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O Prato do Dia

O Prato do Dia

Julho 27, 2021

Fernando Zocca

 

1.

 

Rosinha quando adolescente vadiava pelas ruas quase desertas do bairro.

Ela gostava de caminhar sozinha, olhando para as fachadas das casas, pensando sobre as cores com que eram pintadas e, se podia, parava para ouvir as conversas que vinham dos seus interiores.

Não era incomum levar sustos imensos quando, buscando o mais tênue vibrar do lar conturbado, estacionava distraída defronte as residências donde vinham discussões, queixas, choros e rangeres de dentes, e arrepiava-se toda com os latidos ensurdecedores dos cães que, de surpresa, se aproximavam latindo.

Mas naquela tarde ensolarada, a mocinha caminhou, depois de desobedecer a mãe, que a mandara trabalhar na coleta do lixo reciclável, indo parar num terreno em que algumas pessoas cercaram com arames grossos, mourões resistentes pretendendo fazer ali uma espécie de rodeio.

Rosinha foi entrando até o meio do local cercado e ia transpô-lo todo quando, de repente um enorme cão preto avançou sobre ela latindo e rosnando.

A menina assustou-se voltou-se para trás, mas não teve tempo de escapar do ataque.

O bicho furioso pulou na garota tendo-lhe mordido a barriga, na altura da cintura, perto do umbigo.

Gritando mais por causa do susto do que pela dor da dentada, ela saiu correndo, só parando quando chegava perto da sua casa.

Passou pelo estacionamento de carros velhos, e livrando-se das pilhas de papelão juntados por sua mãe, defronte a porta da casa, ela foi logo avisando que um cachorro tinha-lhe mordido.

O pai da Rosinha que passava a maior parte do seu dia mais bêbado do que gambá nos dias de jogo do Corinthians, assustou-se com o que a menina falava.

- Mas como foi isso? – perguntou o velhote que a olhava com aqueles olhos mais irritados e vermelhos que os sinais de pare dos semáforos.

- Foi um cachorro que avançou em mim e me mordeu – respondeu Rosinha.

- Mas e se ele estiver com raiva? Você vai ficar doente. Onde foi que te mordeu?

- Aqui pai, ó – respondeu Rosinha levantando a camiseta, mostrando-lhe a barriga donde saia gotículas de sangue.

- Ah, “mai” vá “sabê” se esse cachorro “tava” doente! Onde é esse lugar?

Rosinha explicou ao pai que, encafifado com a possibilidade do cão agressor estar contaminado com o vírus da raiva, saiu nervoso arrastando a menina por um braço, intencionando saber da saúde do cachorro agressor. 

Durante o trajeto Genildo suava e falava no perigo que a filha estaria passando. Afinal o cão cruel não lhe dera chance de escapar sem nenhuma mordidinha que fosse.

- Louco, esse cachorro está louco? E agora onde vamos pra curar essa doença? Como a gente faz, com quem podemos conversar sobre essa agressão?

Rosinha suava frio e precisava dar dois passos para parear, manter-se ao lado do pai que, com passadas longas, ia à frente arrastando a mocinha.

Depois de uma dezena de longos minutos intermináveis, pai e filha estavam no local onde acontecera a agressão.

- É ali, pai. Olha lá o cachorro, e aquele viadinho que esta do lado deve ser o dono da encrenca.

A pessoa dona do lugar, ao ver o casal que se aproximava adiantou-se perguntando o que desejavam.

- Essa menina aqui é minha filha e ela foi mordida por esse seu cachorro. Eu quero saber se ele está doente, com raiva. Se tiver preciso levar minha filha ao médico pra tomar aquela injeção. Sabe como é? – explicou todo afoito o Genildo.

- Imagina que meu cachorro está doente? Gente... Pode isso? – Com o animal peludo nos braços, Enrico afagava a fera que rosnava pra menina.

- Bom, então posso ficar sossegado? Essa cria do demônio está sã? Olha o senhor me fala a verdade porque então vou procurar ajuda médica.

- Gente... O que é isso? – então ocês acham que eu não teria cuidado com o meu pet? Olha que coisa mais linda, mais fofa. E que pelos. Veja... Gente um cão doente pode ser tão bonito assim?

Pai e filha foram saindo deixando Enrico de pé no centro do círculo cercado por arames. Quando estavam há alguma distância Genildo virou-se para trás dizendo em voz alta:

- Moço, saiba que não existe cachorro bom de dono ruim e nem cachorro ruim de dono bom. Com certeza, se essa cria do capeta é agressora você também pode ser. Mantenha preso esse animal se não ele pode atacar as pessoas que passam desavisadas na rua.

2.

Passados 15 ou 16 anos Rosinha, da escola que frequentara, passou a trabalhar no sindicato dos coletores de lixo reciclável, onde tivera contato com as teorias sociológicas e políticas. Seu pai falecera de cirrose hepática e a mãe, com artrose nos joelhos, por causa do peso do lixo que costumava carregar pelas ruas, já não tinha mais aquele vigor exuberante para o trabalho.

- Mãe, a senhora fique sossegada que eu ajudo nas despesas. Estou ganhando bem como secretária do presidente do sindicato e meu salário está mais firme que falo de noivo. Fique bem. Deixa comigo – Rosinha tranquilizara a mãe, mas não dissera a ela que o presidente, a diretoria, e a maioria dos associados do sindicato apoiavam a ideia de lançá-la como vereadora nas próximas eleições.

- Verdade isso Rosinha? Você vai se meter na política? – quis saber a velhinha, já alquebrada, depois de ouvir o zunzum da vizinhança que comentava o assunto.

- Isso é coisa do presidente do sindicato, o Tonho Zelenkoy que precisa de gente que sirva mais de cabo eleitoral do que de vereador de verdade no partido. Mas eu vou concorrer sim.

- Menina, saiba de uma coisa: o signo da república é o quás-quás-quás, o estelionato, o zunzum, o equívoco, o engodo, o 171 político, o drible. A gente sabe como é política. Não foram uma ou duas vezes que ocorreram golpes militares motivados pelas fraudes nas atas, nas eleições. Isso começou com a deposição de Pedro II e prosseguiu com a política do café com leite, da república velha (1899-1930) do Estado Novo (1930-1945) ou Era Vargas até os dias atuais. Quem não aplica essas estratégias não tem como chegar ao topo – disse com segurança Tonho Zelenkoy à Rosinha ao ofertar-lhe um sanduba imenso, na cozinha do sindicado, depois do expediente, quando todos os demais funcionários saíram.

3.

É meu amigo leitor quando bem trabalhadas as intenções concretizam-se: Rosinha foi eleita.

No segundo ano do seu mandato, quando já se incomodava com os comentários da oposição que afirmava, aos quatro ventos, que até aquele momento ela não se dignara a desalojar a busanfa gorda da cadeira legislativa pra emitir um mísero discurso, contra ou a favor do governo, Rosinha casou-se.

- E aí, como é o sortudo? – inquiriu Tonho Zelenkoy o presidente do sindicado, também do partido e agora presidente da empresa fornecedora de água para a cidade.

- Ah, Tonho... Romeu, meu marido, é um moço novo. Magrinho, mas vai engordar. Gente boa. Filho de um lanternista que dizia que alegria de funileiro eram as trombadas das viaturas, cujos consertos, mantinham os ganhos da oficina.

Já no final do seu mandato umas reportagens nas rádios, nos jornais da cidade mostravam Rosinha com ferimentos no rosto, pontos no queixo, olhos roxos, dentes quebrados e ferimentos nas mãos e braços.

- Mas o que foi isso Rosinha, minha filha? – quis saber a mãezinha que se aproximava com o auxilio de um andador.

- Mãe, é o seguinte: como a senhora sabe eu e o Romeu dormimos em quartos separados. Ele ronca muito. Insuportável. Então numa manhã – agora não me lembro qual – eu amanheci assim, vá vendo... Cheia de machucados, parecendo que levei uma sova. Mas eu não sei como foi que isso aconteceu. Fiz Raio-X das costelas, das pernas e o Romeu que é também enfermeiro providenciou esses primeiros curativos. Estou bem.

“A polícia da cidade já investiga esses fatos. Eu não sei de nada, não me lembro de nada.”

Os murmúrios nos bairros, nas praças, na camara municipal, na prefeitura, no Fórum, nos clubes sociais, nos jornais e nas rádios, indicavam que Tonhão Zelenkoy sabedor de que sua vereadora dormia em quarto distante do marido, convencendo Rosinha de que ficar sem calor humano, durante noites e noites seguidas, seria prejudicial ao seu desempenho no legislativo, se prontificou a aquecer seu coração e sua alma com o corpanzil que o formava.

O povo comentava que, numa noite de calor muito intenso, Romeu, não tendo como conciliar o sono entrou repentinamente no quarto da Rosinha proporcionando, desta forma, o maior flagra envolvendo pessoas importantes, que a cidade já presenciara em toda sua história.

Tonhão mais esperto que coelho ao presenciar a cachorrada farejante, safou-se correndo nu pela rua, com a cueca, a calça, a camisa e os sapatos amarrotados contra o peito.

Romeu sentiu que desmaiaria. Mas lembrando-se da sua madrasta que lhe afirmava, a todo o momento, durante sua adolescência, ser ele um homem com ó maiúsculo, depois de ouvir da Rosinha a palavra louco, desandou a “embolachar” a vereadora. Bateu tanto, tendo inclusive, corrido com uma faca atrás dela, que a infeliz, assustadíssima, só foi pensar na Lei Maria da Penha, semanas depois.

Tonhão Zelenkoy, de longe, ao celular orientava a vereadora:

- Olha, não complica. Diz que você caiu da bicicleta, da moto, da cama, sei lá o que, mas não acusa o personagem. “Deixa ele” calmo; faz ingerir calmantes. O jogo continua. A “gente neném vamos ser felizes”.

Nos dias seguintes Rosinha, segurando firmemente a mão do esposo, tendo convocado os jornalistas para entrevistas coletivas afirmava sob os flashes dos fotógrafos:

- Pessoal, não sei como isso aconteceu. De repente estou toda embarangada e horrível. Esquisito isso não é?

Sim, meu amigo leitor, esquisito, muito esquisito, esquisitíssimo.

  

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Julho 12, 2021

Fernando Zocca

 

 

fred mercury.jpg

 

Se Fred Mercury (foto) vivesse em Tupinambicas das Linhas seria, por causa daquela proeminência dentária, certamente apelidado de castor.

A dentuça do Van de Oliveira Grogue fazia também lembrar os castores, aqueles animaizinhos que vivem construindo barragens usando pedras e gravetos cortados com os dentes afiados.

- Esses dentes são seus, Van insolente? – inquiriu certa ocasião Marina Baldwin quando o moleque chato, no quintal da casa dela, riu desbragadamente do seu irmão ao vê-lo enfiar o dedo na cloaca da galinha em busca de possível ovo.

Mas então, por não deter aquelas condições mínimas para frequentar satisfatoriamente um bar todos os dias ele, em certa ocasião, muito sutilmente, foi convidado por um anão, também conhecido como pintor de rodapés, ou mensageiro das decaídas, usuário das botinhas sem meias, a conviver noutro ambiente, onde havia similaridade com a condição de dentuço, (castor miserável), que não tinha dinheiro nem pra pagar a mísera pinga diária.

Naquele outro boteco, pra onde Van foi levado num fusca vermelho, o castor era outro: seu patrono inspirador, que avivava o ambiente, o Castor Gonçalves de Andrade e Silva, Castor de Andrade, bicheiro e cartola comandante da contravenção no Rio de Janeiro era a alma daquele trecho insalubre, doentio, da região central da cidade.

- Bom, fazer o que com quem não dispõe de nada além de um radiozinho a pilhas usado? – inquiriu um dos chefões da tal loteria setorizada dos bichos.

- Manda pro Rio de Janeiro – respondeu outro sócio do botequim - Compra aquela porcaria de rádio portátil, só pra ajudar com as despesas da viagem e some com ele nas areias de Copacabana.

- Ah, mas não seria bom que fossem de carona até a cidade maravilhosa? – questionou Rosaneide a chefona barriguda, padecente de gengivite, que há décadas não via um falo amigo, tendo por esse fato delírios onde via adolescentes a exibir e oferecer as sensações daquele símbolo da fecundidade da natureza.

- Vai de carona, sim. Principia pegando ali na saída da cidade e sumam. Metam a cara pra outro lugar – sentenciou o olhudo das conjuntivas irritadíssimas por causa do exagero no consumo da “já-começa”.

E lá se foram pro Rio de Janeiro, viver alguns dos piores dias das suas vidas, aqueles dois idiotas que, iguais a folhas secas caídas ao chão, vagavam dum lado a outro conforme sopravam os ventos.  

 

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Julho 05, 2021

Fernando Zocca

 

 

Passar boa parte do tempo ocioso num rancho de pescarias pode ser tentador.

Alguns veem nisso uma forma de se isolar, afastar-se do estresse da cidade populosa.

Os tais ranchos de pescaria são lugares isolados, afastados, rústicos, sujeitos a assaltos, estupros, assassinatos e violências mil de toda sorte. A pessoa que se propõe a morar num local desses deve manter-se armada constantemente a fim de se defender. O problema surge quando se destaca a possibilidade da posse do armamento, que o morador possui atrair os bandidos. Então ao invés de sossego o morador terá, na verdade, momentos de muito mais tensão e estresse.

Os frequentadores casuais dos ranchos sabem que sem pinga, revistas e vídeos pornográficos, pra matar o tempo, a estadia demorada pode ser entediante.

Se a frequência do ambiente acontece com a aglomeração de muitos adeptos é possível ocorrer aquele fenômeno em que todos falam e ninguém ouve.

É bem possível que surjam os momentos longos extremamente chatos, maçantes, em que o mais espertinho daqueles que se julgam os tais, por terem participado dos incríveis, inesquecíveis e indeléveis cursos de “engenharia humana” ou de “liderança” falem adoidadamente sozinhos. Nesses casos os tais lideres expoentes mostram, não raras vezes, extremado nojo ao ouvir o que teriam a dizer os que o ladeiam.

Como sabemos esses locais denominam-se “rancho de pescarias”, mas o que menos acontece, na maior parte do tempo, é a efetivação da pesca.

Se o responsável pelo lugar inventa de fazer uma obra aproveitando a presença, e a mão de obra dos “chegados”, não é raro ver que a maioria mande e ninguém obedeça.

Carece ainda, há muito tempo, uma pesquisa esclarecedora para saber se os prazeres obtidos num rancho são maiores que os dissabores sofridos ali como, por exemplo, com as infestações de insetos causadores de sérias perturbações da saúde.

Das conversas emergentes sob aqueles climas etílicos e onânisticos você pode aprender que “politico sem povo é galinha sem ovo” e que os milionários (olha que não são poucos), enriquecidos com os frutos das fraudes na administração pública têm muito “dinheiro no bolso, mas solidão no coração”.  

Olha, meu amigo, o melhor mesmo é morar na cidade, num bairro em que as pessoas não sejam muito hostis, ocultamente agressivas, e demonstrem ser portadoras de boa ou relativa saúde mental.

 

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