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O Prato do Dia

O Prato do Dia

Junho 10, 2018

Fernando Zocca

 

 

Quem dissesse que Tupinambicas das Linhas era um dos lugares mais atrasados da América do Sul poderia ser apedrejado, mas não estaria sem razão.

Enquanto no mundo todo os fatos, os acontecimentos, as ocorrências, as aulas, eram registradas nos celulares e computadores, em Tupinambicas das Linhas, as anotações, especialmente na câmara dos vereadores, eram ainda feitas com as canetas tinteiro e o mata-borrão.

Numa sessão ordinária em que haveria a discussão sobre o projeto de lei do executivo municipal isentando os motoristas de ambulância de pagarem o ISSQN, imposto sobre serviço de qualquer natureza, os debates acalorados entre Zé Lagartto, que trazia na bagagem cinco mandatos de quatro anos, e Márcia Pachekowska, discursava o vereador:

- Senhor presidente, nobres pares, povo que nos acompanha da galeria, pelas rádios e TVs da cidade: quero dizer que é de relevante importância a aprovação deste projeto do nosso querido e ilustríssimo prefeito, professor doutor Jarbas o Caquético Testudo, já por vária e várias legislaturas, reconduzido ao posto mais elevado da nossa querida terra, porque tem o objetivo primordial, isto é, mais importante, de propiciar melhor maleabilidade aos nossos queridos trabalhadores que, dirigindo as ambulâncias, prestam relevantes serviços ao nosso povo.  Para os cofres do município as isenções não terão tanta relevância visto haver o aporte das subvenções dos governos estadual e federal.

- Um aparte, nobilíssimo colega! – manifestou-se Márcia Pachekowska depois de levantar o dedo indicador, ornado com anéis, da mãozinha direita.

- Com a palavra a minha querida Pachekowska – respondeu Zé Lagartto.

- Infelizmente não poderíamos, de forma alguma, aprovar este projeto, uma vez que vai reduzir sensivelmente o volume dos depósitos dos cofres públicos. Temos ainda que lembrar ao vereador e a esta nobre casa, que o executivo tem compromissos com a subvenção das moradas populares, a reforma duma dezena de escolas, bem como o pagamento dos fornecedores das merendas escolares servidas aos nossos alunos.

Naquela ocasião Fuinho Bigodudo, ainda vereador, presidia a sessão e percebendo um princípio de embate, foi logo tentando amenizar o princípio do que ele considerava uma quizumba fenomenal.

- Vossa excelência tem mais 10 segundos, nobre vereadora.

- Perfeitamente, senhor presidente – respondeu Márcia ao Fuinho. Depois se dirigindo ao Lagartto e aos demais colegas presentes continuou:

- Muitas e muitas viaturas da frota municipal, desta nossa cidade, carecem de reparos que não são feitos por absoluta falta de peças de reposição. O município tem uma dívida enorme com os fornecedores de combustível e, neste momento, seria insensato isentar quem quer que fosse de qualquer tipo de taxa ou imposto. Será o Benedito que todas as despesas das nossas administrações devam ser pagas pelos governos do estado e da união? Ora, assim não dá. Assim não pode.

Um burburinho preocupante formou-se na galeria. Os vereadores agitavam-se nos seus lugares. Fuinho percebeu que o barulho poderia aumentar.

- Calma senhores. Vamos devagar com isso. Prossiga senhor Zé, nosso querido e vetusto Lagartto.

- Exatamente. Nossas praças têm mais vida, nossos bosques mais amores, nosso céu muito, mas muito mais azul e não poderia deixar de ser uma pequena sacanagenzinha, com os nossos servidores, motoristas de ambulância, a agravação dos seus vencimentos com mais esse imposto, que, na realidade, não significa tanta coisa para a nossa economia.

- Sim é verdade, senhor presidente - gritou da sua mesa – com o punho fechado e o braço em riste, o vereador Ary Ranha Petroso. Se continuarmos a taxar nossos queridos servidores, logo não os teremos entre nós. Sem estímulos ficaríamos sem motoristas. Isso é o mesmo que ficarmos sem os peixes-boi em nosso lendário rio Tupinambicas. Onde já se viu isso?

- Um momento senhores! – Fuinho queria conter os ânimos antes que a desordem tomasse conta da situação. Ele se lembrava duma confusão em que houve sopapos, empurrões bate-boca, puxões de cabelo, mordidas na orelha, beliscões na bunda, safanões e pontapés na canela entre os pares durante uma audiência pública em que o presidente da Companhia de Água e Esgoto da cidade explicava os aumentos injustificados nas contas de água dos milhares de consumidores.

“Calma cambada de f.d.p.” pensou, mas não disse nada o vereador Fuinho ao mesmo tempo em que acionava o sinal sonoro sob seu domínio, na mesa diretora da reunião.

Apesar dos esforços do senhor presidente o bafafá estava instalado. O banzé de cuia dominava. Fervilhava o zunzunzum e os ânimos extrapolavam o comum.

Márcia Pachekowska embrulhou-se numa bandeira da cidade e gritava a todos os pulmões:

- Eu protesto! Eu protesto!

Um princípio de motim com o lançamento de objetos instalou-se entre os presentes.

Foi neste momento que o vereador Lindolfo Blackwithe, perdendo a calma, pegando o tinteiro de cima da sua escrivaninha, lançou-o contra Márcia Pachekowska com uma violência jamais vista ali naquele local.

Márcia quando percebeu que seria atingida abaixou-se tendo o tinteiro acertado o peito do Ary Ranha Petroso. Seu paletó, sua camisa e gravata mancharam-se com aquela tinta nanquim azul.

Batendo com violência um mata-borrão na mesa, Fuinho Bigodudo anunciou levantando-se da sua cadeira:

- Está encerrada a sessão.

Sentado na galeria, desde o começo dos trabalhos, o deputado federal Tendes Trame, que percebera não conseguir reeleger-se mais uma vez ao cargo que ocupava já há dezenas de anos, pensando em terminar sua carreira numa cadeira na câmara municipal tupinambiquence, ao presenciar as ocorrências daquela sessão ponderou desanimado:

- Sabe quando ainda tenho saco pra aguentar essas coisas?   Never, my friend.

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