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O Prato do Dia

O Prato do Dia

Janeiro 21, 2021

Fernando Zocca

 

Laércio Bivisan entrou no boteco do Bafão naquela quarta-feira, por volta das 11 da manhã; ele trazia debaixo do braço esquerdo, sob o sovaco, um filhote de Poodle branco, que parecia dormir.

Van Grogue, Luiza Fernanda, Donizete Pimenta e Zé Laburka que haviam chegado mais cedo, e já bebericavam há tempos, ao virem a cena pensaram logo na saúde do animal.

- Esse cara só pode não estar “regulando bem”. Imagina a pessoa, com esse calor, de paletó e gravata, suada feito não se sabe o quê, mantendo esse pobre animal sob os efeitos da catinga nauseabunda, quase asfixiado, sob a axila! – exclamou indignada a Luisa Fernanda que em tempos passados também tivera um bicho semelhante.

- Psit! Fala baixo! O cidadão é importante! Dizem que quer ser vereador – repreendeu Donizete Pimenta com o indicador da mão direita em riste.

- Mas vamos se achegando – convidou Laburka que, pelos trejeitos, sentia dores terríveis no ciático – puxa uma cadeira e se acomode. Quais são as novidades?

- Como todo mundo sabe as eleições estão chegando e eu quero me candidatar. Minha plataforma, minha principal preocupação, são os animais domésticos, especialmente a cachorrada. Afinal, quem não tem um bichinho de estimação, não é verdade? – disse Laércio Bivisan sentando-se próximo da turma.

- Não seria melhor cuidar das crianças abandonadas do que desses cachorros infernais? – quis saber Van Grogue.

- Não. Veja bem. As crianças também têm direitos, mas os cãezinhos precisam de alguém que se preocupe com eles, com a saúde, por exemplo. Se eleito for, já vou dizendo, quero trabalhar para a instalação de um canil municipal, um centro médico veterinário e também um cemitério que terá o departamento de cremação. Não é bonito isso? Não é importante isso? – manifestou-se com segurança o Laércio.

- Mas seu professor, doutor, quanto isso custará ao município? Em termos financeiros, em questão de dinheiro, quanto isso representará para o munícipe? Haverá aumento no IPTU, na taxa de poder de polícia, no ISSQN por exemplo? – quis saber Bafão que, solicitado, depositava outra garrafa de cerveja sobre a mesa dos convivas.

- Não. Isso pode até representar um aumentozinho, coisa e tal, mas não será tão acachapante. Em termos de custo benefício veremos que o município economizará diante da manutenção da saúde das pessoas que não adoecerão com as doenças transmissíveis por cães e gatos. Vocês entendem?

- Mas onde o senhor pretende construir esse hospital veterinário? Na periferia? Não seria melhor no centro da cidade? Tenho alguns imóveis desocupados que podem servir bem para esse objetivo – asseverou Joseph Marie Cassaniqueis o corretor de imóveis que entrava de mansinho no boteco – Olha continuou ele – Tenho uma lista de terrenos baldios em condições de receber qualquer tipo de construção. É só vossa eminência desejar que o poremos na lista dos futuros adquirentes.  

- Não. Perceba que nosso projeto visará atender a maior parte da população que seja proprietária de animal de estimação. Não vejo por que não instalar o canil municipal e o hospital veterinário no centro da cidade, como também não vejo porque não instalar na periferia. Não seria um projeto meu. É claro que é, mas em sendo eleito farei com que o município encampe a ideia. Está me entendendo? – concluiu Laércio.

- Muito bem, senhor candidato. Parece que a população aceitará sua proposta – Tem feito campanha em outros bairros? Como tem sido a aceitação? – Inquiriu Grogue.

- Não. Está tudo bem. Estive ontem nos bairros Ondinhas, no Bosque das Lenhaduras, onde do palanque, fiz bons discursos. O pessoal tem prometido votar em mim.  O povo sabe o que é bom. Mas agora, vocês me dão licença que tenho de seguir em frente. Vocês viram como a bichinha aqui não deu trabalho nenhum? – arrematou a conversa o candidato Laércio Bivisan, levantando-se enquanto apontava com o queixo a cachorrinha que ainda permanecia aparentemente anestesiada debaixo do sovaco catingoso.

Depois da saída do pretendente à vereança, Van Grogue pigarreando e, em tom de locutor de programa matinal de rádio interiorano disse:

- Sim. É verdade o Laércio esteve mesmo ontem no bairro Bosque da Lenhadura. No palanque, com o microfone na mão, ele dirigindo-se à centena de pessoas aglomeradas no entorno perguntou em alto e bom som: “vocês, neste bairro, tão importante, têm esgoto que funciona? Vocês têm escola pra atender bem aos seus filhos? Teriam todos os moradores deste bom bairro, um posto de saúde que atenderia bem aos necessitados? O pessoal daqui tem segurança, sossego, tranquilidade? Suas crianças são livres, saudáveis, sorridentes, felizes?” Diante da negativa popular a todas as perguntas, Laércio Bivisan, sem titubear, e em prosseguimento ao seu discurso concluiu: “- Então por que vocês não mudam dessa porra?”

- E ocê sabe que o cara pode ser eleito? – perguntou Luisa Fernanda.

- É claro que pode. O povo sabe o que quer – respondeu Zé Laburka sob a aprovação expressa de todos.  

Janeiro 20, 2021

Fernando Zocca

 

Então lá estava eu novamente na pista do parque do bairro Santa Cecília, naquela sexta-feira nublada, por volta das 7 da manhã.

A pista tem 6.400 metros e eu ainda com excesso de peso, sentindo as sequelas duma fratura na canela esquerda, resultado de um acidente criminoso no trânsito, manquitolando feito um cavalo velho, pensando na minha certidão de nascimento amarelecida, emitida em 1951, consegui, daquele dia, fazer o percurso todo – 10 voltas – em uma hora, mais ou menos.

Bom, se em 60 minutos percorro 6,4 km, em 2 horas faria (mantendo é claro, o ritmo constante), quase 12,8 km. Então para completar os 42,195 km que usualmente é a extensão de uma maratona, me faltariam (mais ou menos) 29,6 km.

Agora, se eu em 1 hora corro somente 6,4 km em quanto tempo completaria os 42,195 km?

Fazendo rapidamente os cálculos completaria o percurso de 42,195  km em mais de 7 horas!

Se a largada fosse às 7 da manhã eu chegaria ao final do percurso às duas da tarde.

 Vá vendo...

Considerando que o recorde da maratona é de 2:01:39 (duas horas, um minuto e trinta e nove segundos), conseguido pelo atleta queniano de 33 anos, Eliud Kipchose, na 45ª maratona de Berlim, em 25 de setembro de 2016...

Considerando também que se déssemos a largada juntos eu chegaria mais de 5 horas depois do campeão, podemos concluir então que eu não devo nem pensar em participar de maratonas... De jeito nenhum!

Mas deixando essas elucrubações pra depois, ao terminar o meu modesto percurso, parei para conversar com um conhecido que frequentou o Clube de Regatas situado à Rua Morais Barros, esquina com a Avenida Beira Rio, por volta de 1962.

Suado e mal cheiroso feito um gambá coringuento, mais ofegante e espantado que galgo no final da corrida, quando descobre que aquela coisa deslizante, pela pista de terra, não era coelho coisíssima nenhuma, ele foi me dizendo:

- Então hein cara! Quanto tempo que a gente não se vê, né?

- Pois é... Era tempo do iê-iê-iê, da Jovem Guarda na Record, Eu me lembro que naquela piscina... Lembra? Que frequentamos muito, você usava até uma máscara de mergulho pra apreciar a anatomia da mulherada por baixo dágua. É verdade ou mentira? – disse-lhe.

- Então... É verdade cara; tinha cada gatinha vestindo aqueles maiôs estampados que deixavam a gente meio que abilolados. É ou não é? Mas não era só a piscina que tinha lá. Havia um campo de futebol que ao invés de grama era coberto com areia. Ocê lembra?

- Claro que lembro. Joguei muita bola ali – confirmei.

- Numa ocasião eu e meus primos estávamos batendo uma bola ali e de repente chegou um grandalhão, um brutamontes filisteu que pegando a bola chutou-a com tanta força que me quebrou o punho – contou o esgotado atleta de fim de semana.

- Rapaz! É verdade isso? Eu não soube da história – informei.

- Então cara... Baita correria na secretaria do clube; chamaram um taxi, me levaram pra Santa Casa e depois da chamada redução, feita pelo doutor traumatologista, puseram-me um gesso envolvendo todo o antebraço direito.

- Nossa cara, que foda meu! – eu estava espantado.

- Então mano, depois de alguns anos, quando eu voltei a frequentar o clube o filisteu brutamontes tentou armar uma cilada pra mim. Ele deixou, no vestiário, um relógio numa situação que dava a ideia de que tinha sido perdido por alguém. Quando o peguei pensando em levar pra secretaria do clube o tal apareceu dizendo que eu estava furtando o objeto.

- Ô loco, meu, sério? – disse-lhe espantado.

- Só que quando ele se preparava para alardear o que seria uma tentativa de furto, apareceu um diretor do clube, que conhecendo de longa data o mau-caráter, “pagou-lhe o maior sapo”. Deu-lhe uma reprimenda, que até eu senti pena.

- Virgem santa, que história, cara. Eu não sabia disso. E olha que eu ia praticamente todos os dias ao clube – falei num tom de comiseração.

- Então... – ele continuou – eu não poderia imaginar o porquê do filisteu brutamontes tentar armar aquela cilada pra mim. Ele já tinha me quebrado o braço, agora vinha com aquela sacanagem?

- Você soube do motivo dele tentar te incriminar? – perguntei.

- O diretor do clube contou pro meu pai que o sacripanta não aguentando a pressão, causada pelo dano que cometeu, pensou, para o desencargo da consciência, armadilhar uma situação enganosa que justificasse a fratura, causada por ele, no meu braço.

- Mas que sujeito desgraçado! – concluí.

- Veja só: na mente dele, o dano que me provocou seria merecido, justo, bem feito, porque eu seria um ladrão, então tinha mesmo que ter o braço quebrado. Veja que ele era parente dum velhote barrigudo, pinguço tabagista, agressor de mulher que trabalhava como foguista na Estrada de Ferro Sorocabana. Um dia esse foguista levou a filha pra passear de trem. Colocou a menina na locomotiva, perto da fornalha. Daí saiu uma fagulha que entrou no olho da filha. Meu amigo, a inflamação deixou a menininha maluquinha da silva. E depois pra explicar pra mãe da criança, o pai inventou a lorota que foi o moleque vizinho que assoprou um cisco no olho da pobrezinha.

Eu percebendo que a conversa se prolongaria, e sentindo algumas dores mais fortes nas pernas resolvi me despedir daquele conhecido dizendo:

- Quanta patranha pra se livrar dos próprios erros, das culpas, salvar a própria pele hein?

- Nem me fale – respondeu-me caminhando em direção ao seu HD 20 Hyundai estacionado defronte a bica d´água.  

Janeiro 16, 2021

Fernando Zocca

 

Familia Romanov 1913.jpg

 

Se o jeito Putin de combater seus opositores com o uso de elementos tóxicos, virar moda, praxe, o Césio 137 será, daqui em diante, o mais popularmente utilizado.

Na Rússia onde o sistema teoricamente seria capitalista num contexto político democrático, o que se vê não é o que deveria ser.

(Foto:  Wikipédia. Os Romanov. Da esquerda para direita: OlgaMariaNicolau IIAlexandraAnastásiaAlexei, e Tatiana. Retratados no Palácio de Livadia em 1913).

Os cargos eletivos em tese, em teoria, seriam transitórios, diferentes das monarquias em que a ocupação do cargo é vitalícia.

Em 1917 os comunistas tomaram o poder naquele país, executando sumariamente, por fuzilamento, todos os membros da família imperial. Faziam parte da família Romanov (foto acima) Olga, Maria, Nicolau II, Alexandra, Anastásia, Alexei e Tatiana; estes e todas as pessoas que os serviam no palácio imperial foram fuzilados; seus corpos vilipendiados com ácido sulfúrico, cal virgem e depois lançados numa vala cumum à beira de uma estrada.

No poder os comunistas, principalmente no tempo de Stalin, a matança de opositores, segundo alguns historiadores, ultrapassou 30 milhões de pessoas.

A União das Repúblicas Socialistas Soviéticas teve seu fim nos anos finais da década de 1980. A partir de então o sistema econômico seria o capitalismo, e a forma de governo democrática.

O atual presidente da Rússia Vladimir Putin, além de ex-agente do KGB no departamento exterior e chefe dos serviços secretos soviéticos e russos, KGB e FSB,  ocupa o cargo desde 2012.

Acontece que por manter-se reiteradamente no poder, com as sucessivas reeleições Putin tem enfrentado forte oposição. Seguindo o esqueminha delineado pelos comunistas ao assumirem e manterem o mando por tantos anos, a eliminação, a execução sumária, aos opositores segue a regra.

Desta forma o opositor russo Alexei Navalny foi envenenado com um agente tóxico do grupo Novitchok quase vindo a morrer. Foi salvo por componentes do governo alemão.

Aqui no Brasil não fogem a regra tanto a permanência exagerada no poder quando a escolha pela execução de todos os que se opõem a isso.

Assaltos simulados, atropelamentos, violências no trânsito fariam parte da receita demolidora das oposições no Brasil.

Mas a cada dia, com a maior integração das culturas, entre as pessoas dos mais variados países, tem havido o surgimento de novas ideias de eliminação dos discordantes, objetivando a eternização no poder.

Assim, não seria de estranhar que políticos, de repente, vissem-se acometidos com intoxicações semelhantes à acontecida com o Alexei Navalny, vitima de uma arma química.  

O Césio é um elemento químico alcalino (símbolo Cs), número atômico 55 de massa atômica 132,90, altamente tóxico, nocivo à saúde humana, usado na fabricação de aparelhos de Raios X.

O césio-137, ou radiocaésio, é um isótopo radioativo de césio, que é formado como um dos produtos de fissão mais comuns pela fissão nuclear de urânio-235 e outros isótopos fissionáveis ​​em reatores nucleares e armas nucleares. As quantidades vestigiais também se originam da fissão natural do urânio-238. 

O acidente radiológico de Goiânia, amplamente conhecido como acidente com o césio-137, foi um grave episódio de contaminação por radioatividade ocorrido no Brasil. A contaminação teve início em 13 de setembro de 1987, quando um aparelho utilizado em radioterapias foi encontrado dentro de uma clínica abandonada, no centro de Goiânia, em Goiás. Foi classificado como nível 5 (acidentes com consequências de longo alcance) na Escala Internacional de Acidentes Nucleares, que vai de zero a sete, em que o menor valor corresponde a um desvio, sem significação para segurança, enquanto no outro extremo estão localizados os acidentes graves.

O instrumento foi encontrado por catadores de um ferro-velho do local, que entenderam tratar-se de sucata. Foi desmontado e repassado para terceiros, gerando um rastro de contaminação, o qual afetou seriamente a saúde de centenas de pessoas. O acidente com césio-137 foi o maior acidente radioativo do Brasil e o maior do mundo ocorrido fora das usinas nucleares, além de ser considerado também o maior incidente envolvendo uma fonte radioativa desde sempre.

Fonte: Wikipedia

 

 

 

 

 

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