Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

O Prato do Dia

O Prato do Dia

Maio 27, 2020

Fernando Zocca

 

 

bola na rede.jpg

 

Fui na manhã da segunda-feira da semana passada até o centro da cidade pagar uma contazinha que, por estar bem atrasada, me deixava inquieto.

Filas enormes e aglomeração de pessoas dificultavam o atendimento bancário. Entretanto, com paciência pude cumprir a obrigação. Depois descontraído, bem sossegado, caminhei até onde estavam reunidos, ali no jardim, alguns conhecidos.

- Está vendo como são as coisas? Essa agitação toda, esse nervosismo, insônia, irritabilidade, essa desordem infinita podem ser consequência dos negócios mal feitos, situações inacabadas, irresolutas – concluiu Fábio um colega, de longa data, que, confortavelmente acomodado num dos bancos da praça, analisava, dentre outras coisas, o estado atual da politica provinciana.

- E agora aparece esse tal de covid-19 pra complicar ainda mais a situação da cidade, do estado, do país, da América do Sul e do mundo todo – acrescentei me aproximando e levando a mão ao bolso onde guardara o extrato bancário comprovante da quitação do meu débito.

- Veja quanta gente circulando sem obedecer as orientações para que haja o distanciamento social; desmuniciadas negligentemente de máscara protetiva – continuou  Fábio, pondo a mão esquerda no ombro do mesmo lado, onde sentia certo desconforto.

- Você pode não acreditar, mas quando os problemas se acumulam geralmente muitos buscam no sono, debaixo dos edredons, uma espécie de consolo, uma fuga dos momentos de tensão. Eu aprendi desde cedo, com minha mãe que a boa infusão de camomila, naquela cama bela, macia, faz um bem imenso pra saúde – disse eu com segurança.

- Camomila? Você toma isso? É remédio pra criança – refutou Fábio.

- Você não imagina como preciso, de vez em quando, me aquecer e acalmar com um chazinho daquele. Ui! – concluí.

Enquanto conversávamos aproximou-se de nós o Lucas, um conhecido comum. Parado a nossa frente, que estávamos sentados, ele acendendo um cigarro, começou a falar sobre a imutabilidade no poder municipal.

- As reeleições reiteradas provocam situações que favorecem a corrupção vergonhosa e impune – dizia, com voz calma e pausada o recém-chegado. Ele aparentava estar acima do peso; aliás, bem balofo mesmo; quando falava movia repetidas vezes o pescoço pra direita, num reflexo, ação impulsiva que parecia incontrolável.

Quando meu parceiro Fábio percebeu os meneios de cabeça, disfarçadamente deu-me um cutucão com o cotovelo, chamando-me a atenção para os movimentos involuntários do recém-chegado Lucas.

Em seguida Fábio, que aposentado, passava a maior parte do seu tempo vendo o movimento e conversando com os amigos na praça começou a discorrer:

- Quando eu era moleque, no grupo escolar, tínhamos um professor que ao falar batia levemente com os dedos, seguidas vezes no nariz; Eram toques que também direcionava às orelhas.

- Ah, eu me lembro – respondi – Inclusive o mestre, ao caminhar, dava pequenos saltos, como se estivesse trocando o passo, do mesmo jeito como fazem os soldados quando marcham em desarmonia com o restante da tropa.

Logo depois que começamos a falar nesses tiques, cacoetes, o camarada recém-chegado, que quando falava cabeceava pra direita, sentiu-se incomodado. Foi quando então ele, falando de si, abriu-se

- Vocês estão falando de cacoete, mas não brinquem com isso. É um problema chato de difícil solução. Veja o meu caso. É sério – falou Lucas em tom aborrecido.

- Mas diz aí, como principiou esse negócio de cabecear? – inquiriu Fábio.

Então Lucas começou a discursar:

- Quando era adolescente, e frequentava as aulas do ginasial, no último ano, formamos um time de futebol que disputaria o campeonato municipal de futebol dos secundaristas, do ensino médio. A competição tomou tamanha proporção por causa da divulgação nos jornais e nas rádios da cidade que a expectativa foi de doer. Como eu estava, há muito tempo, de olho na lourinha, gente fina, prima distante, que entrara naquele ano na minha classe, pensei: ‘Nossa! Se ficar campeão com meu time, vou pedir namoro pra ela’.

“Bom, naquele mesmo dia, um colega de classe se aproximou de mim e disse: te cuida Lucas. Se você for campeão a prima vai com você ao cinema. Ela me garantiu.

“A competição foi difícil. Sofremos muito; desconforto geral, a gente quase não dormia direito; a comida parecia ruim, ir ao banheiro tornou-se uma tortura. Mas chegamos ao fim do campeonato. O meu time estava na final. Nós precisávamos de um mísero empate pra sermos campeões. Acontece, meu amigo, que os caras fizeram, logo de início, no começo do primeiro tempo, um a zero. Sim, a gente estava perdendo o jogo quando, logo depois da metade do segundo tempo, um escanteio pro nosso lado, que a gente tinha de cobrar, nos deu a esperança do empate, conquista do campeonato e o coração da minha loura amada.

“Fui pra frente do gol do adversário, e logo ali na marca do pênalti, vi que a bola chutada pelo parceiro, naquela cobrança do escanteio, vinha na minha direção; preparei-me para cabecear. Ouvindo o zunido da pelota que vinha célere em direção ao meu topete, eu saltei quando ouvi alguém gritar “deixa!”. Então eu que tinha tudo pra ganhar o campeonato, levantar a taça, namorar a minha lindinha, pensando que era um companheiro de equipe que me pedira para deixar de cabecear, por supostamente estar em melhor posição, não cabeceei a bendita bola que o zagueiro maligno chutou pra fora.

“Meu psiquiatra acha que foi esse fato, o gol que não fiz, o determinante desse meu cacoete feio” – concluiu Lucas.

O relógio da matriz badalava 11 horas.

- Hora do almoço, vou indo. Um abraço pra vocês – falei começando a caminhada.

Um carro de som, que passava, tendo como fundo a canção Solamente Una Vez, incitava aos berros, o povo a tomar dinheiro emprestado.

Texto revisado nesta data.

Piracicaba, 27 de maio de 2020.

 

 

 

Maio 14, 2020

Fernando Zocca

Paulo Guedes.jpg

 

A menos que os médicos e a OMS (Organização Mundial da Saúde) estejam blefando como aquele doutor que receitou neurolépticos pro sujeito, durante anos, e tendo este ganhado peso, em decorrência da imobilidade, causada pela medicação, demonstrando seu desconhecimento sobre os efeitos e as consequencias da droga, rotulando-o de preguiçoso, esse bafafá intenso e acachapante veiculado, diariamente na imprensa, sobre o covid-19, é bem verdadeiro.  

Mas equívocos nessa área são tão comuns como o diagnosticar epilepsia em alguém que nunca teve um único e mísero ataque convulsivo durante toda a sua vida.

Entretanto vemos pelos noticiários que médicos e enfermeiros estão adoecendo ou por contágio do tal covid-19 ou pela inépcia no uso do equipamento empregado na respiração artificial.

A terapêutica aconselhada pelos especialistas é o isolamento social, ou seja: se as pessoas não ficarem próximas umas das outras o perigo de transmissão decai sensivelmente.

Acontece que essa manobra indicada desfavorece os contatos sociais em que há a produção, o comércio e o consumo de bens necessários à sobrevivência.

Então, de um lado os especialistas médicos provocando com suas diretrizes o maior debacle, até agora, nas sociedades democráticas capitalistas e do outro, os governantes incrédulos de que seja mesmo assim tão grave, o chamado alarmismo científico.

Especialmente aqui no Brasil, o presidente da República não deseja aceitar as recomendações de isolamento social, uso de máscaras e higienização com álcool gel. Argumentaria ele que milhões de pessoas morrem diariamente no mundo todo e que as medidas protetivas serviriam só pra causar o fracasso da economia. É claro que se tem em vista que seu governo seria marcado pela derrocada econômica da nação.

Veja que na busca de um culpado, dum bode expiatório que carregue toda a culpa pelo fracasso governamental sempre aparece um gênio como o ministro Paulo Guedes (foto: br. finanças.Yahoo.com) que, num pronunciamento do presidente Bolsonaro no dia 24 de abril, destoando de todos, posou para as fotos sem os sapatos, só de meias, com a máscara e sem o paletó.

O que desejaria comunicar o preclaro cidadão com essa atitude inusitada? Teria achado o responsável pela pandemia e estaria indicando, com seu gesto, o culpado?

Erros médicos acontecem a todo o momento, em todo o mundo, da mesma forma que os equívocos dos senhores políticos mirram as riquezas públicas em benefício próprio e dos seus asseclas, prejudicando a população.

Na dúvida fico em casa; quando na rua, uso máscara e higienizo-me com o álcool gel.

Pra quem não acredita nos senhores doutores médicos especialistas (Como Bolsonaro e Trump), recomenda-se que visitem os doentes nos hospitais.

Agora se o comportamento do senhor presidente Jair Bolsonaro que, com seu exemplo e manifestações públicas, incita as pessoas a agirem como se nada estivesse acontecendo, pode ou não ser responsabilizado, e ter como consequência um impeachment, isso, meu amigo, já é outra história.

Texto revisado em 14/05/2020.

 

Maio 06, 2020

Fernando Zocca

 

 

Por causa dessa minha nova condição de manquitola, claudicador, uma conversa interessante surgiu numa tarde em que fazia exercícios físicos no parquinho que instalaram na Rua Carlos de Campos, atrás da Igreja São Judas Tadeu.

- Você agora faz parte dum seleto grupo de pessoas que manqueja bem ao caminhar - disse-me uma jovem senhora que, dividindo sua atenção com o manejo do filho, e a conversa comigo, sofria dificuldades em manter, sobre o nariz, o vistoso, exuberante, óculos de sol.

- Eu que corria centenas de kilometros por mês, nos vários parques da cidade, agora não passo de umas miseras voltinhas conseguidas com muito esforço.

- Olha o senhor deve elevar as mãos aos céus por ainda  ter a perna. Amputação seria bem pior. Já imaginou?

"Vejo tanto amputado sofrendo que nem te digo. E o senhor perceba que em terra de Saci-Pererê, manquitola é rei; é o mandatário mor.

"A situação e tão critica que o sujeito prefere manter uma perna mirrada, atrofiada, quase inoperante, disfuncional, do que amputá-la mudando para uma prótese legalzinha.

"Um amigo vizinho que nasceu com uma perninha atrofiada, quase seca, por causa de um defeito genético, chorava as pitangas com a minha mãe e as vizinhas dela. A pessoa dizia que tinha vergonha de sair às ruas, de ir aos clubes, de quadrar o jardim. Ele pensava que as pessoas, quando riam nos locais públicos, riam por causa da perninha dele. Mesmo assim essa figura, que fumava cachimbo igual ao Perere, ponderava que antes manquitolar com uma perninha fininha, mas original da concepção, do que usar prótese. Ele sabia que o classificavam como paranóico; psicopata paranóico. Ele se mordia todo, babava na gravata quando ouvia dizer a frase "anta manquitola paranóica".

- Nossa, que situação, hein amiga? - falei ofegante pelo esforço dispendido no remo seco do parque.

- Esse coxo, pra se vingar de quem o zoava começou a provocar os vizinhos com murmúrios depreciativos insistentes. Mas numa ocasião um catador e lixo reciclável, bastante encachaçado, invadiu o “mocó” do perneta ancudo querendo tomar satisfação. E qual foi a reação do manquitola injuriado?"

- E lá vou eu saber? - questionei a mamãe jovem.

- O manquitola deu uma pancada violenta com um pedaço de pau nos  “cornos” do invasor mandando-o direto pro cemitério. Só isso.

- Misericórdia! - exclamei assustado.

- A complicação foi geral: deu policia e tribunal do júri - continuou a mocinha - Meu cunhado foi designado, pelo juiz, para defender o perneta assassino no plenário do júri. Mas veja que sorte teve o coxo:  o promotor pediu a absolvição do acusado.

"Quando terminou tudo, feliz com o resultado, livre das garras da lei, o coxo, naquela euforia da vitória, disse, prometeu em alto e bom som, pra que todos os do entorno ouvissem, que arrumaria, em agradecimento,  uma amante pro meu cunhado".

- E dai? Ele conseguiu um “love” pro defensor? - inquiri na maior curiosidade.

Quando a moça ia responder um carro chique parou defronte ao parque. Buzinando insistentemente o motorista chamava a mulher.

- Ih, olha lá, é meu marido. Vou indo. Chiquinho, vem Chiquinho que o papai vai nos levar.

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2015
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub