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O Prato do Dia

O Prato do Dia

Abril 29, 2021

Fernando Zocca

 

 

O negacionista é um sujeito muito engraçado. Ele é capaz de negar a existência do sol, daí a expressão “tapar o sol com a peneira”, por não ter como explicar o fenômeno aos que o ladeiam.

Dessa forma o negador de tudo, diante do fenômeno da Internet e do comércio que ela proporciona, garante, de pé junto, que “isso não funciona”.

O que embasa essa convicção é o fato de que os proprietários dos imóveis comerciais, das ruas centrais das cidades, estão temerosos de que a desnecessidade da presença dos consumidores nos locais dos comércios definhe as vendas.

Sem a presença não haveria vendas, sem vendas, não teriam os locatários como pagar os alugueres, consequentemente havendo a perda – por parte dos locadores - das fontes de renda.

Então, em outros termos, sem o consumidor, não haveria “caixa”, sem esta não se cumpre o avençado, havendo a ruptura dos contratos de locação.

Nesse caso, o nosso querido negador, vê o comércio pela internet, como adversário do sujeito proprietário de imóvel alugado, que sobrevive do recebimento dos alugueres.

- Ora, se eu posso consumir, veja bem, adquirir quase todos os produtos, por meio eletrônico, por que, Santo Deus, iria eu até determinado local pra conseguí-los?

Desse ponto até a conclusão de que a ausência dos consumidores nos locais, onde se pratica o ato comercial, pode enfraquecer uma determinada relação negocial, é uma questão de angstrom. Saca o angstrom?

Então a opinião de que “o comércio eletrônico, os processos judiciais também eletrônicos, as consultas médicas por vídeo não funcionariam por “não funcionarem” é a compreensão do dito cujo.

Quando você diz que compra, pela internet, produtos que geralmente compraria presencialmente nas lojas, e ouve a resposta que isso “não funciona, porque não funciona”, você suspeite que haveria algum interesse na manutenção daquela velha fórmula regente das relações comerciais.

A presença de centenas de pessoas nas dependências de dado comércio significava sucesso de vendas.

Ainda não se conseguiu mostrar que a ausência das pessoas pode representar também um grande êxito financeiro.

Mas não demora muito essa situação perturbadora muda tranquilamente.

 

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Abril 20, 2021

Fernando Zocca

 

1.

Antes de Laércio Bivisan candidatar-se, e ser eleito, vereador em Tupinambicas das Linhas ele era daqueles que não gostava de trabalho.

Sua mania de limpeza levava a mãe aos extremos da exaustão de tanto que atendia às ordens do filho impelindo-a a limpar tudo de forma que não sobrasse nem um mísero vestígio de poeira no seu quarto. 

Esse fato dele viver sem ter o que fazer durante a maior parte dos dias e dos anos, que se sucediam rapidamente, levaram Joseph Marie Cassaniqueis, Delsinho Espiroqueta, Donizette Pimenta, Vovó Bin Slave Latem, Marina Baldwin, Zé Laburka, Revina Baldwin e outros a, numa reunião na garagem da vetusta nona, se proporem a conseguir um emprego ao vagabundão cronicamente desempregado.

- A atual administração da cidade receberá, na área rural, um entreposto responsável pela comercialização dos produtos, vegetais, hortifrutigranjeiros, ou seja, laranjas, mangas, goiabas, uvas, melancias, batatas, bananas, cenouras, beterrabas e tudo o mais produzido nas hortas profissionais; por enquanto não tem quem possa ocupar a posição de vigia noturno. Eu proponho que essa vaga seja concedida ao Bivisan que se tem mostrado um excelente colega e companheiro das noitadas na praça central – disse Joseph Marie com as mãos postadas na mesa com as palmas voltadas para o tampo.

A vovó Bin Slave Laten tossiu com a boca fechada pondo na face uma expressão de dúvida, como se dissesse:

- Quem? Quem é esse?

Marina Baldwin que já sabia da história do Laércio murmurou com os lábios praticamente colados um no outro:

- É um considerado nosso que carece muito de afeição, de afeto, a fim de que se cure duma afecção maligna na pele e também da rinite que o acomete desde criança.

Delsinho Espiroqueta, na deixa “pele” pronunciou-se:

- Olha gente pode tudo, mas na pele não, por favor. Isso impede a esfregação, “o rala e rola”, além de ser muito mal cheiroso.

- Mas o cara é maligno metido a “fura olho”; um escangalhado intelectual maledicente, malfalante e praguento - continuou Donizette Pimenta.

- Uma tranqueira! – emendou Zé Laburka.

- Uma imundície, isso sim! – confirmou o Donizette.

Zé Marie sentiu no peito as manifestações contrárias aos seus intentos e pensou: “se não me mata o câncer morro ainda de infarto. Ô “mardita” contrariedade que não me dá sossego...”

- Mas gente vamos e venhamos... Ponhamos as mãos na cabeça: Se o nosso objetivo é ajudar a pessoa alquebrada pela rinite purulenta, pelas alergias, pelas úlceras fétidas na pele, devemos deixar de lado as nossas antipatias, os preconceitos, as inverdades que inundam a imagem da pessoa, e partirmos para o auxílio cristão da criatura, que, afinal, também é filho de Deus – orou a vovó Bin Slave Laten num tom choramingoso.

- Olha pessoal, tenho um laudo pericial do médico alienista Dr. Carneiro dizendo que Laércio não é psicopata, e que pode ocupar qualquer cargo na administração – falou o Zé Marie reforçando a tese agregacionista do Bivisan ao serviço público. E tem mais: o nosso ilustre advogado, (ex-procurador jurídico do município, no tempo em que o quase imperador Jarbas, o caquético testudo, reinava na cidade), o conhecidíssimo doutor John Charlles Carcanhádigrillis nos passou uma certidão do cartório central da cidade garantindo que contra o Laércio nada consta que o desabone.

- Bom, e aí? O que me dizem a respeito? – perguntou Marina.

- Eu só concordo se o Laércio se comprometer a usar, todos os meses, durante dois anos, metade do seu salário nas compras a serem feitas na minha quitanda – afiançou Revina Baldwin – mas pra garantir a transação, é bom ele deixar metadinha na minha casa, logo no dia do pagamento, viu? – terminou a moça.

- Ah, tem que gastar esse dinheiro aqui na cidade. Eu tenho uma charrete novinha em folha pra vender. Posso concordar se me comprar o veículo. Mas já vou avisando: com o cavalo não; só a charrete – garantiu o Zé Laburka que não era poste, mas tinha também elevada estatura.

- Bom com os votos da vovó aqui, da Marina, do Joseph Marie, do Zé Laburka e da Revina considero Laércio nosso indicado para a ocupação do cargo de vigia no entreposto de vendas no atacado dos hortifrutigranjeiros.

2.

Passaram rapidamente seis meses da data da contratação, até a noite em que o Laércio, que sumira dos encontros com o pessoal da praça, apareceu dirigindo um Fiat preto seminovo. Com o rádio do carro ligado num volume que todos os do entorno ouvissem ele desceu, muito alegre e feliz da vida dispondo-se a pagar cerveja pra todo mundo.

Essa nova condição de bon vivant durou até o fim do ano quando todos reunidos receberam a notícia de que Laércio foi inapelavelmente demitido. O pessoal queria saber por qual razão o moço fora dispensado.

- Zoofilia – garantiu Zé Maria Cassaniqueis – Ele passava as noites em claro, bebendo café e fumando; não tinha mais o que fazer e quando apareceu na sua área um burro, Laércio não teve dúvidas, “mandou ver”. E não é que o animal gostou da brincadeira? Ele voltava sempre que via o Laércio de longe.

- Hahaha. Era só o burro me ver que se aproximava, ficava de costas e levantava o rabo – confirmou Laércio no meio da turma que o ouvia embasbacada.

- Gente! Que absurdo! Eu bem que falei que a pessoa era uma tranqueira – definiu Delsinho Espiroqueta.

- Um lixo. Uma imundície – decretou Donizette.

Quando o relógio da matriz marcou 23 horas Zé Laburka, que chegara à reunião de mãos dadas com Delsinho, afastando-se dele e aproximando-se da Marina Baldwin murmurou na sua orelha esquerda:

- A minha fofinha vai desacompanhada pra casa hoje? Aceita a companhia do papai aqui?

Marina, olhando de soslaio pro Delsinho Espiroqueta resumiu:

- Era só o que me faltava!

Laércio Bivisan considerando, como sempre, aquelas pessoas todas como componentes da mais pura ralé da cidade, entrando no seu possante Fiat preto, ligando o rádio, dando a partida e arrancando ouvia As Pastorinhas de Noel Rosa e João de Barro que vibrava no ar frio do quarteirão vazio:

A estrela d'alva no céu desponta
E a lua anda tonta com tamanho esplendor
E as pastorinhas pra consolo da lua
Vão cantando na rua lindos versos de amor

Linda pastora morena da cor de madalena
Tu não tens pena de mim
Que vivo tonto com o teu olhar
Linda…

Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas terá sido mera coincidência.

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Abril 15, 2021

Fernando Zocca

 

 

Alguém poderia negar que um dos móbiles da morte do menino Henry, de quatro anos, assassinado pelo vereador Jairinho, foi a antipatia, e mais outros rejeitos, que o matador teria contra o pai da vítima?

Sabemos que os filhos podem receber a violência toda causada pelo ódio, raiva, frustrações dos adversários dos pais dos inocentes.

Esse fenômeno vem narrado, desde há muito tempo, na Bíblia Sagrada, como atitude condenável.

É, pois descontando no inocente indefensável, que os covardes compensam, satisfazem todas as suas frustrações originadas também nas ações ou comportamentos dos genitores do imolado.

Essa vingança indireta pode não chegar aos extremos do assassinato, mas por meio da difamação, do falso testemunho, da calúnia, do desmerecimento, da depreciação, do rebaixamento e do recalque, os perseguidores causam a deterioração física e mental dos infantes colimados, saciando assim a sanha vingativa.

Dessas atitudes opressivas faria parte do ato daquele velho tio tarado que, na noite do dia 31 de dezembro, do longínquo final de 1950, pegando pela mão um seu sobrinho, filho do parente a quem odiava, arrastando-o escada abaixo, numa carreira insana, parando defronte ao poste de metal da esquina e, com uma colher bater adoidadamente no poste gritando: “Feliz ano novo! Hahaha. Feliz ano novo!”

O menino bestificado, que acabara de ingressar no curso primário, só saberia do significado daquela insanidade toda, quando fosse informado que a colher usada pelo tiozão bêbado, referir-se-ia às colheres dos fórceps supostamente usados no seu nascimento.

Ponha-se também na conta da tese de que os filhos pagariam pelos pecados dos pais, o fato de que esse mesmo tiozão maluco, estando numa sala, a sós com a criança, diante de um recém-chegado aparelho de TV, apertando e sacudindo-lhe o braço esquerdo, dizendo-lhe em ato contínuo, com muito ódio, “você vai ficar louco!” aliviaria as tensões causadas pelo familiar, verdadeiro causador dos seus dissabores: o pai da vítima.

Faz parte também da sanha vingativa dos perseguidores a disseminação de boatos, fakes, contra as suas vítimas.

Desta forma naquele Jardim da Infância, quando a coleguinha de turma chamada Ângela, afasta-se frequente e ostensivamente da criança alvo, rejeitando-a humilhantemente, não poderia ela (a criança vítima), sequer desconfiar da boataria contra si, e seus pais, a não ser quando soubesse da existência da famosa atriz de cinema chamada Ângela Lansbury.

Pra quem não sabe Ângela Lansbury fez a dublagem de uma personagem central do musical A Noviça Rebelde, tendo atuado no filme Mary Poppins.

Bom, analisando ainda mais essa cadeia hereditária, a gente não pode deixar de mencionar o fato de que durante a adolescência, aquele menino bestinha de tudo, ao arranjar uma namoradinha e trafegar ostensivamente com ela pela rua central da cidade, aos beijos e abraços, ver-se-ia completamente decepcionado depois de flagrá-la nos braços de outro, no mesmo local.

E o que dizer do fato de que o camarada que “dedurou” a traição, a “chifragem”, informou ao enganado que o “fura olho” trabalhava numa loja de roupas do centro da cidade chamada Casas Bury?

E o que, meu querido leitor, diria disso tudo ao saber que a palavra bury em inglês significa enterro, morte, sepulcro?

Mas olha só, hein? Veja você.

 

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Abril 09, 2021

Fernando Zocca

talidomida.jpg

 

Por ter minha mãe usado a Talidomida por algum tempo nasci com a chamada síndrome da Talidomida.

O meu caso não foi assim tão trágico, como aconteceu com a maioria dos consumidores do tal produto pelo mundo todo, durante tanto tempo. (foto abaixo)

vitimas da talidomida.jpg

 

Entretanto a minha formação uterina não me propiciou nascer com (e depois desenvolver) os braços dos cortadores de cana, simiescos, ou de halterofilistas marombados.

Com os braços finos, mas não inoperantes, para mantê-los em boa forma, as flexões sempre foram, para mim salutares; acontece, meu amigo, que os movimentos continuados podem trazer consequências hoje conhecidas como LER lesões por esforço repetitivo. As inflamações, principalmente nos cotovelos são doloridíssimas, mais ainda que os desgastes nas articulações dos ombros.

Bom diante dessa situação você teria algumas alternativas: a) submeter-se ao uso de anti-inflamatórios mais analgésicos; b) reduzir a frequência dos movimentos c) aplicar as duas alternativas anteriores juntas e c) parar de uma vez por todas com os exercícios.

Diante das dores recorrentes que surgem também quando o tempo está mais frio ou úmido, não adianta se queixar ou reclamar.

Mas se eu dependesse da analgesia para, por exemplo, ganhar a vida praticando esporte, como o tênis e, durante um campeonato importante, para poder jogar e suportar as lesões articulares, eu tivesse que usar medicamentos considerados proibidos eu certamente não o faria; mas se o fizesse (usar substância considerada doping), e depois fosse flagrado com a tal no corpo, certamente não hesitaria em dar razão às autoridades que viessem a impugnar os meus resultados esportivos.

Como é feio, e também ridícula, a negação dos fatos; como é extremamente carente de bom senso rejeitar a realidade como, por exemplo, a nocividade desse covid-19.

A personalidade que assim age pode muito bem, no trânsito, depois de causar lesões corporais graves em alguém, dizer que parou onde deveria parar (quando na verdade invadiu a preferencial alheia), pode garantir que não usava celular enquanto dirigia; que não estava embriagada e que também tinha habilitação para dirigir.

Negando os fatos as consequências posteriores podem ser bem ruins. Há quem não negue que essa realidade particularíssima seria própria das personalidades esquizofrênicas.

Do mundinho particular desses doidos é bom não chegar muito perto: você não sabe quando será recebido com hostis coices ou patadas.

 

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Abril 05, 2021

Fernando Zocca

 

A coreica Marina Baldwin, calçando seus sapatos dourados, pensava em ter uma conversa bem séria com a vovó Bin Slave Laten, por isso pediu à sua irmã Revina que a levasse de carro, à casa da velhota balofa.

- Não sei por que você quer, a essa hora, 15 horas, com esse calor todo, ir até a casa da vovó. Por que não espera chegar sexta-feira quando, à noitinha, nos encontraremos conforme vem sempre acontecendo? Que pressa é essa Marina?

- Sabe o que é irmã? Estou com um negócio entalado no gogó faz tanto tempo que tenho até dificuldade pra respirar.

- Vai ver ocê pegou o Covid...

- Nada a ver querida. Já tomei a vacina como todas as outras idosas do trecho – respondeu, com segurança, a Marina fofinha.

- Bom, se o assunto é assim tão importante então vamos indo. Espere um pouco. Vou tirar o carro da garagem.

Revina ingressou no seu Voyage vintage cinza, acionou o motor, soltou o freio de mão e gritou:

- Abre o portão Marina e sai da frente! Ainda não decorei onde fica o breque dessa coisa!

- Está certo que faz pouco tempo que você foi habilitada, mas não quero nem pensar em te ver falando ao celular enquanto dirige. Deus me defenda dessa incúria – falou Marina enquanto se preparava pra embarcar no possante.

As irmãs saíram e, bem devagar, trafegaram pelas ruas do bairro até chegarem à casa da Bin Slave Laten.

- Será que a nona está? – expressou sua dúvida a Baldwin.

- Vamos ver né filhinha? Tenha calma – disse Revina coçando a sobrancelha esquerda.

Ao estacionarem o vetusto defronte a casa da gorducha vovò, as irmãs perceberam que a viatura da nona estava serenamente estacionada na garagem, ao lado duma pequena mesa clara de ferro, circundada por cadeiras também de ferro pintadas com a cor branca. Vários vasos de samambaia pendurados acima e ao lado da porta corrediça envidraçada davam um tom verde e fresco ao ambiente.

Ambas desceram e, diante do portão externo da matrona, acionaram a campanhinha.

Ao cabo de alguns minutos viram a porta corrediça de vidro transparente ser aberta por onde passou a corpulenta e antiga senhora trajando um vestido colorido leve que ia até os pés. Pantufas brancas calçavam os tornozelos grossos; a peitama toda se balançou pra lá e pra cá durante o caminhar da anciã pela garagem.

A velhinha abriu o portão da rua dizendo:

- O que pode ter motivado essa visita inusitada sob esse sol do Saara, minhas amigas?

Revina respondeu:

- A Marina está ansiosa, não consegue esperar por nossa reunião semanal; quer porque quer, falar com a senhora agora mesmo.

- Está tudo bem com você Marina? - perguntou a vovó. Depois murmurando em voz baixa, muito baixa, baixa mesmo expeliu: - canhão de Waterloo!

As três mulheres entraram e na sala de visitas puseram-se a vontade.

Marina começou a falar dum jeito muito singular: falava como os “flanelinhas”, orientando supostos motoristas, que tentavam estacionar seus veículos.

Uma enxurrada de palavras sem sentido, num tom monocórdico, vibrava na sala. As samambaias tremiam e balançavam como se tocadas por ventos fortes vindos de fora.

- Sabe o que é queridíssima vovó? – perguntou Revina tentando responder às expressões faciais de curiosidade e espanto demonstradas pela vovó diante da “chuva” do palavrório da visitante.

- Sim, me diga Revina. Eu sabia que essa mulher não tinha bom juízo – disse a vovó rodando o indicador da mão direita sobre a orelha ao apontar com o queixo a Marina que se distraia observando as pantufas da nona - Mas que estava nesse estágio, pra mim é novidade pura – concluiu ela.  

- Quando Marina tinha uns cinco anos foi acometida pela febre reumática que não teve boa cura. Ela então passou a ter uns tipos de movimentos involuntários que os médicos denominam dança de São Vito ou Coreia, cuja sintomatologia evoluiu até os 15 anos quando então os tais movimentos coréicos transformaram-se em verblização incoercível. Na verdade a febre atacou os poucos neurônios que ela recebeu de herança genética de papai e mamãe. Essa pessoa não fica sem falar do mesmo jeito que as pessoas comuns não ficam sem piscar os olhos por muito tempo.

- Fala Marina, minha anciã doidinha, conta pra vovó qual é o seu drama? – perguntou Bin Slaten com a voz semelhante a das velhas benzedeiras residentes nos locais afastados.

- É o que segue preclara anciã de longas lutas, das pegadas infernais, das eleições vitoriosas e da sacanagem geral na paróquia: quando éramos pré-adolescentes e morávamos numa casa bem velha, duma esquina esquisitíssima, eu vi com muito sentimento no meu coração, que havia outra vizinha, bem velhinha; ela estava doentinha e não saía do quarto. Uma vez fui visitar a tal da dona Titi (ela se chamava dona Titi) e da cama, ela começou a choramingar dizendo que “não podia descansar durante as tardes porque havia um fdp dum moleque morador da casa ao lado que chutava, sem parar, aquela maldita bola de capotão no muro do quintal. Parece que o pai dele comprou a pelota só pra me ver sofrer com os chutões. Pode isso dona professora?”

- Mas e sua febre? Melhorou? Você não é metralhadora, mas fala pra dedéu. Você considera isso uma virtude, algo digno de orgulho? Negadinha, o padre, seus parentes, os vizinhos te respeitam por causa disso? – perguntou a nona exibindo dentes brancos enormes da dentadura recente que mandara fazer no colega protético.

- Olha dona nona: eu só sei que quando aquele lazarento insuportável chutou, numa tarde a bola, com a força de não sei o quê, fazendo-a subir sobre o telhado da dona queridíssima Titi, indo cair no meio da rua da minha casa, eu ao perceber a ocorrência, corri feito uma gazela saltitante e, abrindo o  portão rústico de tabuas velhas, mantido fechado por uma tranca de pau bem grosso, peguei a bola e, jurando que o morfético não teria sossego durante toda sua existência, entreguei a pelota pro meu pai que, numa tarde, a levou pro bar dando-a a um amigo dele com a recomendação de que a tal bola deveria ser chutada contra aquele jogadorzinho de araque.

Revina completou a história:

- Aquele colega de boteco, do papai, levou a bola pro clube onde o menino, e seus irmãos frequentavam e, durante uma partida deu um chute tão forte que quebrou o bracinho do vizinho otário. Neguinho quase não se formou no primário por causa do bracinho engessado.

- Sim, mas e agora, Marina você ainda gosta de lambari frito? – perguntou a vovó mudando completamente de assunto.

- Gosto sim. Compro no mercado; gosto de lambari empanado com trigo. Mas a senhora sabe que o rio Tupinambicas das linhas, hoje em dia, é um esgoto a céu aberto. Quem come aqueles peixes não pode negar que come também muito cocô, né não?

- Sim, é verdade minha querida colega. Mas veja o adiantado da hora. Desculpem-me, preciso preparar a janta do maridão, entendem? – disse a vovó levantando-se ao encerrar o encontro.

- Ficamos muito agradecidas de nos ter recebido aqui no seu reduto dona Bin Slave. Esse local é tão sossegado, tão tranquilo que parece uma clínica psiquiátrica de repouso, né não? – manifestou-se Revina.  

- Não há de quê, minhas queridas. Eu sei como sofrem com essa moléstia. Mas a senhora dona Marina, não deve mais perder tempo: procure logo um especialista em neurologia ou psiquiatria. Sabemos todos que essa tal de febre reumática e suas sequelas, como a Coreia ou dança de São Vito, são doenças muito danosas.

- Vou procurar saber sobre o assunto – disse Revina ao acompanhar Marina que saia para a calçada.

No carro as duas irmãs, sob o efeito do calor, comentavam:

- Que velha chata hein? – inquiriu Revina engatando a primeira e saindo vagarosamente.

- Nem me fale irmã. Pensei que ia melhorar ao contar pra ela esse meu desatino antigo, mas só piorei. Ó vida, viu? Cadê papai? Quero papai!

 

(revisei o texto às 21:57 - hora de Brasília - neste dia 05 de maio 2021).

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