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O Prato do Dia

O Prato do Dia

Março 15, 2020

Fernando Zocca

 

 

 

 

marielle franco.jpg

 

- Seu Fernando! Sua pressão está muito alta! - gritou com voz esganiçada a enfermeira ao lado da minha cama.


Com um susto intenso despertei do cochilo quando então vi que ela portava uma seringa imensa com uma agulha finíssima e longa, prestes a enterrá-la no meu bracinho esquerdo.


Seu olhar era de quem estava alegre, pimpona,  dando-me a impressão que se sentiria muito  melhor com as minhas inevitáveis manifestações de dor.


- É claro que está alta. Com esses ferros todos fincados na perna seria esquisitíssimo se a pressão
estivesse normal - respondí-lhe mal humorado.


- Essa medicação é pra dor - explicou ela brandindo a seringa diante dos meus olhos.


Depois de injetar com força  e muita rapidez o líquido na veia do braço esquerdo, por onde havia, há dias,  um cateter permanentemente fixado com esparadrapo,  ela, quase que gritando,  com aquela voz agudíssima ordenou:


- Abra a boca! Põe a língua pra fora!


Obedientemente fiz o que me mandara quando então ela pôs um comprimidinho cor de rosa na língua ordenando-me em seguida:


- Não mastiga, nem engole. Deixa dissolver debaixo da língua.


O ferimento doía-me 24 horas por dia. Não houve um momento sequer, durante os 10 dias de internação, em que deixei de sentir as dores do machucado.


Passados mais de 7 meses após a colisão, caminhadas vagarosas, em dias alternados, no Parque do Piracicamirim e no do Santa Cecília, substituem, para o gáudio da patuléia odienta, as 10 voltas diárias que eu fazia em trote brando, tanto num quando noutro parque.


- Não foi acidente! - afiançou-me um amigo.


- Você acha que foi de propósito? - perguntei sentindo a dúvida.


- E claro! Você esta cercado de idiotas favoráveis a politica corrupta do executivo e tem a coragem de não desmerecer a probidade, a honradez? Ora faça-me o favor! Você teve sorte de não ter levado uma rajada como a Marielle. Lembra da Marielle Franco? Então... Fica quieto! Os retardados não sabem, não conseguem fazer o que você faz, por isso, para eles, é impossível responder no mesmo nível, nos mesmos termos; então eles usam a agressividade, a violência do irracional, dos insanos criminosos que sempre foram.


Depois desta arenga prometi que ficaria quieto pensando em deixar para o ministério público e ao judiciário as investigações, julgamentos e as justas condenações tanto do delinquente atropelador quanto dos lesadores das finanças publicas. Isto é se não forem eles - os representantes dessas instituições - permeáveis ao aporte das altas, frequentes e gordas somas dos corruptores.

 

 

Julho 13, 2019

Fernando Zocca

 

 

Esse negócio de Astrologia é muito sério. E quando ocorre então, na mente das pessoas extremamente sugestionáveis, a combinação com o jogo do bicho, a coisa pode complicar bastante.

Por exemplo, o sujeito reside numa casa cujo número é 164. No bicho, a dezena 64 é o leão.

Bom, daí o camarada que é geneticamente prejudicado, carente dos mais básicos ensinamentos da escola primária, dado ao alcoolismo ou à drogadição, depois de saber, pelos guias astrológicos, das chamadas características dos “leoninos”, pode comportar-se, em alguns sentidos, como o tal bicho.

Então o sujeito, ou os sujeitos, cabeças fracas, crendo terem algumas características do tal animal silvestre e num poder capaz de lhes conceder, por exemplo, o domínio do quarteirão, praticariam as mais bizarras barbaridades como agredir vizinhos, parentes, e abusar sexualmente, além da concubina, também das crianças enteadas sob sua responsabilidade.

O tal, que pensaria possuir alguns atributos do leão, ingeriria muita comida, principalmente carne, de frango ou de vaca.  Daí a ter problemas de estômago, intestinos e vomitar constantemente, é um pequeno passo.

Se o bendito, pelos números do dia ou mês, do seu nascimento identifica-se, por exemplo, com o gato, pode agir como esse bichano, furtando objetos da própria família, confirmando a crença de que esse bicho é ladrão.

Agora se o camarada reside numa casa cujo final é 24 ele pode até retirar a plaquinha identificadora do imóvel, ou tentar seduzir a mulher do vizinho, provando que, apesar de residir sob o número correspondente ao veado ele é macho, muito macho mesmo.

Nesse sentido não há de se achar estranha a atitude do cidadão que, tendo nascido num dia 18 (no bicho porco), dedica sua vida inteira ao comércio da carne desse animal.  

Se o menino nasceu sob o signo de Virgem (22/08 a 22/09) pode sofrer alguma rejeição ou até mesmo o bullying na escola, nos esportes, nas corporações militares e clubes sociais.

- Ah, esse é fraco. Afrescalhado, não serve – diriam os sabichões, que por terem rixa com os pais do garoto o rejeitariam com essa alegação irrelevante.   

As atitudes criminosas de alguns psicopatas, às vezes, chegam ao ponto de agir no sentido de envolver a vítima em combustível, por crerem que o escorpião, quando cercado pelo fogo, mata-se.

No bicho o 93 corresponde ao veado. Você acredita que tem quem não queira residir numa habitação que lembre esse bichinho delicado e fresquinho?

  

 

Setembro 08, 2018

Fernando Zocca

 

 

Cesário Motta.jpg

 

Quando eu era adolescente, ali por volta de 1964, morávamos ainda à Rua Benjamin Constant, quase esquina com a Ipiranga.

Tínhamos uma vizinha que era mantida diuturnamente presa no seu quarto, pelo próprio irmão.

A mulher, de meia idade, não se comunicava a não ser por grunhidos frequentes e, de vez em quando, por algumas poucas palavras.

O irmão dela conhecido como Salvador resolveu fazer na garagem da casa, uma lojazinha onde pretendia comercializar tecidos, linhas, agulhas, dedais, alfinetes e outras coisas relacionadas com as roupas.

Numa tarde quente quando eu estava sentado à porta da casa, depois do café da tarde, a calmaria do trecho foi revirada quando Angelina, a vizinha, irrompeu rua afora numa corrida doida, tendo ao seu encalço o irmão que gritava desesperadamente para que ela parasse.

O fato não teria sido tão incomum se a moça, trajando um pijama, descabelada, expelindo saliva pela boca e narinas, procurava também aos berros, fugir do opressor, equilibrando perigosamente um penico lotado nas mãos.

Cerceada e capturada no meio da rua a mulher foi conduzida, enquanto protestava e ameaçava atingir o captor com os excrementos, de volta pra casa.

Meia hora depois o comerciante, já defronte à sua loja, atendia um freguês que desejava comprar um cristal de quartzo.

- Olha eu tenho... Nossa, que sorte... Eu tenho este aqui. Está quebradinho numa das extremidades, mas é bem bacana. Mas por que o senhor quer isso? – quis saber Salvador.

- Ah, é porque eu gosto – informou o freguês.

O comprador pegou o objeto, pagou o preço e depois, quando saía da loja improvisada, perguntou:

- E aquela moça que vive gritando, babando e correndo pela rua? É sua esposa?

Bastante envergonhado Salvador respondeu:

- Não. Ela é minha irmã. Ela não fala, vive amuada e precisa tomar um remédio receitado pelo médico. Quando não usa a medicação tem esses piripaques, essas doideiras, que assustam a vizinhança. Ela gosta de bater portas, portões e faz cocô no chão do banheiro. Não posso ficar sossegado que de repente tenho que sair correndo pra acudir. Estou pensando em pedir pra umas mocinhas vizinhas tomarem conta da loja pra mim.

- Minha nossa!

O comerciante Salvador continuou:

- Ontem fui à farmácia, aquela que fica na Rua Governador, vizinha do bar do japonês, comprar o Stelazine, o tal remédio que ela toma. Mas não tinha. O senhor viu a turbulência, a desordem?

- E o Cezário Motta, aquele hospital pra lelé, o senhor não conhece? Fala com o Emílio que ele dá um jeitinho pro senhor.

- Emílio Reinaldo Adamoli, o vereador? – indagou curioso o Salvador.

- Não, bem. O Emílio Petrim. Ele trabalha lá.

- Vou ver se consigo – concluiu o carequíssimo Salvador, esperançoso de que o trancafiamento da irmã no sanatório pudesse dar a ele, e aos vizinhos, alguma paz.

Julho 24, 2017

Fernando Zocca

 

Naquela terça-feira, às 11 da manhã, Van de Oliveira Grogue, pilotando uma tremenda moto vermelha, passaria defronte ao bar do Bafão. Na garupa levava a loura, alta (1,82m) olhos verdes, cabelos esvoaçantes que segurava firme no assento.

Ao ver, de longe, os considerados na porta do estabelecimento e, pensando em não ser notado, Van aumentou a velocidade do veículo, mas não pode deixar de ouvir:

- Eh Van hein... Vai levar pra comer?

A moça, sentindo-se incomodada com a brincadeira, cabeceou, batendo o seu capacete no do Grogue.

- Não ligue lindinha. Esses caras não sabem o que falam.  Parecem papagaios.  Esse nhenhenhem é dia e noite. Não tem fim. É movido a muita pinga ruim.

- Ai que chato, meu neguim. O que a vizinhança vai pensar de mim? – insistiu a loiraça.

Falando mais alto que o ruído do motor da moto e, de vez em quando, voltando o rosto pra trás, Van tentou acalmar a companheira:

- Às vezes a maldade está na cabeça da gente mesmo. Neste caso só pode ser na sua. O “levar pra comer” que cara falou na porta do boteco, referia-se ao almoço no restaurante da praça central onde vamos comer aquela bisteca imensa com fritas.

- Ai sim, meu neném. Dou o meu maior apoio – disse a moça, encerrando aquela conversa, enquanto percebia o namorado atravessando célere e consecutivamente os vários sinais verdes da avenida em que trafegavam.  

Julho 05, 2017

Fernando Zocca

 

 

Rua do Porto 27 de janeiro de 2016 042.JPG

 

A tia Bete, uma colega de caminhadas e corridas pelos parques da cidade, achava que havia certa semelhança entre os políticos desonestos e os usuários das drogas ilícitas.

- Sabe, seu Fernando, eu tinha uma vizinha que infelizmente sofreu o desprazer de ter um de seus parentes viciado no uso daquelas substâncias que a polícia não permite que sejam usadas – disse-me a tia Bete quando completávamos a quinta volta na pista do parque do Piracicamirim.

- Verdade? – indaguei, carregando naquele tom expressivo de extrema curiosidade e torcendo pra que ela me contasse mais sobre o que sabia.

- Era um bafafá tremendo naquela casa. Não havia praticamente sossego. Era de manhã, de tarde e durante as madrugadas que o zunzunzum do fumacê vigorava. A Leila, tadinha, babá da molecada, de tanto nervoso, não sabendo o que fazer, buscava alívio comendo demais; engordou feito uma jaca molenga e agora sofre com o açúcar no sangue – continuou a Bete enxugando o suor que lhe escorria sobre os olhos.

Eu arfava, suava com os passos vigorosos, mas a fome de saber o que acontecia, naquele trecho do mundo, me fazia atentar mais e mais nas palavras da minha colega querida. Ela então continuou:   

- Um vizinho nosso, que é metalúrgico aposentado, e que vaga hoje pelos bares do bairro, barrigudo feito um guaru, me contou que o mais corrompido furtava os objetos da casa pra vender. Com o dinheiro comprava os satisfatores da sua adicção.

Eu então compreendi o paralelo que a Bete traçara entre os maus gestores públicos e os usuários de drogas. Os primeiros desviavam os recursos que não lhes pertenciam para a satisfação dos seus maus propósitos da mesma forma que os viciados desviavam os bens da casa da família para serenar os clamores do vício.

- Eu não sei não, mas em minha opinião, esse pessoal todo, tanto os ladrões da coisa pública, quanto os viciados precisam de tratamentos. Além de condenados pela justiça, os primeiros devem devolver o que não lhes pertence; convém passarem depois por períodos de reciclagem e serem instruídos a não cometerem mais tantos dissabores contra os que confiaram neles.

- É verdade dona Bete. A senhora tem razão. Se o pessoal encarregado não moralizar essa gandaia toda, chamando os meliantes pra cima do palco e dando, nas orelhas deles, piparotes corretivos a credibilidade das instituições desmoronarão infalivelmente – concordei eu já, naquela altura da caminhada, bastante cançado.

Quando completei minhas usuais e corriqueiras dez voltas reduzi a velocidade e fui parando devagar. A Bete, esbanjando saúde, dizendo bye-bye e acenando tchauzinhos, seguiu firme em direção ao portão da saída do parque.

Fevereiro 21, 2017

Fernando Zocca

 

 

 

Mesquita.jpg

 

Quem teria a cara de pau de, estando um casal hospedado num hotel, em lua de mel, aparecer de surpresa, sem ser convidado, e fazer gracinhas?

Quem teria a coragem de irromper na casa daquele a quem o considerava um bom colega pedindo-lhe emprestada a máquina de escrever com o objetivo de preencher, com falsidades, os documentos constituintes dos direitos de aposentadoria, de uma centena de pessoas, junto ao instituto de previdência social?

Quem teria a audácia de convidar vários casais de pessoas amigas para passarem uma noite na chácara onde semanas antes abusara sexualmente duma menor de idade, criando desta forma, situação que causaria dúvidas sobre a autoria do crime?

Quem, meu amigo, quem se tornaria proprietário de posto de gasolina só pra se aproveitar das mocinhas ingênuas previamente contratadas para os supostos cargos de encarregadas da administração?

Quem a não ser ele, o mais fenomenal, esperto, satírico, satânico, lascivo e indestrutível Donizete Pimenta Aarder seria assim tão capaz de tantas artimanhas, safadezas e esquisitices mil pra ver-se satisfeito diante do sofrimento alheio?

Quem viveria da jogatina de baralho nas sedes sociais dos clubes de futebol, ganhando e perdendo dinheiro e automóveis?

Quem, a não ser o finório Donizete Pimenta Aarder, responderia a todos que lhe perguntassem o que fazia no momento, com “o que se faz aqui, nesta cidade? Se tivesse praia, eu estaria lá. Antigamente havia o clube de Regatas. Nessas horas, com esse calor, eu estaria na piscina”?

Quem teria a caradura de entrar numa agência de automóveis e, emitindo um cheque sem fundos, “comprasse” um veículo zero quilômetro e depois, respondendo sobre se havia ou não fundos para o cheque, responderia com a ideia de que até a devolução do documento ele teria a posse do carro e poderia, enquanto isso, viajar ao Rio de Janeiro, (onde ingeriria sucos das mais variadas frutas), a fim de possibilitar a aceleração dos tramites burocráticos que possibilitariam a obtenção de mais um benefício previdenciário fraudulento?

Quem, hã? Quem a não ser o inabalável Donizete Pimenta Aarder o finório inquebrantável e sempre sujeito oculto da polícia e do ministério público, seria capaz de perder no carteado, a casa em que morava com suas filhas, deixando-as desamparadas?

Entretanto, quando informaram ao Delegado de Polícia sobre os deslizes atuais da tal figura, a autoridade teria respondido num tom que amedrontaria até ao mais frio e calculista meliante:

- Deixa ele... Deixa ele pra mim que ele vai ver como as coisas funcionam...

 

 

 

Dezembro 14, 2016

Fernando Zocca

 

 

 

Bodão.jpg

 

Henriqueta Fossa e Elisa Buffa conversavam na esquina:
- E aí, amiga? Sarou da ressaca? - perguntou Elisa.
- "Mardita" pinga aquela que me deram... Me fez um "mar" terrível - respondeu Henriqueta.

- Toma um chá de boldo, comadre. Você vai ver tudo melhora - consolou Elisa. E depois concluindo:

- A senhora já passou dos 82 anos. Não seria bom parar com a talzinha?

 - Que nada filha... O que é que a gente vai fazer numa quiçaça dessas? Se não tem o boteco, o que a gente faz?
- Mas dona Henriqueta... E o crochê, minha nega? - provocou Elisa.

- E lá eu sou velhota de crochê? Ora faça-me o favor dona Elisa. E me dê licença que meu feijão está no fogo; parece que a panela tá bufando.

- Vai dona Henriqueta... Vai... Vai tomar... Lá na sua cozinha,  conta do seu feijão.

Depois do almoço, lá pelas três horas da tarde, Henriqueta saiu de casa e foi direto ao armazém da esquina onde pretendia comprar o leite e o pão para o café da tarde.

Como não gostava de caminhar pela calçada, a velhota, alta, magra, desengonçada, que falava grosso devido a um problema na garganta, iniciou o percurso pelo meio da rua.

Enquanto caminhava um automóvel vendendo pamonha anunciava pelo alto-falante:

- Olha a pamonha, senhora dona de casa. É o legítimo creme do leite. É a pamonha de Tupinambicas das Linhas. Venha conferir minha senhora...

Henriqueta sentiu-se incomodada. Teria sido aquela funesta Elisa Fossa, a vizinha maledicente a responsável por essa gandaia toda no quarteirão? Quem é que aguentava tanta judiação?

Não teve tempo de concluir o seu raciocínio porque já tinha chegado ao armazém.

Havia um pessoal aglomerado, esperando numa fila, a vez de pagar o que comprara, no caixa.

Sentindo-se insegura Henriqueta imaginou que se estivesse na sua cidade natal, Salvador, na Bahia, estaria bem menos nervosa.

- Seu Messias, eu quero 24 pães. Me põe em dois sacos, faz o favor. E me dê também um litro de leite de caixinha. De saquinho já ando cheia.

Messias conhecia bem a figura. Olhou-a por cima dos aros dos óculos e disse:

- Ô Almeida: atende a dona Henriqueta. Que ela tem pressa.

Almeida, atrapalhado com as suas 1001 ocupações no armazém, deixou o que fazia e atendeu a freguesa dando a ela o que pedira.

Saindo com os embrulhos Henriqueta sentenciou:

- Põe tudo na minha conta, seu Messias, lindinho da vovó, que no final do mês a gente pagamos.

Messias tirou a caneta que estava equilibrada na orelha direita e anotando a despesa numa folha de papel, passou a receber o dinheiro dos demais que estavam na fila.

Na volta, caminhando pelo meio da rua Henriqueta sentiu-se obrigada a usar a calçada porque um caminhão vendendo gás de cozinha passava anunciando, tendo ao fundo a sinfonia Für Elise, do compositor alemão Beethoven,  a mercadoria pelo alto falante:

- É o gás, meu amigo, minha amiga e senhora dona de casa. Aproveite a promoção. Leve agora o seu gás e ganhe um brinde lindo.

Chateada Henriqueta chegou a sua casa. Quando se preparava para tomar o café alguém tocando, com insistência a campainha foi logo lá de fora gritando:

- Como é sua velha safada!!! Quando vai pagar os 182 reais que me deve?

Era Elisa Buffa que acarinhando a barbicha branca de um bode velho, parada defronte ao seu portão, incomodava-a mais outra vez.  

 

Março 25, 2016

Fernando Zocca

 

 

A oposição politica abrange o todo relacionado com o adverso

 

 

O Esporte Clube XV de Novembro de Piracicaba não é partido político, mas também é 15. Apesar de ter boa estrutura, bons jogadores, departamento técnico, diretoria e presidência, o time representante esportivo da cidade, não tem bom desempenho nas competições que participa.

Muitos atribuem os resultados pífios, ruins, obtidos nos campeonatos, à urucubaca relacionada com os figurões da politica local.

Não poderia trazer maior azar para a população em geral do que as atitudes contrárias aos interesses dela. Assim, desta maneira, que boa sorte haveria nos atos administrativos que aumentam desbragada e ilegitimamente os preços da água na cidade?

A oposição politica abrange o todo relacionado com o adverso. O PT (13) é aliado do PMDB (15) no governo federal por três gestões consecutivas; em Piracicaba, o governo tucano (45) que, da mesma forma é hóspede fixo da prefeitura, ocupando também a maioria das cadeiras da câmara municipal, não teria tanto interesse em beneficiar com a boa sorte o time da cidade.

A má sorte a que nos referimos é a que produz, por exemplo, as ações do Deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e Wlamir Schiavuzzo (PSDB); o primeiro de Brasília que por meio de projetos contrários a estrutura econômica do país e o segundo de Piracicaba, por ações descabidas, aumentando os preços da água, tentaram ambos criar, ou criaram, obrigações desnecessárias para a população. Em outras palavras mais estorvaram do que ajudaram as tais figuras.

E o que pode esperar o Esporte Clube XV de Novembro do executivo e legislativo municipais que, se o apoiassem, poderiam ser apontados como contestadores dos interesses partidários?

O XV foi fundado em 1913. Portanto, o meio político em que está inserido, segundo dizem, lhe é altamente antagônico e hostil.

O time piracicabano foi vice-campeão em 1976 quando perdeu o título paulista para o Palmeiras. De lá pra cá outros clubes do interior venceram o São Paulo, Corinthians, Santos, Palmeiras e outros mais, sagrando-se vencedores dos certames disputados no estado.

Ou seja, o PSDB (45) não teria maior prioridade do que a de fazer pontes, pinguelas, recapear asfalto, construir prédios públicos suntuosos em prejuízo do atendimento nas áreas da saúde, segurança, incentivo aos esportes, saneamento básico, transporte e educação. Nada mais.

Provas disso tudo são as frequentes condenações das administrações tucanas pelo tribunal de contas do Estado de S. Paulo. Reforçam entretanto as irregularidades administrativas municipais a aprovação, pela câmara, das contas antes condenadas pelo tribunal.

A cidade não tem time que a represente bem. O que tem não interessa, em termos publicitários, aos atuais detentores fixos dos estofos da hospedaria municipal.

A constituição é omissa, mas não deveria ser, nesses casos de reeleições consecutivas. Tem cidadão no seu sexto ou sétimo mandato. São mais de 20 anos ocupando estofos que por princípio deveriam ter rotatividade na ocupação. Só nas monarquias e nos países onde ainda há o uso da violência na manutenção do poder que esse tipo de coisa acontece.

A política piracicabana carece de novos nomes, novas ideias, determinações. Não podem as pessoas que ai estão julgarem serem elas as únicas e insubstituíveis inteligências políticas capazes de resolver os problemas da cidade.

Tem vereador que passou quatro anos sem apresentar um único projeto, promover um debate qualquer, falar alguma coisa, defender um ideal, nada. Nadica de nada.

Apesar disso, ainda bem, o monopólio da fala mantém-se nos setores que se opõem aos ditames arcaicos, ultrapassados, da urbe.

O governo federal autorizou o ensino da medicina em Piracicaba. No entanto, como os interesses do PSDB são bem diversos dos do PT, a população pode não receber a faculdade. Não se sabe a que mais se prestariam essas orientações tucanas além de desmerecer os eleitores com os preços irrazoáveis nas contas de água, obstruções ao ensino universitário e barreiras terríveis às alegrias do povo trazidas pelas vitórias do glorioso Esporte Clube XV de Novembro.

O passar do tempo e a transformação da situação politica no Brasil exigem duas alternativas a serem estudadas e inseridas na Constituição da República. 1. Limitação de reeleições e 2. Voluntariedade do voto.

Sem isso, meu amigo, a patifaria municipal que a tantos faz sofrer não teria como ser debelada.

 

Setembro 18, 2015

Fernando Zocca

O telejornal Hoje, da Rede Globo, exibiu nestes dias, reportagens sobre alguns resultados da alfabetização de crianças na fase do aprendizado das primeiras letras. 

A constatação de que meninos e meninas, com 10 anos ou mais, regularmente matriculados e frequentadores das salas de aula, com sérias dificuldades para concluir as mais elementares operações matemáticas e de leitura, poderia causar estranheza, mas nem tanto.
A análise concluiu que do universo do grande número de crianças com limitações do aprendizado, faz parte o analfabetismo dos responsáveis.
Desta forma os adultos como pais, padrastos, avós e tios incumbidos da manutenção e educação dos pequeninos, sob sua reponsabilidade, não teriam como conduzir eficazmente a alfabetização deles, por indisporem das noções básicas sobre o assunto.
Assim, como poderia alguém falar de algo que desconhece para outrem com o intuito de, educando-o, inserí-lo nas relações sociais deste mundo moderno?
Crianças com 10 ou 11 anos, no mínimo, já deveriam saber ler fluentemente, contar moedas e notas de pequeno valor.
Essa deficiência, se não corrigida a tempo, gera adulto inábil para concorrer a qualquer vaga de emprego. Se adicionarmos a esse fator limitante o fato de que a automação das máquinas, irreversível entre os atos humanos, na indústria e no comércio, podemos concluir que o futuro da criança, que não aprende, será bastante tenebroso.
Uma colheitadeira de cana faz o trabalho de uma centena de homens. Caixas eletrônicos, que não exigem aumentos salariais, férias, e nem faltam ao trabalho, por dores de cabeça, ocupam os lugares de quem antes exercia o ofício de caixa de banco.
Da mesma forma, máquinas que vendem jornais, refrigerantes e cervejas, instaladas nas ruas, fazem o trabalho de muitos que antes poderiam dedicar-se às ocupações de camelô.
Quem há alguns anos passados vivia do emprego de cobrador, nos ônibus circulares, hoje vê as máquinas eletrônicas exercendo a função.
Oficiais de pintura, nas fábricas de automóveis, eram considerados de extrema importância para o resultado positivo dos produtos finais.
Hoje robôs enormes pintam os carros com a mesma eficiência. Eles trazem também, aos bolsos dos industriais, aquelas verbas todas que seriam utilizadas no pagamento dos salários e demais encargos trabalhistas.
Portanto para as crianças de hoje, que não teriam a compreensão da língua mãe, do português, falado em nosso país, de que valeriam os computadores, tablets e outras maravilhas da tecnologia, se não conseguem utilizá-los nem ao menos para o desfrute nos momentos de lazer?
Para os meninos e meninas que, projetando fugir da escola, com a certeza de no futuro sobreviverem como taxistas, a notícia destacada é a de que automóveis sem motorista já circulam no mundo todo.
Sem a educação fica dificílimo o relacionamento pessoal.

Setembro 12, 2015

Fernando Zocca

 

 

Era na garagem que o titânico, carequíssimo, orgulhoso daquele seu bigodinho fino, se livrava do elmo da hipocrisia.

E de lá, disfarçadamente, observava a babá que, no colo, defronte a casa da patroa, no meio do quarteirão, carregava o neném.

E, já pela manhã, bem sujo de graxa, percebia ele que os resmungos madrugadores, dos neuróticos insones, eram tão importantes, bem necessários, quanto o ensinar os peixes a beberem água.

É claro que o tal não discordava da opinião geral vigente que solicitava muita surra o sujeito que, em processo de desasnamento, insistia nas provocações.

Exato, mas em meio a tantos automóveis e caminhonetes a receberem reparos, nos seus motores, partes elétricas, tinha também o mecânico barrigudo, a tênue noção de que aquela sua filha única careceria de acompanhamento psicológico.

Sim, meu amigo: a vida moderna, agitadíssima, não requeria somente a dedicação às artes plásticas. Haveria a necessidade da atenção de alguém mais experiente, mais escolado. Até a mãe da criança concordava com o projeto.

Além disso tudo, ele sabia, mas o que poderia fazer contra o hábito dos seus empregados mecânicos que, depois do almoço, adentrando, um depois do outro, no baú da caminhonete avariada, sempre presente, entregavam-se à felação exercida pelo ávido gordinho agitado?

Desacorçoado com aquele moleque burrinho, que permanecia inerte e ineficiente no almoxarifado sujo da oficina, o carecoso, sabia que nem a simulação de conversas ao telefone poria jeito na criatura.

Tinha o chefe da empresa a notícia de que o retardadinho, sentando-se frequentemente no sofá, com algumas moças direitas, não usufruía de nem ao menos dos mais ingênuos beijos na boca.

Que lástima. Talvez a vida de mecânico velho, já aposentado, fosse bem melhor.

 

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