patê em todas as escolas do município.

- Nós temos quase uma tonelada de patê embalada. E a “ferpa”, o “cascalho”, o “faz-me rir”? – inquiriu Garoupa esfregando o indicador e o polegar da mão direita

- Não se preocupe com isso. Precisamos reforçar a nossa produção. Temos de descobrir novas cavernas com morcegos. “A gente vamos” ficar ricos bebê!

Se você gosta do nosso trabalho e quer nos apoiar ficamos-lhe gratos.

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